CARTA DA CALIFÓRNIA |
Último Combate da Marinha Portuguesa
Após uma longa história de heróicos lances, a última ocasião em que
unidades
da Marinha Portuguesa fizeram fogo em som de guerra foi em África, no mês de
Novembro de 1970. Tudo começou quando, a princípios de 1969, chegou a
Bissau a informação de que a URSS tinha fornecido à Guiné-Conakry sete
vedetas-torpedeiras, quatro das quais destinadas ao PAIGC (Partido Africano
da Independência da Guiné e de Cabo Verde), que então havia já conseguido
implantar-se firmemente em território da chamada Guiné Portuguesa.
Fazendo fronteira com o sul da Guiné-Bissau, a Guiné-Conakry, antiga colónia
francesa, conta com cerca de 7 900 000 habitantes, distribuídos por umas
três dezenas de grupos étnicos e linguísticos. O idioma oficial é o francês.
Em 1970 o Presidente desta república popular era Ahmed Sekou Touré, nascido
em 1922. Chefe da Reunião Democrática Africana (RDA), em 1956 empenhou-se
numa luta anti-francesa sob o lema "Preferimos a pobreza em liberdade à
riqueza na escravidão".
Em 1958 a Guiné-Conakry conseguiu a independência e Sekou Touré tornou-se o
seu Presidente, instituindo um governo de nítido carácter esquerdista. A sua
política ditatorial levou a uma forte resistência dentro do país.(1) É pois
fácil compreender que este governo se oporia a qualquer sistema colonialista
e se mostraria favorável a apoiar movimentos autonomistas, como era o PAIGC.
Foi pois nestas circunstâncias que esta nação se tornou a principal base
logística e de treino dos guerrilheiros chefiados por Amílcar Cabral.
As quatro vedetas do PAIGC, com uma deslocação de 66 toneladas, podiam
atingir uma velocidade superior a 40 nós. Estavam armadas com duas peças
anti-aéreas e dois tubos lança-torpedos. Dada a sua mobilidade e poder de
fogo constituíam evidentemente uma grave ameaça para Portugal. De facto
não
lhes seria difícil acercar-se durante a noite ao porto de Bissau sem serem
detectadas e afundar qualquer navio aí atracado, incluindo um dos paquetes
então utilizados como transportes de tropas. Entre estas unidades contava-se
o Niassa, o primeiro navio mercante a ser requisitado para esse serviço, com
capacidade para receber mais de 3 000 homens.
Foi por esta altura que o Capitão-Tenente Alpoim Galvão, especializado em
operações de mergulhadores-sapadores, concebeu um plano para pôr fora de
acção estas vedetas, tanto as da Guiné-Conakry como as do PAIGC. O método
consistiria em conduzir equipas de homens-rãs em lanchas, durante a noite,
até ao porto de Conakry. Aí os militares portugueses aporiam minas-lapa no
costado das vedetas potencialmente inimigas.
Terminada a sua missão, esse contingente regressaria a Bissau, ainda a
coberto das trevas. Dentro de poucas horas as minas explodiriam. Uma vez
afundadas as vedetas, esperava-se que a autoria da operação não fosse
determinada. No fundo era um plano que deveria ser desenvolvido com a maior
discrição, já que Portugal não se encontrava em estado de guerra com a
Guiné-Conakry e portanto não seria, sob um ponto de vista legal,
justificável um ataque às suas forças.
O projecto mereceu o apoio do então Brigadeiro António de Spínola,
Governador e Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné, o que
possivelmente contribuiu para que fosse também aprovado pelo Chefe do
Estado-Maior da Armada, decerto com a aquiescência de entidades superiores.
Com o caminho agora aberto, Alpoim Galvão deslocou-se à Áfrical do Sul
na
companhia de um inspector da Direcção Geral de Seguraça (DGS), a sucessora
da PIDE. Tratava-se de adquirir nesse país as minas necessárias para a
execução desta audaciosa empresa. (Recorde-se que a União Sul-Africana foi o
único país deste Continente que de forma activa cooperou com Portugal na
luta contra os movimentos autonomistas.) Obtido o material desejado,
Alpoim
Galvão escondeu-o na sua bagagem e assim o levou para Lisboa, de onde depois
seguiu para a Guiné.
A fase seguinte consistia em obter dados sobre as instalações portuárias de
Conakry. Nem em Lisboa nem em Bissau se tornou possível encontrar uma planta
da cidade, de modo que houve que optar por uma observação in loco. Para isso
destinou-se uma lancha que durante a noite entraria no porto, camuflada como
pertencendo ao PAIGC. A unidade escolhida, a meados de Setembro de 1969, foi
a lancha Sagitário. Para manter a ilusão, determinou-se que no caso de a
embarcação ser avistada, apenas tripulantes africanos pudessem ser vistos na
coberta. Um cabo de fuzileiros (2), ostentando boné de oficial, aparentaria
ser o comandante.
