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O português que «matou» Lizzie
Andrew Borden e a mulher, Abby, foram assassinados há 112 anos e a filha
dele, Lizzie Borden, que foi acusada do crime, morreu há 77, mas o mistério
continua a despertar curiosidade nos EUA.
O crime converteu-se em atracção turística de Fall River, existe uma
associação denominada International Lizzie Borden Society e a casa da
matança está convertida em museu e hotel, o Lizzie Borden Bed and Breakfast,
onde os interessados podem pernoitar e desenvolver teorias sobre o que se
terá passado naquela quente manhã de Agosto de 1892.
Lizzie Borden foi o caso O.J. Simpson do século XIX, os advogados
conseguiram convencer o júri de que uma respeitável solteirona de 32 anos,
uma donzela portanto, que ensinava catequese ao domingo, era incapaz de
rachar a cabeça do pai e da madrasta com um machado.
O caso já inspirou canções, um filme, uma ópera, um ballet, uma comédia
musical, um diagnóstico médico (os Lizzie Borden Signs) e toneladas de
livros, os últimos dos quais da autoria de duas luso-descendentes, Barbara
Silveira e Jessie Moniz Hardy, que se deixaram fascinar pelo mistério por
razões pessoais.
Barbara Silveira é natural de New Bedford e reside em Seffner, Fla., com o
marido, Charles, um oficial da Marinha na reserva. Com os filhos criados,
começou a escrever e já vai no quinto livro, precisamente The Dark Side of
Lizzie Borden, lançado o ano passado.
Ainda não tive oportunidade de ler a obra, mas a autora disse ao jornal
Standard Times que o marido é neto de uma prima de Lizzie e, a partir de
informações familiares, desenvolveu a sua teoria: enquanto a maioria dos
autores se preocupa apenas com a inocência ou culpa, Barbara parte do
princípio de que Lizzie não matou apenas por ódio e para herdar a fortuna
do
pai, mas tinha problemas do foro psiquiátrico.
Era dada a transes sonambulísticos, sentimentos paranóicos e violentos
pesadelos, que eram do conhecimento da família e dos amigos. Semanas antes
do crime, o velho Borden matou os pombos de estimação da filha com o machado
da lenha que será usado no seu próprio assassinato. A madrasta manifestou
desejos de comer os pombos, mas a criada recusou fazer a pretendida torta
com as aves de Lizzie.
Quando chegou a casa e viu a confusão de penas e sangue das aves, Lizzie não
derramou uma lágrima, mas terá começado a planear o assassinato. Tentou sem
sucesso comprar ácido prússico para envenenar toda a família, mas optou
pelo
machado.
Emma, a irmã mais velha, 40 e tal anos e também solteirona, escapou por
estar de visita a amigos em New Bedford. Depois do julgamento, Emma mudou-se
para New Hampshire e morreu por lá, não havendo notícia de que tenha
voltado
a encontrar-se com a irmã.
Quanto a Lizzie, depois do julgamento, em 1893, comprou a Maplecroft, mansão
vitoriana de 14 quartos em 306 French St., Fall River, onde viveu até à sua
morte, em 1927. A propriedade esteve recentemente à venda por $725.000.
Jessie Moniz Hardy reside na Bermuda mas os seus antepassados imigraram em
1886 dos Açores para Fall River e mudaram em 1897 para a Bermuda, onde a
futura escritora nasceu há 28 anos.
A jovem, que contactou o jornal Herald News para obter mais pormenores, não
está propriamente a escrever sobre os Bordens, mas sobre outro crime que
ocorreu nove meses depois em Fall River e no qual esteve implicado José
Correia de Melo, primo da sua trisavô, Margarita V. Velosa.
O caso figura no livro Victorian Vistas, de Philip Silvia, sobre o passado
de Fall River. Na manhã do Memorial Day de 1893, Bertha M. Manchester, 22
anos, apareceu morta na cozinha da casa da propriedade da família na New
Boston Road (Meriden Street). A jovem tinha a nuca e a face esfaceladas.
Arma do crime, um machado. Provável móbil, o roubo.
O Fall River Weekley News (que mais tarde se tornaria The Herald News) deu a
notícia na edição de 31 de Maio de 1893 e lembrando similitudes com o caso
Borden.
A mãe de Bertha, Hannah Davis, morrera era ela criança e o pai Stephen C.
Manchester, lavrador e leiteiro, voltara a casa com Mary J. Whittles, mas
esta deixara-o cinco anos antes e Bertha saira da escola para tomar conta da
casa.
Naquela manhã, antes de sair para a distribuição do leite acompanhado do
filho, Frederick, 12 anos, Stephen Manchester sugeriu à filha que viesse com
eles à cidade, para ver a parada, mas Bertha preferiu ficar a fazer um bolo
para o irmão.
Quando voltou a casa, Frederick correu para a cozinha, deu com a irmã caída
no chão junto ao fogão, numa poça de sangue. Tinha a nuca esmagada e o
nariz
e os lábios separados por uma machadada. Stephen montou no cavalo e correu à
cidade, a chamar a polícia.
Embora fosse feriado, uma boa parte do comércio estava aberta e nesse dia à
tarde o português José Correia de Melo entrou numa sapataria existente do
lado sul da fábrica Sagamore a comprar um par de sapatos.
Como não falava inglês, um compatriota que se encontrava na loja serviu-lhe
de intérprete e Correia escolheu um par de sapatos que custavam $1.50,
pagando com uma moeda de dólar em prata e outra de 50 cêntimos que estava
furada.
O dono da loja recusou a moeda furada e o português trocou-a por duas moedas
de 25 cêntimos e saiu já com os sapatos novos calçados e levando os que
trouxera embrulhados num jornal.
