|
Mortes anunciadas
No passado dia 9 de Março, a meio da manhã, telefonema de Fall River a
informar que a rádio portuguesa local noticiara o falecimento do Roberto
Rezendes, da Stereo Plus, de East Providence.
Devo adiantar que uma das minhas tarefas no Portuguese Times são os
obituários e considero-a importantíssima. Os portugueses na América estão
como a baleia, em vias de extinção, portanto é importante anotar os membros
que a comunidade perde.
Passo habitualmente a manhã de terça-feira às voltas com a molhada das
notícias necrológicas da semana e preparava-me para redigir o obituário do
Roberto quando chegou outro telefonema de Fall River, afinal o homem estava
vivo.
Aqui no PT mais ou menos todos nós conhecemos o Roberto. Está com 48 anos,
casado, filhos. Andou nas cantigas e chegou a gravar um ou dois álbuns, mas
tem mais jeito para vender discos alheios. Quem diz discos, diz telefonias,
televisores e toda a gama de electrodomésticos, montou negócio e a vida
correu-lhe bem.
Eu por exemplo, há coisa de dez anos comprei-lhe uma máquina de expresso, um
fax, um VCR, um televisor e um presépio, que continuam operacionais.
Há três meses, Roberto sentiu-se doente, foi ao médico e recebeu a notícia
brutal de que ninguém está livre: um tumor no cérebro.
Foram (e devem continuar a ser) dias terríveis para Roberto e para a
família, mas a esperança é a última coisa a morrer: confia na medicina (vem
sendo submetido a tratamentos) e na fé (como bom micaelense, é devoto do
Senhor Santo Cristo dos Milagres). Entretanto, aproveita a vida e faz muito
bem.
Como já não tem pachorra para passar o dia ao balcão, trespassou o negócios,
talvez tenha sido o que originou o boato de que tinha morrido e levou uma
ouvinte a telefonar para o programa matinal da WHTB, de Raul Benevides.
Apesar da veterania, o Raul deu a notícia sem o cuidado de confirmar, mas a
precipitação talvez seja de bom augúrio para o Roberto. Nada melhor do que
ser dado como morto para continuar vivo, pois como diz a nossa gente, morte
anunciada é vida acrescentada.
O que aconteceu ao Roberto nem sequer é novidade na nossa comunidade e há
anos tive que entrevistar o meu amigo Esteireiro no Portuguese Channel, para
que todos visem que estava vivo, pois corria o boato de que o conhecido
fotógrafo de New Bedford falecera.
Conservo uma crónica intitulada Mortos Vivos, que António Valdemar publicou
no Diário de Notícias, em 1996, sobre personalidades cuja morte o matutino
lisboeta noticiou e ainda viveram muitos e bons anos.
Ficou famosa a notícia, saída nos anos 20, sobre a morte de Gualdino Gomes,
figura das tertúlias literárias lisboetas que ainda viveria mais 30 e tal
anos e só morreu em 1948, com 90 anos.
Uma das mais recentes broncas diz respeito ao professor Rómulo de Carvalho,
que os portugueses conhecem sobretudo pelo pseudónimo de António Gedeão, o
poeta autor de Pedra Filosofal, que o DN deu como falecido na edição
comemorativa dos 100 anos do jornal e ainda viveu até aos 90 e tal anos.
Até um antigo director do jornal, Augusto de Castro, foi dado como morto
pelo DN em 20 de Julho de 1935, quando desempenhava funções diplomáticas na
Bélgica, mas só viria a falecer em 24 de Julho de 1971, com 88 anos.
Apesar de morte anunciada poder ser vida acrescentada, às vezes pode ser
fatal. Um editor do New York Times sofreu há anos um ataque cardíaco, ficou
à beira da morte e um redactor redigiu o seu obituário. Mas o nosso homem
recuperou, voltou à redacção e um dia, ao ler o necrológico que tinham
preparado para ele, teve outro ataque.
Portanto, a nódoa das notícias sobre mortos vivos pode cair no melhor pano e
também caiu há anos num jornal português que se publicou em New Bedford, o
Correio Português, salvo erro.
Segundo me contaram , o equívoco teve origem numa confusão de identidades,
morreu num acidente de viação um tal António Medeiros e para o redactor do
jornal só havia em New Bedford um António Medeiros, aliás das suas relações.
Apressou-se a noticiar a morte, apresentando condolências à família, mas
para sua surpresa o morto não era o António Medeiros que conhecia e lhe
apareceu um dia depois da saída do jornal, irritadíssimo e a ameaçar com
"sues". O jornalista teve então esta saída antológica:
"O meu amigo tenha calma, que eu resolvo tudo. Na próxima edição digo
que o
senhor ressuscitou".
