| Os professores são terroristas
|
Eu concluo que deve haver apenas um tipo de escola, grátis para todos, quer
sejam ricos ou pobres, católicos ou protestantes, bancos ou pretos,
excluindo ninguém,e compreendendo a todos
- Charles Summer, advogado americano do século XIX
que lutou a favor do sistema de educação pública
Para o bem ou para o mal, há coisas que só acontecem na América. O
secretário da Educação do executivo de George W. Bush, Roderick Paige,
acusou o sindicato de professores dos Estados Unidos como uma, imaginem só
esta: "organização terrorista."
A infeliz alegação foi feita pelo responsável máximo que tutela o ensino a
nível federal nos States, durante um debate com um grupo de governadores
americanos de visita à Casa Branca, sobre a política de George W. Bush
para
as escolas publicas norte-americanas - o contestadíssimo programa "No
Child
Left Behind." O qual não passa do primeiro passo deste governo para
banalizar a educação publica para todos a favor do ensino privado para
poucos. É que esta administração ainda não compreendeu, nem jamais
compreenderá, a famosa frase do imperador romano Cícero, que em muitos
aspectos não era flor que se cheirasse, mas um dia (e todos nós temos um
dia) acertou ao dizer que: o maior presente que podemos dar à republica é
ensinar e instruir as nossas crianças, ao que eu acrescentaria: todas as
nossas crianças, por igual.
A Associação Nacional de Educadores, que conta com cerca de 2,7 milhões de
docentes membros apoiou, inicialmente, a proposta da administração de Bush
Filho para, supostamente, reestruturar o ensino, o produto de mais um dos
famosos acordos bipartidários, este elaborado em 2001, entre a Casa Branca e
um grupo de líderes democratas em ambas as Câmaras do Congresso, o qual foi
chefiado pelo conhecido senador Edward Kennedy. A legislação exige
exames
regulares aos alunos no ensino primário e secundário com a ameaça de
penalidades financeiras e encerramento de escolas que não atinjam os
requisitos estabelecidos.
Poucos meses depois da promulgação da lei, o sindicato dos professores
rejeitou várias alíneas da legislação, introduzidas à última hora pelos
legisladores mais conservadores. Os líderes do movimento sindicalista,
aperceberam-se, de imediato, que a legislação, não passava de um conjunto de
medidas com o objectivo de designar as escolas públicas como falhanços em
prol das escolas privadas. O sindicato acusou a administração Bush de
abjurar nas promessas de dotar os estabelecimentos de ensino público com os
recursos financeiros necessários para implementar as medidas que a nova lei
consolidava. Estas acusações têm sido apoderadas pelos candidatos
democratas, particularmente o Senador John Kerry, que, também votou a favor
da lei.
Não há que ser ingénuo, a chamada "reforma" do sistema educacional
dos
Estados Unidos serve dois propósitos: a curto prazo, a legislação fazia
com
que um Presidente Republicano apoderava-se, pela primeira vez, de um
conjunto de medidas que têm, tradicionalmente, sido parte inerente das
plataformas democratas, permitindo a George W. Bush caminhar para a
reeleição de 2004 com o epíteto do "presidente da educação."
A longo prazo,
e talvez bastante mais nocivo para o conceito de ensino público gratuito
para todos, os barões do Partido Republicano davam um prémio importante à
sua base composta por cristãos fundamentalista que há muito anda a
pressionar o Partido para abandonar o apoio ao ensino público a fim do
estado apoiar o elitista e extremamente discriminatório ensino privado das
escolas ligadas às instituições religiosas, espatifando um dos pontos
basilares da constituição americana: a separação da igreja e do estado.
As afirmações do responsável máximo do ensino desta administração, para além
de serem completamente desapropriadas, indicam, claramente, a frustração da
administração perante uma série de medidas que, dia após dia, encontram mais
opositores. De um plano bipartidário que muito cedo se tornou numa batata
quente política para este presidente e para esta campanha. É que até
legislaturas estaduais controladas pelos Republicanos, em estados como, Utah
e Virginia, têm criticado as medidas desta lei como extremamente austeras,
sem a possibilidade de serem introduzidas a sério porque não são acolitados
com os recursos económicos necessários para a sua implementação.
Há que dizer-se que o Secretário da Educação falava apenas quatro dias
depois de ter sido forçado a anunciar que se iniciaria um relaxamento nos
exames em escolas que têm uma população enorme de imigrantes, cujos rebentos
têm maior dificuldade na proficiência do inglês. Foi um recuo tremendo
para
a administração de George W, Bush que durante os últimos dois anos havia
reiterado, constantemente, que não se registraria qualquer retrogradação.
Poucas horas depois de afirmar que os professores eram terroristas, Paige,
num comunicado divulgado à imprensa, pediu desculpa pelos seus comentários,
mas, infelizmente, foi, ainda outra vez, numa linguagem pouco conciliatória,
pelo contrário, utilizou mesmo uma provocadora. Disse que: "a sua
escolha
de palavras não tinha sido a mais apropriada escolha de palavras para
descrever as tácticas obstrutivas dos lobies da Associação dos Professores
em Washington que têm por objectivo destruir as reformas históricas que este
governo quer impor no ensino."
Aqui não há desculpas! Os comentários de Paige não são uma mera gafe!
Ao
bater com a língua nos dentes, o Senhor Secretário revelou, ainda outra vez,
o pensamento político desta administração, para a qual, qualquer oposição
às
suas políticas domésticas, tal como às internacionais, são vistas como
ilegítimas e denunciadas como sendo antipatriotas.
O Presidente cognominou-se como um "Presidente em Guerra," comandando
um
executivo que exerce uma "guerra contra o terror." Nesse
contexto, de
apelidar os opositores como terroristas, i.e. a equivalência do Al Qaeda,
tem uma enorme carga de repercussões negativas para o processo democrático.
Mas será mesmo que esta administração está a preparar-se para utilizar
dentro do país as mesmas punições que usa na sua política externa?
Há ainda uma palavra a dizer sobre a resposta do sindicato de professores,
do qual faço parte, pagando, com muito gosto, a minha mensalidade. Mais
uma
vez a liderança deu uma resposta flácida.
Numa nota distribuída à comunicação social, os responsáveis lamentaram as
afirmações do Senhor Secretário, dizendo: "é moralmente repugnante
equacionar aqueles que ensinam os nossos filhos com os terroristas.
É esta retórica que nos habituamos a ouvir desta administração quando se
questiona as suas posições." Não compreendo porque não se pede a
demissão
do Senhor Secretário. Se fosse na Europa, se os sindicatos e esta
administração estivessem a sério, sobre a responsabilidade dos seus
elementos, o Senhor Secretário já tinha voltado ao Texas. É que os
políticos têm que ser responsáveis pelas suas afirmações. E no clima
que
esta administração criou, chamar organização terrorista ao sindicato de
professores dos Estados Unidos deveria ter mais repercussões do que um
simples e passageiro pedido de desculpas.
Há anos, quando não se gostava das afirmações de pessoas que tinham uma
percepção mais progressista do mundo, que questionavam qualquer regresso
político, que eram abertos à evolução humana, ao espírito criativo da
humanidade, que não ficavam enclausurados numa sacristia, enfim, quando não
se gostava de alguém ou de um grupo de pessoas, dava-se-lhes o apelido de
"comunistas." Mudam-se os tempos, e nem sempre, infelizmente,
mudam-se as
vontades, modificam-se sim os termos.
Então vejam só: foram substituídos por "terroristas."
Califórnia, Março de 2004

Copyright © 1997/2001 The Portuguese Times
Autorizada a reprodução de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem