| DIA-CRÓNICAS
Onésimo Teotónio Almeida
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- Emanuel Félix, não mais connosco
Apanhado de surpresa, como todos os amigos e admiradores, pela notícia da
morte do poeta Emanuel Félix, as palavras recusam-se. O silêncio vence. As
imagens saudosas da sua presença veneranda (as cãs onduladas que ele
cultivava davam-lhe esse ar de sage) ficam e ficarão connosco para sempre.
Socorro-me assim de dois faxes que lhe enviei aquando de homenagens públicas
que lhe promoveram, primeiro a Casa dos Açores de Lisboa, e depois a Câmara
Municipal de Angra. Aí ficam para ajudar a lembrança do Emanuel entre
aqueles que o estimavam e continuarão a saborear a sua poesia, embora nunca
mais possam ouvir da boca dele as histórias que só ele sabia contar:
Providence, 24 de Outubro de 2002
Meu mui caro Emanuel:
O nosso comum amigo Vasco Pereira da Costa teve o gesto simpático de me
contactar a perguntar se não quereria enviar-te uma mensagem. Ele já me
havia convidado mesmo a estar presente nesta tão merecida homenagem mas achei
que, para falar da tua obra, havia gente muito melhor qualificada do que eu. E
porque sei do naco capaz de leitores teus que isso exactamente aí fará,
resolvi aproveitar esta oportunidade para juntar, ao desfile de
presentes que te entregarão hoje em forma de caixas de adjectivos elogiosos
pela tua obra poética e literária, mais um sobre outra das tuas facetas: a
de contador de histórias.
És o Wagner deles. Usas todos os ingredientes ao dispor dos teus talentos
artísticos e coloca-os ao serviço dessa tua arte de contar. As tuas
histórias açorianas (sobretudo as de S. Jorge, mas não só) são
primorosas,
a começar pelo que elas reflectem de olhar penetrante no universo cultural
das pessoas e na sua humanidade. Depois, usando doses qb de descrições,
àpartes, traços caricaturais, ironia, sagacidade, empatia, olho fotográfico,
sentido de pormenor e timing narrativo, tu manténs-nos suspensos no poder
encantatório da tua palavra; mesmo quando todos nós já conhecemos o
desenlace da história e te pedimos que no-la contes de novo porque, por mais
divertida que seja a tirada final, é a tua arte de hipnotizador pela palavra
que nos segura deliciados a ouvir-te. É no modo de contar que está a força
delas, que o mesmo é dizer: é do artista que dimana a sua força.
As tuas estórias reúnem o poeta, o etnógrafo, o cronista, o esteta,
invólucro desse teu fundo de pessoa de uma humanidade que sabe descobrir à
sua volta o olhar inteligente dos outros, mesmo se ele surge disfarçado da
maior simplicidade.
As tuas histórias são poemas. Se não podem estar escritas, é uma pena
enorme não estarem todas videogravadas porque só o filme consegue transcrevê-las
quase na íntegra.
Vai um grande abraço desta outra margem do rio Atlântico.
O.
O outro fax é datado de 15 de Maio de 2003:
Meu caríssimo Poeta:
Angra deu-te a chave da cidade. Agradecerás muitíssimo, eu sei, como
humildemente agradeces sempre tudo o que te fazem, por pouco que seja. Mas tu
não precisavas. Viveste sempre bem dentro dela. Há anos que lhe corres nas
veias, essas ruas onde semeias palavras e histórias que contas como ninguém.
Usa a chave que te deram para fechares no íntimo dessa bela cidade a
tradição magnífica de se misturar poemas e conversas nas ruas para que ela
não se perca nas águas (e marinas) da globalização.
Daqui de Providence, o meu abraço fraterno e de imensa e antiga admiração.
O abraço vai e estereofónico: é meu e da Leonor.
O.
Aqui fica, Emanuel, esta five o'clock tear. Todos sabemos que morte é mais
do que a viagem possível, mas os teus amigos queriam, interpretando à letra
o significado do teu nome, que ficasses connosco o máximo de tempo possível.
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