Dando uma volta para simular ter vindo do sul, a lancha entrou no porto de
Conakry às duas horas da noite de 17 de Setembro sem qualquer incidente,
embora no seu trajecto se houvesse cruzado com alguns barcos de pesca. O seu
radar pôde determinar a localização exacta dos cais. Tudo correu bem e
preparavam-se para iniciar o regresso quando deixou de funcionar o gerador
da lancha, o que obrigou a que fosse fundeada ainda dentro do porto.
Criaram-se naturalmente momentos de grande tensão a bordo mas conseguiu-se
reparar a avaria sem grande demora e a embarcação pôde atingir Bissau a são
e salvo.
O magnífico êxito desta operação incentivou Alpoim Galvão a alargar o
escopo
da seguinte, a que seria dado o nome de código "Mar Verde". Havia
conhecimento da existência em Conakry de 26 prisioneiros de guerra
portugueses (3) e o empreendedor oficial propôs a Spínola tentar a sua
libertação, proposta com que o Comandante-Chefe entusiasticamente concordou.
Mais do que isso, alvitrou também a destruição das instalações do PAIGC no
porto.
O plano da "Mar Verde" iria no entanto continuar a ser ampliado.
Já desde
1964 as autoridades portuguesas tinham mantido contactos com o FNLG, o Front
de Libération National Guinéen, uma organização que fortemente se opunha ao
regime de Sekou Touré. Pensava-se mesmo em autorizar o FNLG a criar bases em
território da Guiné Portuguesa para daí lançar operações militares.
Encarou-se então a hipótese de usar forças armadas do FNLG para
colaborarem
na Operação "Mar Verde", o que, esperava-se, poderia levar à deposição
de
Sekou Touré e à instalação de um governo mais avesso a uma hostilidade a
Portugal. De novo Spínola, agora já promovido ao posto de general, alinhou
com esta iniciativa. Pouco a pouco a operação ia assumindo um decidido
carácter de bola de neve.
A utilização de forças do FLNG neste empreendimento implicava vários
problemas. Um deles consistia nas desfavoráveis repercussões internacionais
de um golpe de estado fomentado num país estrangeiro pelo Governo Português.
Também os elementos da organização se encontravam dispersos por vários
países africanos e tornava-se imperioso reuni-los e trazê-los sob o maior
sigilo até ao território da Guiné Portuguesa, onde seriam treinados. Uma vez
aí foram levados à ilha de Soga, de onde não lhes era permitido sair, a fim
de que se mantivesse absoluto silêncio sobre a sua presença. Embora muitos
deles houvessem já servido no exército colonial francês ou no da
Guiné-Conakry, foram submetidos a uma intensa preparação, dirigida por
instrutores portugueses, que durou de Janeiro a Novembro de 1970.
Conseguido o assentimento do Presidente do Conselho de Ministros, Marcelo
Caetano, com a condição de que não fosse deixado em Conakry qualquer indício
da intervenção portuguesa, tudo estava preparado para lançar a ³Mar Verde²,
apesar dos graves riscos políticos que poderia desencadear.
Ao fim da tarde de 19 de Novembro zarpou da ilha de Soga uma força naval
comandada por Alpoim Galvão e constituída por quatro lanchas de fiscalização
e duas de desembarque. A bordo seguiam uns 200 homens do FLNG, fuzileiros
guineenses e uma companhia de comandos também africanos.
Apoiadas por um avião da Força Aérea Portuguesa, estas unidades navegaram
para o sul e conseguiram atingir as imediações de Conakry, sem a sua
presença ter sido observada, pelas vinte horas do dia 21 de Novembro. As
lanchas fundearam depois em pontos diferentes, esperando a hora do
desembarque, marcada para a uma e trinta da madrugada de domingo, dia 22.
O primeiro passo a ser dado era o da neutralização de todas as vedetas, o
que também impediria qualquer resistência séria. Dessa missão encarregou-se
uma equipa de catorze fuzileiros africanos, comandados por um jovem oficial
europeu. Em absoluto silêncio tomaram lugar em botes de borracha. A um lado
de um pontão encontraram as quatro vedetas do PAIGC, amarradas entre si, e
do lado oposto as três da Guiné-Conakry. No pontão avistaram uma sentinela,
que se lhes afigurou estar adormecida. Um grumete aproximou-se em silêncio e
matou a sentinela com uma punhalada.
Vieram em seguida os restantes membros da equipa, que através das escotilhas
lançaram para o interior das vedetas granadas de mão que liquidaram os
tripulantes que aí se encontravam e causaram vários incêndios. Isso alertou
um posto instalado no telhado de um armazém da doca, de onde começou a ser
feito fogo de metralhadora.
Apesar de ter sofrido alguns feridos, a equipa pôde regressar aos botes,
deixando em chamas as vedetas, que pouco mais tarde explodiram.