===============================
A "zapatada" de Zapatero
Há uma semana nenhum analista político se atreveria a prever vitória do
Partido Socialista de José Luis Zapatero nas eleições legislativas
realizadas no passado domingo em Espanha. O Partido Popular do
primeiro-ministro José Maria Aznar era favorito, mas quinta-feira 11 de
Março, tudo mudou. Eram 7:39 da manhã, 10 mochilas carregadas de explosivos
e activadas à distância por telemóveis, explodiram em três combóios
suburbanos de Madrid, matando 201 pessoas e ferindo mais de mil.
O 11 de Março tornou-se o 11 de Setembro da Europa acontecendo, coincidência
ou deliberadamente, 911 dias depois dos atentados de NewYor, 9/11.
Conforme escreveu segunda-feira o New York Times, "a administração Bush
acreditava que um atentado na Europa iria aproximar os europeus dos EUA",
mas enganou-se.
Na noite de quinta-feira, numa mensagem enviada por e-mail ao diário Al Qods
alArabi, um jornal árabe que se publica em Londres, a Al-Qaeda reivindicava
responsabilidade pelos atentados.
Nesse mesmo dia foram encontrados em Madrid, numa furgoneta roubada dias
antes, sete detonadores e uma cassete audio com uma gravação em árabe de
versículos do Corão.
Embora tudo apontasse para a rede fundamentalista islâmica de Osama bin
Laden, as autoridades espanholas preferiram responsabilizar o grupo
separatista basco ETA.
A conecção com a Al-Qaeda era a pior hipótese para o partido de Aznar, pois
sugeria que os ataques tinham sido consequência do forte apoio dado por
Aznar à ofensiva militar liderda pelos EUA no Iraque, o que contrariou 90%
da opinião pública espanhola.
Mais de 11 milhões de pessoas desfilaram sexta-feira em várias cidades
espanholas em marchas de protesto contra o terrorismo, mas muitos
manifestantes gritavam "Mentirosos!" e "Digam a verdade" e
acusavam o
governo de estar a promover a tese de que a ETA teria sido responsável
visando ganhos políticos nas eleições de domingo.
Sábado de manhã foi conhecida a prisão de cinco suspeitos, três
marroquinos
e dois indianos. O governo deixara de falar na ETA, mas no domingo os
eleitores decidiram mostrar-lhes que não perdoam quando os governantes
tentam aproveitar tragédias para fins políticos.
Muitas pessoas enterraram os seus mortos e foram votar. Outras fizeram bicha
antes que as urnas abrissem. A afluência às urnas foi de 77%, muito maior do
que nas eleições de 2000, que deu a Aznar um segundo mandato.
Um editorial do jornal espanhol El Pais lista uma série de motivos que
levaram o PP a perder o poder: "arrogância, manipulação da mídia e o
uso da
luta contra o terrorismo como justificativa para qualquer política".
Uma vitória socialista era considerada pouco provável três dias antes, mas
os socialistas conseguiram 42% dos votos e o PP 38%.
Num dia, o cenário político espanhol mudou por completo, depois de oito anos
do regime de centro-direita de José Maria Aznar, o socialismo democrático de
José Luis Zapatero, 43 anos, o mais novo líder europeu.
Na sua primeira conferência de imprensa, o primeiro-ministro eleito
confirmou a intenção de retirar os 1.300 soldados espanhóis que estão no
Iraque até 30 de Junho, data prevista para que os EUA transfiram o poder
para os iraquianos.
Por isso, para o New York Times, a derrota de Aznar pode ser o começo do fim
da coligação formada pelos EUA, Inglaterra e Espanha.
Muitos países europeus começam a questionar "a guerra contra o terror"
e a
reconhecer "que o conflito com os terroristas não se resolve pela força",
conforme sustenta Romano Pordi, presidente da Comissão Europeia: "O
balanço
da guerra no Iraque é negativo tanto no próprio país como fora: Istambul,
Moscovo, Madrid. O terrorismo que deveria ter terminado com esta guerra,
está infinitamente mais poderoso actualmente do que há um ano".
============================
A menina de ouro. A campeã mundial dos 800 metros fala português e
vive em
Eugene, Oregon. A moçambicana Maria de Lourdes Mutola conquistou o quinto
título mundial dos 800 metros há duas semanas, nos Mundiais de pista coberta
em Budapeste e aos quais poderá juntar mais um título olímpico em Agosto,
em
Atenas, pois continua imbatível na distância embora complete 32 anos em 27
de Outubro. Nasceu em 1972, estreou-se em competições internacionais aos 15
anos e foi "só" campeã mundial dos 800 metros em 1993, 2001, 2002,
2003 e
2004; desclassificada em 1995, terceira em 1997 e segunda em 1999.
