A propósito de distinções no âmbito das celebrações do Dia de Portugal em RI

Numa feliz e oportuna iniciativa da comissão organizadora das celebrações do
Dia de Portugal/Rhode Island 2004, vão ser distinguidas algumas
individualidades que se têm notabilizado nos diversos quadrantes da vida
social lusa nestas paragens e que de uma forma ou de outra têm inegável e
imensuravelmente prestado o seu contributo para o enriquecimento cultural, e
não só, das comunidades onde residem, preservando assim vivos os costumes e
as tradições lusas neste lado do Atlântico.

O evento, denominado "Recordar é Viver, homenagear é reconhecer, somos
tradição de quem traz Portugal no coração..." insere-se assim no programa
das celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades naquele
pequeno estado e tem a sua realização no Centro Comunitário Amigos da
Terceira, em Pawtucket, no domingo, 25 de Abril.

Serão distinguidas as seguintes individualidades: Paul Tavares, tesoureiro
estadual (político do ano), Paulo Bettencourt, advogado; Natércia da
Conceição e Catarina Avelar (fadistas), José Silva e Viriato Ferreira
(guitarristas), Alfredo Silvério e Ricardo Farias (locutores), Manuel
Pedroso (comerciante), Henry Gonçalves e Jack Costa (empresários) e Daniel
Amaral (poeta popular).

Não querendo entrar em pormenores de critérios de escolha e embora não
conhecendo de perto alguns dos distinguidos, sabemos contudo que têm
contribuído não só para o bom nome da nossa comunidade, através das suas
acções e testemunho como ainda e sobretudo pela canalização desses valores
culturais aos filhos dos conterrâneos, a essa segunda geração de portugueses
"made in America": os luso-descendentes, quanto a nós a maior riqueza e
motivo de investimento no futuro das nossas comunidades e que têm bebido da
cultura dos seus antecessores. Ou seja, não é invenção nem descoberta de
inteligentes de outro planeta reconhecer que afinal o maior tesouro de um
país reside no seu povo e aqui pelas comunidades essa riqueza cultural está
também nesta juventude nascida aqui, que não conhece Portugal mas que já
disfruta dessas experiências e vivências de portugalidade que lhes foram
incutidas pelos pais. O Portugal deles é aqui nas comunidades.

Debruçando-nos mais na vertente musical, não só porque é assunto que mais se
enquadra nesta secção, mas principalmente porque consideramos que é através
da música, talvez mais do que outra manifestação cultural, que um povo mais
se retrata e melhor conserva a memória de ligação à sua terra, a lista de
distinguidos apresenta uma grande senhora que foi recentemente homenageada e
que tem prestado um enorme contributo para a divulgação da canção nacional
neste país, constituindo ainda a nossa principal referência musical.
Natércia da Conceição tem meio século de vida dedicada ao fado - o género
musical mais genuino e identificavelmente português - e é sem qualquer
margem para dúvidas uma grande senhora do fado, pela excelência das suas
interpretações e pela longevidade da sua carreira. Portugal deve-lhe um
grande reconhecimento por isso. Estamos à espera.

Na lista surgem outros nomes ligados à música: os guitarristas José Silva e
Viriato Ferreira, duas grandes referências do fado nestas paragens. Fado sem
a guitarra e a viola clássica perde a sua identidade e estes dois senhores
têm já uma longa carreira, de resto reconhecida pelos melhores fadistas
portugueses que têm aportado a estas bandas. José Silva e Viriato Ferreira
têm levado os sons do fado pelos quatro cantos deste país e só isso merece
reconhecimento, para além da inegável qualidade artística dos dois.

O meu bom amigo Ricardo Farias, luso-descendente de 22 anos de idade, é o
exemplo daquele jovem que embora não tenha nascido em Portugal tem o nosso
país no coração, é considerado tão português como eu ou o Infante D.
Henrique e tem dado o seu contributo a manifestações portuguesas de diversas
formas. É parte de uma geração proveniente das comunidades portuguesas
radicadas fora do cantinho lusitano e que dá outra dimensão ao Portugal
inteiro. O Portugal de hoje é muito mais do que uma concepção geográfica do
Minho ao Algarve, incluindo Açores e Madeira. O verdadeiro Portugal deve ser
entendido como todos os portugueses e luso-descendentes espalhados pelos
quatro cantos do mundo. O Ricardo vai ser distinguido como locutor. Começou
as lides radiofónicas na Rádio Ponte, de Fall River e actualmente apresenta
um programa aos sábados na WJFD, de New Bedford. Tem as qualidades humanas e
profissionais para isso e muito mais. Adora fado e a saudosa Amália e
³consome² os últimos sucessos da Catia Guerreiro, Cristina Branco e de
outros grandes novos nomes do fado. Para um jovem de tenra idade e que
nasceu aqui isso é de louvar. Segundo me confidenciou há dias, o sonho dele
é abrir uma casa de fados ali no centro de Providence, para dar a conhecer o
fado a outras etnias. Talvez consiga isso um dia.

Finalmente, a Catarina Avelar, outra jovem luso-descendente natural de New
Bedford que bebe da nossa cultura, que lhe é incutida pelos pais e por opção
sua também. Para além de ser uma jovem dotada de excelentes qualidades
humanas, quanto a nós exemplo e modelo para outras da sua idade, pelo seu
espírito de voluntarismo - estuda, trabalha, presta serviço religioso e
comunitário na sua paróquia - é uma grande artista e já uma referência de
alta qualidade no mundo artístico comunitário. Podemos afirmar, com todos os
conhecimentos ao nosso alcance, de que o seu percurso musical, ainda curto,
começa já a ser referenciado nas comunidades lusas dos EUA, Canadá e em
Portugal. Sim, em Portugal. Esta jovem, 22 anos de idade, chegou a Portugal
pela mão de Fernando Correia Marques cantou, encantou e poderia ter feito
carreira no nosso país. Tinha convites para editar e cantar. Preferiu
contudo prosseguir os seus estudos aqui, frequentando actualmente a Roger
Williams University, em Providence. Tem dois discos gravados - um de canções
e outro de fados - dois registos de qualidade, sobretudo pela excelência das
suas interpretações. Ao vivo, quer se trate de canção ou fado ou ainda no
ambiente íntimo e espiritual que a música sacra assim o exige, consegue
transmitir as emoções que as mensagens sugerem. Quanto a nós, numa opinião
muito subjectiva, é no fado que melhor apreciamos as suas qualidades de
interpretação e riqueza melódica da sua voz. É a nossa voz angélica do fado
"made in America". A sua voz doce, meiga e espectacularmente melodiosa
transmite-nos sensações de paz interior, suavidade, num enlevo espiritual
onde podemos ouvir o... silêncio. A voz é um instrumento. O único
instrumento capaz de transmitir e sugerir essas sensações e emoções. Oxalá
Catarina Avelar continue a oferecer-nos esse dom...

Acrescente-se que esta distinção de que serão alvo particularmente Ricardo
Farias e Catarina Avelar tem para mim um outro significado colectivo: o
reconhecimento do contributo da juventude luso-descendente na preservação
dos nossos valores e realçar isso agora é também uma forma de incentivá-la a
continuar a manter e a divulgar a nossa cultura, através das mais diversas
formas e manifestações.



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