A cor purpurina dos jacarandás é uma das coisas belas que recordo do
Zimbabué. Em Harare - antiga Salisbury -, alinhados nos passeios em
linhas
perfeitas, as belíssimas flores destas árvores davam à cidade uma
exuberância de jardim. Eu gostava do país. Desagradava-me, contudo, a sua
mentalidade social. As suas leis. Um branco, por exemplo, não podia falar
com um negro na rua. Se o fizesse, corria o risco de ser interpelado pela
polícia. Disparates assim.
Mas ao contrário de Angola, nunca vi nas cidades nenhum negro descalço.
Apareciam na rua de casaco e gravata, chapéu inglês, sapatos impecavelmente
lustrados. E no entanto pobres. Paupérrimos.
Para minha surpresa, apresentaram-me um dia um conterrâneo meu, do sudoeste
de Angola. Era um homem entroncado, meia-idade, que articulava o português
com enorme dificuldade. Mais de vinte anos naquele país deixara-lhe uma
lamentável erosão vocabular. Sem dinheiro para viajar, tinha conseguido um
feito extraordinário: atravessou a pé a África do Sul até chegar ali, a
mais
de mil quilómetros de distância...
Após seis meses, fui-me embora. Se quisesse continuar a viver lá teria de
passar parte do tempo no mato de metralhadora em riste. Eu não estava,
simplesmente, para isso. Bastaram-me os tiroteios angolanos, as cinzas ainda
frescas da descolonização. Saí com alguma pena. Deixava atrás muitos
amigos.
Entre eles um velho negro, ajudante de mecânico na Rhodesia Railways.
No último dia, em tom ciciante, disse:
- Vais-te embora e não me deixas uma recordação?
Eu queria fugir pela porta das traseiras. As despedidas sempre me
atormentaram, sempre me custaram parte do coração.
Não tinha, de facto, nada de valor que lhe deixasse. Apenas uma caneca de
plástico, do chá. Aquilo? Seria um insulto. Ante a minha hesitação, fez um
gesto de assentimento. Dei-lha, envergonhado. Pegou nela e foi-se embora com
palavras escondidas na garganta. Os olhos, húmidos, disseram tudo.
Tinha sido um bom amigo. Aparecia vagaroso, cheio de pó vermelho e ferrugem
dos vagões no fato-macaco. A idade, muita, cansara-lhe o corpo. Sentava-se
ao meu lado, numa caixa de metal da ferramenta. Enquanto comíamos as sandes
do almoço, curioso, fazia-me perguntas sobre Angola. Amiúde contava
histórias da vida dele e do país. Humanista, não compreendia o racismo, a
pobreza e a guerra. Eu escutava-o com reverência. A sua velhice, sábia,
tolerante e afável, era a parte de África que me faltava.
Os rostos da amizade são vários e nunca têm cor. Como a música de Schubert,
são graves ressonâncias do espírito, anjos de som. As cidades, os lugares,
os momentos mais intensos da nossa existência estão quase sempre marcados
pela sublime música de um gesto solidário.
O Zimbabué, verde, fresco e com as rosas mais aveludadas que eu já vi, foi
uma passagem muito breve de rostos angélicos. Ainda hoje gravitam, leves e
fulgurantes, no meu espírito. Sobretudo a do meu velho amigo, afastando-se
com o pó e a ferrugem da sua vida, curvado sob o imenso peso do Mundo.