Conquistou ainda a medalha olímpica de bronze em Atlanta (1996) e ouro em
Sidney (2000); o ano passado tornou-se a primeira atleta a triunfar na
Golden League ao vencer as seis etapas da competição, o que lhe permitiu
acrescentar um milhão de dólares à conta bancária. É a menina bonita de
Moçambique, que já deu o nome de Mutola a uma avenida de Maputo e uma
escola. Maria também ama a sua terra, criou uma fundação com o seu nome
para
apoiar jovens moçambicanos e com uma bela página na internet, em português.
É também fiel ao velhinho Grupo Desportivo do Maputo e, em 2000, quando o
clube estava em dificuldade, autorizou a venda de um milhão de t-shirts com
o seu retrato para equilibrar as finanças do clube que representou em
futebol, a sua primeira paixão. Chegou a ser campeã moçambicana de futebol,
mas por uma equipa masculina. Mas ao descobrirem que Mutola, o ponta de
lança goleador, era afinal uma mulher, desqualificaram a equipa.
Shrimp Mozambique. Cerca de 700 pessoas pagaram a semana passada $15 (cada
uma) para participarem no Taste of Greater Taunton, iniciativa anual de
angariação de fundos para o Morton Hospital já na 11ª edição e que
decorreu
no Holiday Inn. Participaram 27 restaurantes e um dos pratos mais apreciados
foi camarão à Moçambique. Há coisa de 30 anos, uma cozinheira da Tabacaria
Açoriana, em Fall River, preparou um prato de camarão frito em manteiga,
alho picado, sazón, cubo Knorr, copo de vinho ou cerveja, piripiri e sal
q.b. Como andara por lá, chamou-lhe camarão à Moçambique e o petisco é
hoje
servido em todos os restaurantes portugueses de Massachusetts e Rhode
Island. Mas o camarão à Moçambique é desconhecido em Moçambique, à
semelhança do que acontece com a Portuguese Kale Soup, popularíssima na
América e que ninguém conhece em Portugal.
Portugal moderno. Numa iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian
intitulada
Atlantic Waves, algumas das principais salas de Londres vão acolher até ao
fim do ano novos nomes da música portuguesa em shows de rock, jazz, música
clássica, música electrónica e, claro, fado. A saber: o DJ Rui da Silva,
especializado em progressive house; o cinematic jazz da Ze Eduardo Unit; a
percussão de Pedro Carneiro; a música electrónica experimental de Vitor
Joaquim; as canções de Ana da Silva, madeirense que é vocalista do grupo
pós-punk The Raincoats e o ³novo² fado de Mariza, Katia Guerreiro e António
Zambujo. Seria interessante mostrar também aos EUA esse lado da música
portuguesa.
Os 100 melhores. Fundada em Paris, a 21 de Maio de 1904, a FIFA prepara-se
para celebrar 100 anos e convidou Pelé a fazer uma lista dos maiores
futebolistas de todos os tempos para o livro comemorativo. The FIFA 100 será
lançado em 21 de Maio e inclui três portugueses: Eusébio, Figo e Rui Costa.
Mas é uma selecção tão difícil que os 100 maiores são afinal 125, 50 em
actividade e 75 aposentados e entre eles três mulheres - as americanas Mia
Hamm e Michelle Akers. Para Pelé, os três maiores jogadores em actividade
são o francês Zidane e os brasileiros Roberto Carlos e Ronaldo. Essa
é
também a opinião do português Luís Figo, colega dos três no Real Madrid.
Mas
o maior de sempre, que Figo tenha visto jogar, é Diego Armando Maradona.
Celebridades anónimas. A leitura do necrológico pode revelar-nos
pessoas com passados aliciantes. Faleceu recentemente em New Bedford a sra.
Stella Nunes Câmara, 83 anos, que nas décadas de 40 foi Stella Starr,
bailarina
profissional e animou muitos espectáculos para a tropa durante a II Guerra
Mundial. Outro caso é Margaret Cabral, 89 anos, falecida em New Bedford,
onde deixa viúvo e filha. Nos anos 30, foi modelo em New York, mas peferiu
trocar as passarelas pela recatada vida de dona de casa em New Bedford.
===========================
Reticências...
O comportamento de algumas crianças sugere que os pais embarcaram sem remos
no mar do matrimónio... Uma das razões porque hoje se vêem tantas crianças
à noite na rua é por terem medo de ficar sózinhas em casa... Há tantos divórcios
hoje em dia que parece haver mais pais do que crianças a fugir de casa... Um
dos problemas da delinquência juvenil é o grande número de crianças que
saem de casa, mas é possível que seja à procura de pais... Os pais ficam
muitas vezes embaraçados quando os filhos dizem mentiras, mas muitas vezes é
melhor do que dizerem as verdades... As únicas criaturas que dormem de pé são
os cavalos e os pais de bebés de meses...
Ferreira Moreno
Copyright © 1997/2001 The Portuguese Times
Autorizada a reprodução de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem