Do Tempo e dos Homens

 
Manuel Calado



Quem criou os gays?

O termo "gay", pederasta ou homossexual está sendo usado, glosado e abusado
neste momento político e ideológico que atravessamos. Os "gays" querem
juntar-se legalmente e usufruir direitos  iguais a  todos os seres humanos
que sentem a atracção do amor por outra criatura. Pedem para não serem
discriminados e que a sociedade os considere como seres humanos que são,
embora diferentes na formação da sua natureza. E é aqui que entra a polémica
em acção.
O termo casamento está engrenado na história, na cultura e na tradição, e é
concebido como a união entre um homem e uma mulher, para o efeito de
constituir família, de  procriar e contribuir para a conservação da espécie.
É assim no reino animal, em todas as suas formas. Contudo, esta lei natural
não é aceite por todos  os espécimes humanos  ou irracionais. Entre estes
nem todos os machos conseguem ser reprodutores, se não  possuirem a força
física para lutar, por vezes até à morte, por esse direito. Aí, impera a lei
do sexual e fisicamente mais forte.
Entre os humanos, até os incapacitados. física ou mentalmente, têm o direito
de constituir familia e de passarem as suas qualidades - e até os seus
defeitos, as suas doenças hereditárias e as suas taras mentais - às gerações
que produzirem. Esta é uma concepção humanista, com que Hitler não
concordava, e daí o seu desejo de apurar a raça  alemã, o que levou ao
holocausto dos judeus.
O Presidente Bush acaba de pedir uma emenda à Constituição, definindo o
casamento como a união entre um homem e uma mulher. Desde os primórdios da
nação americana nunca foi sentida a necessidade de definir
constitucionalmente o casamento. O pedido do Presidente, neste momento de
agitação política em que o seu lugar está a ser disputado pelos democratas,
veio agitar mais ainda as águas da guerra cultural que está sendo travada
entre as facções liberal e conservadora do país.
Estamos presentemente divididos em duas guerras. Uma, política e
anti-terrorista, e outra, cultural e religiosa. Em ambos os teatros de
operações  batem-se as facções da esquerda e da direita. A esquerda,
liberal, tolerante e progressista. A direita, conservadora e
tradicionalista.
Enquanto a esquerda  pretende avançar no caminho do progresso e da inovação,
a direita é uma espécie de travão. Deseja reter, conservar o status quo, o
que está, o que vinha de trás, a herança do passado. Estas duas facções
ideológicas são a força que agita as sociedades e, em casos extremos, leva
às  revoluções e guerras civis. É lamentável que o progresso tenha sido
feito quase sempre à pancada. Temos aqui o exemplo da guerra civil e da
revolução dos direitos civis. A primeira, para eliminar a escravatura. A
última para eliminar a segregação racial, política e económica que afogava a
sociedade americana. E nestas lutas estiveram sempre em evidência as forças
da esquerda e da direita. Na esquerda, as forças humanísticas da democracia,
lutando pela justiça social, em favor dos  segregados, explorados e
desprotegidos. Na direita, as forças  da tradição, da conservação do
passado,  dos direitos económicos e sociais adquiridos ao longo dos tempos,
em que os cidadãos negros não podiam usar os mesmos quartos de banho, dormir
nos mesmos hotéis, comer nos mesmos restaurantes, de viajar apenas na
traseira dos autocarros, e dar o seu lugar a um branco, se não houvesse
mais.
Este caso da união dos "gays" é mais um episódio da guerra cultural  que se
trava entre a esquerda liberal e a direita conservadora. E vem a propósito
pôr esta pergunta fundamental, aos fundamentalistas da direita: Quem criou
os "gays"? Se Deus é o criador de tudo quanto existe, os "gays" devem ser
também filhos de Deus, como toda a gente . Não têm eles pai, mãe e irmãos,
como toda a gente? Quem criou os retardados mentais, os aleijados, os
incompetentes, as cobras e as formigas?
Ando a ler neste momento um livro do escritor David Brock, que era da
direita radical, e escreveu praticamente em todas os publicações
conservadoras, desde o "Wall St Journal",  ao "Washingtom Times" ao
"American Expectator" e  outras, em que ele conta o dia em que descobriu que
havia sido adoptado, e quando, ainda garoto,  sentiu uma atracção sexual
irresístivel por um colega de equipa, e o drama que viveu para encobrir esta
tendência homossexual, da família e dos colegas  e amigos, até o dia que
passou para ala liberal, e conta, no livro intitulado "Blinded by the
Right", o seu passado como escritor da direita radical, em que tomou parte
nos ataques contra Bill Clinton, financiados  por um milionário chamado
Scaif, e outras peripécias da sua vida como "gay" encoberto, na "closet", no
guarda-roupa, como se diz aqui.
Posta a questão em termos políticos, John Kerry, o candidato democrata, diz
interpretar o casamento como a união entre um homem e uma mulher, mas
favorecer a união civil, com todos os direitos inerentes, entre duas pessoas
que se estimam,  sejam ou não do mesmo sexo. Mas este é um aspecto da
batalha cultural em campo, e que  alguém está procurando utilizar para fins
políticos. E por isso, muita controvérsia vai ainda gerar, fazer correr
muita tinta e provocar muitas discussões.

 


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