Pela uma e quarenta largaram de outras lanchas dez botes transportando uma
equipa destinada a tomar posse de um complexo militar a perto de sete
quilómetros da cidade. Alguns dos botes embaraçaram-se em armações de pesca,
o que atrasou o desembarque. A equipa dividiu-se então em três grupos. O
primeiro encaminhou-se para a prisão La Montaigne, onde se encontravam
detidos os prisioneiros portugueses. Após um breve combate com os guardas,
os prisioneiros foram libertados.
O objectivo do segundo grupo era o ataque a instalações do PAIGC, o que foi
alcançado com a destruição de cinco edifícios e algumas viaturas. Também
foram abatidos alguns militantes do partido.
O terceiro grupo, após um violento combate com os defensores, arrasou um
complexo de milícias e uma residência de férias de Sekou Touré. Poderá
admitir-se que o ataque ao segundo alvo teria sido concebido com o fim de
eliminar o Presidente, o que não aconteceu.
De outra lancha largaram três equipas. A primeira assaltou o quartel da
Guarda Republicana e libertou cerca de 400 presos políticos, alguns dos
quais pegaram em armas e se juntaram aos atacantes. Essa lancha atracou ao
cais do Yacht Club e desembarcou as outras duas equipas. Uma delas ocupou a
central eléctrica e cortou a energia para a cidade, com o propósito de
desorientar os defensores e facilitar a retirada dos atacantes. O terceiro
grupo ocupou sem resistência um campo militar e destroçou uma coluna
motorizada que acorrera ao local. Pelas quatro da manhã haviam sido
alcançados com êxito e apenas ligeiras baixas os objectivos situados na
parte norte da cidade.
Já na parte sul a acção não decorreu com tanto sucesso. Uma equipa vinda
para terra à uma da manhã, comandada por um alferes guineense e
encarregada
de ocupar a estação emissora de rádio, não conseguiu chegar ao seu destino
por falta de orientação. Sete outras equipas todavia cumpriram as suas
missões no interior da cidade sem grande resistência, com a excepção da
encontrada no quartel da Gendarmerie. Neste recontro foi destruída uma
coluna de blindados. No palácio presidencial também não foi possível
encontrar Sekou Touré.
Ainda outra equipa, a que fora dada ordem de ocupar o aeroporto e destruir
os aviões de caça Mig que se deviam aí encontrar fracassou no seu intento. A
caminho, um tenente guineense desertou, levando consigo vinte homens.(5) O
comandante da equipa, um capitão pára-quedista europeu, prosseguiu no seu
trajecto mas teve a surpresa de não encontrar no aeroporto os Migs, que dias
antes haviam sido transferidos para outro local.
O propósito inicial de Alpoim Galvão era de permanecer em Conakry até que o
governo de Sekou Touré fosse derrubado. Considerando contudo que como os
Migs não tinham sido destruídos, o que poderia constituir um grave perigo
para as suas embarcações, decidiu-se por uma rápida retirada. Aliás soube-se
mais tarde que os aparelhos não estavam operacionais, dada a falta de
preparação dos seus pilotos. Desanimou-o também a constatação de que o FLNG
não reunia as condições para um eficaz apoio popular na sua tentativa de
subir ao poder.
A partida de Conakry teve lugar já depois do nascer do sol e o regresso a
Bissau processou-se sem obstáculos de maior, embora tivessem sido feitos
quatro tiros de morteiro em direcção a uma das lanchas. A flotilha
aportou
à ilha de Soga no dia seguinte, a meio da tarde.
A meticulosidade com que a Operação "Mar Verde" foi planeada e
executada
revelou-se verdadeiramente notável ao nível militar. As vedetas foram postas
fora de combate, várias instalações do PAOGC inutilizadas e os prisioneiros
portugueses libertados.
O custo humano orçou apenas por três mortos e três feridos graves.
No plano político resultou no entanto num estrondoso fracasso. Sekou Touré
continuou no poder e Amílcar Cabral não foi aprisionado ou abatido, como
seria decerto o secreto desejo de muitos.
É contudo curioso notar que "Mar Verde" representou a única acção
de
envergadura realizada em qualquer das três frentes das campanhas coloniais
por forças de combate predominantemente africanas. (5) De todos os modos, no
fundo foi um esforço tão inútil como todos os outros levados a efeito
durante os longos anos da guerra colonial, rematada pela via política sem se
terem obtido os resultados propostos.
NOTAS
(1) Através da sua obra Poèmes militants (1978), Sekou Touré tornou-se
também conhecido como poeta.
(2) Recorde-se que o Corpo de Fuzileiros Navais faz parte da Marinha de
Guerra Portuguesa.
(3) O aprisionamento de militares portugueses em África era um segredo
rigorosamente imposto pela censura aos meios de comunicação social.
(4) Parece que este oficial foi mais tarde executado por ordem de Sekou
Touré.
(5) A deserção do tenente guineense com os seus homens constituiu um
incidente que ilustra a continuada relutância portuguesa de empregar forças
africanas em missões de combate contra a guerrilha.

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