Os investigadores apuraram que da casa de Bertha tinham desaparecido um
dólar em prata e 50 cêntimos furados. Stephen dera, havia 14 anos, uma moeda
de prata cunhada em 1878 a cada uma das duas filhas e Bertha conservava a
dela numa gaveta, juntamente com outra moeda de 50 cêntimos furada.
O sapateiro entregou a moeda à polícia que começou a procurar o
português,
mas a busca não foi longa, Correia de Melo entregou-se acompanhado de um
amigo, José Moniz, que lhe serviria de intérprete.
Correia de Melo assaltara a casa por volta das 10:00 da manhã pensando não
encontrar alguém, mas foi surpreendido por Bertha e entrou em pânico. Para
se defender do intruso, a jovem empunhou o machado que conservava numa caixa
e, durante a luta, ele conseguiu apoderar-se da arma e matou-a.
Lizzie matou o pai para herdar uma fortuna de oito ou nove milhões de
dólares, mas Correia de Melo matou apenas por um dólar e meio e ainda por
cima os 50 cêntimos estavam furados. O crime ficou, aliás conhecido como o
caso dos 50 cêntimos furados.
Foi condenado à prisão por toda a vida e mais um dia. Tecnicamente
significava que passaria o resto dos seus dias na prisão sem hipóteses de
beneficiar de liberdade condicional, mas em 20 de Janeiro de 1894, o
governador Eugene Foss comutou a sentença para 20 anos e deportação do
recluso após a libertação.
José Correia de Melo voltou aos Açores, instalando-se na sua terra natal, os
Arrifes, S. Miguel, onde se dizia que o pai gastara o que tinha e o que não
tinha a tentar livrar o filho da cadeia.
Não é fácil viver numa ilha com o labéu de homicida e, por causa do
falatório, Melo acabou por abalar para o Brasil, onde tinha um primo, Manuel
de Sousa Massa, dono de uma vacaria.
Cuidava das vacas e uns bocados de terra e vivia sozinho numa casinha da Rua
Álvares Cabral, Caxambi, no Mayer, surbúrbio do Rio de Janeiro. Dos tempos
da América guardava o hábito de mascar tabaco. Era um homem amargurado,
possivelmente a contas com a consciência, mas acabou os seus dias em
liberdade, beirando os 70 anos, em meados de 40.
Não parece ter sido José Correia de Melo quem matou os Borden, a polícia
nunca encarou essa hipótese e houve até quem sustentasse que também não
matara Bertha.
No livro The Legend, The Truth, the Final Chapter, Arnold Brown desenvolve a
teoria de que William Borden, um primo de Lizzie que era vizinho dos
Manchester, na Meriden Street, assassinou os Borden e Bertha.
William nunca foi considerado suspeito, mas enforcou-se dois anos depois da
morte da vizinha. Aliás, os Borden eram gente estranha que parecia lidar
melhor com a morte do que com a vida.
O velho Borden começara a fortuna como cangalheiro e dizia-se que cortava as
pernas aos mortos para poupar na madeira dos caixões. Em vida, pai e filha
nunca se deram bem, mas repousam lado a lado num cemitério de Fall River.
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MELTING - POT
Está lá? Fall River foi a primeira cidade dos EUA a ter telefones
automáticos, a instalação começou dia 18 de Dezembro de 1899 e o serviço
foi
inaugurado em 1901 com 500 telefones. Em 1902 há havia 900 telefones
automáticos na cidade e a maioria dos susbscritores eram imigrantes que
tinham dificuldades em falar inglês. Não havia lavandaria chinesa ou
mercearia portuguesa que não tivesse telefone automático, pois assim as
pessoas podiam telefonar directamente a familiares e amigos sem a aflição de
se fazerem entender pelas telefonistas para fazerem a ligação.
Mortes anunciadas. Sem Terras Novas para descobrir, Miguel Corte-Real navega
todas as semans pelas páginas do Portuguese Times e, a propósito da crónica
sobre pessoas cuja morte foi notícia e que viveram ainda muitos anos,
lembrou-se que há lhe aconteceu isso duas ou três vezes e nem sabe porquê.
A
primeira vez, as pessoas começaram a telefonar para a Casa da Saudade, a
biblioteca pública portuguesa de New Bedford, da qual Miguel é assídua
visita na qualidade de membro do grupo de amigos, e a perguntar à directora,
que era então Maria José de Carvalho, qual era a casa funerária para o
velório. Da última vez, acabara de mudar de endereço e recebeu circular de
uma repartição a perguntar a que horas tinha falecido, pois para efeitos
legais era dado como morto. Miguel Corte-Real apressou-se a desfazer o
engano e agora só espera que o ditado se confirme e morte anunciada seja
vida acrescentada.
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Reticências...
Hoje, algumas frases pouco conhecidas de mulheres famosas.
Mae West, actriz: O sucesso é uma espada dourada de dois fumes, enobrece e
fere ao mesmo tempo... A mesma: Você nunca é velho demais para se tornar
mais novo... Lucille Ball, actriz: O segredo de permanecer jovem é comer
moderadamente, viver honestamente e mentir descaradamente sobre a idade...
Billie Burke, actriz: "Envelhecer é como subir uma montanha, quanto mais
subimos mais cansados ficamos, mas o paranorama torna-se cada vez mais belo...
Golda Meir, política: Envelhecer é como andar de avião através de uma
tempestade, uma vez a bordo não há nada a fazer... Marie Ebner Eschenbach,
escritora: Na juventude aprendemos, com a idade passamos a compreender...
Ferreira Moreno
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