REPIQUES DA SAUDADE

 
Ferreira Moreno



A Respeito de Pulgas

A curiosa Alameda de las Pulgas situa-se na cidade de San Mateo, e assinala
um episódio que remonta à histórica expedição do capitão espanhol Gaspar de
Portolá em 1769S
Os soldados, integrados na expedição, andavam à procura de abrigo p'ra
descansar, após tão extenuante caminhada, acabando por ocupar umas cabanas
de índios, que encontraram abandonadas. Mas, daí a momentos, entraram a
fugir, gritando: "Las pulgas, las pulgas!"
Em primeiro lugar, convém apontar que esta expedição, feita por terra desde
San Diego até San Francisco, foi a primeira realizada por brancos na
Califórnia. Em segundo lugar, com fundamento histórico basedo nas tradições
dos índios, importa recordar que os índios tinham por costume queimar as
cabanas, sempre que se tornava necessário "limpar a casa" e extinguir o
cheiro insuportável do lixo e invasão das malditas pulgas.
Aparentemente, neste caso que estou a narrar, os índios simplesmente
"desapegaram-se" dali p'ra fora e "deram às de vila-diogo". Creio,
igualmente, que as pulgas eram numerosas e esfomeadas.
Isto aconteceu precisamente numa sexta-feira, aos 27 de Outubro de 1769.
Como prova, eis o testemunho do alferes Miguel Costansó, engenheiro,
cartógrafo e cronista da expedição: "Havia unas chozas de gentiles
abandonadas, en done se Ilenaron de pulgas todos los que tuvieron la
curiosidade de irlas a ver".
À localidade afixaram o nome de "Rancheira de las Pulgas", ou seja, a vila
das pulgas. No livro "California Ranchos" dá-se conta da concessão de
terrenos a José Arguello em 1795 e que tornar-se-ia conhecido por Rancho Las
Pulgas, evocando assim a memória do episódio acima narrado, uma vez que o
rancho abrangia a área da "rancheria" original.
Apesar dos esforços de alquimistas cientistas e exterminadores, as pulgas
vivem no sangue humano há milhares de anos. Os egípcios da antiguidade, por
exemplo, a fim de se livrarem das pulgas em casa, cobriam os escravos com
leite de burra. Os gregos, por sua vez, p'ra evitar as "picadas" das pulgas
gritavam "Ouch! Ouch!". Na Inglaterra recomendava-se arejar as camas antes
da Páscoa, enquanto na Irlanda afugentavam-se as pulgas com hortelã e
dedaleira.
Reza uma lenda dinamarquesa que as pulgas foram criadas p'ra atormentar
gente preguiçosa. Em contra-partida, uma lenda flamenga afirma que as pulgas
foram criadas p'ra dar trabalho às mulheres. Na área das superstições, as
crendices são as mais diversas. Assim, há quem acredite que quando as pulgas
estão sequiosas por sangue, é sinal que vai chover. Por outro lado, há quem
diga que as pulgas fogem de quem está "às portas da morte". Na Alemanha e na
Áustria, sempre que uma pulga nos "pica" na mão, é sinal que vamos receber
beijinhos de alguém.
O que acima deixei dito, não é invenção minha. Declaro que está tudo
registado num volumoso (mais de mil páginas) dicionário inglês sobre
folclore, mitologia e lenda...
Consiglieri Pedroso, no seu livro "Contribuições para uma mitologia popular
portuguesa & outros escritos etnográficos", na vasta secção reservada p'rás
superstições oferece-nos as seguintes curiosidades:
"Quando aparece uma pulga em fato novo, é sinal de que o dono o há-de
romper;
Quando se está a fazer roupa nova e aparece uma pulga nela, é sinal que a
dona há-de rompê-la com saúde;
Quando uma pulga salta na palma da mão, é sinal de presente;
Quando as pulgas mordem muito é sinal de frio".
Se bem me lembro, na ilhas, a pulga de cão era considerada inofensiva, mas a
pulga de gato era perigosa. Na ilha Terceira, dizia-se que ano de pulgas era
ano de novidades, enquanto em S. Miguel o ano de pulgas era ano de fartura.
Teófilo Braga, no segundo volume "Contos Tradicionais do Povo Português",
com referência a uma lenda dos animais, escreveu que quando os animais
falavam, a pulga disse que a matassem, mas que a não estorcegassem.

Da minha colectânea de adágios e provérbios, apresento os seguintes: "Há
muitas maneira de matar pulgas; Não são as pulgas dos cães que fazem miar os
gatos; As pulgas vêm com as favas e vão com as uvas; Quem com cães se deita
com pulgas se levanta; Quem se corre de lhe tirarem pulga ou piolho,
metam-lhe uma figa no olho; Onde há cães há pulgas onde há pães há ratos,
onde há mulheres há diabos".
Recomendo, no entanto, muito cuidadinho com a pulga, pois que apesar de ser
pequenina tem força p'ra atirar a gente da cama abaixo, como se canta na
minha terra:

O meu amor pequenino,
Fui à cama, não lo acho;
Uma pulga deu-lhe um coice,
Revirou-le da cama abaixo!

 


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