Desporto

Afonso Costa



"Cossacos do Volga" em Portugal!

Por: Edmundo Macedo
Los Angeles


Não sei bem o que têm os russos, mas que têm um  escorreito ar
eslavo-escandinavo-tártaro,  lá isso têm!  Não fossem eles russos! Outra
coisa que eles têm é que em cada dois russos, ou duas russas,  pelo menos um
é  Vladimir, Aleksandr, Dmitri ou Alexei, Tatiana, Irina, Larisa ou
Svetlana. 
Larisa e Alexei! Dmitri e Svetlana! Irina e Aleksandr!Vladimir e Tatiana!
Sugestão de filme fotografado na poética São Petersburgo, ou a Rússia  a
exteriorizar a sua elegância onomástica, a querer contar-nos um drama do seu
doloroso passado. 
A aura de  mistério que hoje circunda como ténue halo o vasto império dos
czares, vem de longe e passa pelos tempos em que em Portugal se segredava
sobre a Rússia, que nos meus tempos de escola não era um país, era utopia.
Nessa época, ao falar-se sobre a Rússia falava-se de um mito, de uma terra
nebulosa e impenetrável, assumindo tudo  proporções extraordinárias. Se o
tópico da 'conversa de café' fosse,  por exemplo, o Transiberiano - combóio
que corta o frio da Sibéria como faca -,  esse monstro de ferro suplantava
em força, harmonia e graça o Expresso do Oriente.  Se a conversa girasse em
redor  de vozes dos 'grandes palcos', as imponentes gargantas barítono-baixo
dos Cossacos do Volga - conservadas a pura vodka -  envergonhavam Caruso. Se
ainda se tratasse  do inefável futebol  - sem o qual o planeta Terra não
"respira" -,  dizia-se que em Moscovo havia uma equipa invencível chamada
Dínamo, que tinha na baliza um guarda-redes fenomenal  conhecido pela
alcunha 'aranha negra¹.
 Os  tempos são outros e a Rússia vai desabrochando como os narcisos
silvestres da sua infindável estepe. E à medida que vai mostrando as suas
"pétalas" ao mundo, renuncia gradualmente a sua fama de inconquistável
gigante. Até que hoje, segredos meio desvendados e o fascínio a esvaecer, o
imenso país dos Urais já não seduz  como antes nem o seu "magnete" prende
tanto como outrora.
A partir de Junho próximo Portugal presenteará o universo do futebol com uma
festa sensacional - que irá desafiar a descrição e os sentidos e será
encenada por diversos "actores", entre os quais os russos. Que prudentemente
já escolheram o local para ficar e escolheram bem. Vão para o  Algarve - um
mimo para estrangeiros, dádiva para portugueses e um paraíso que o Criador
inventou  para a Lusitânia. E que o padroeiro do turismo  tem vindo a
proteger com o maior desvelo, mandando para lá qualidade em prejuízo da
quantidade.
No que respeita à presença da comitiva russa entre nós, em Junho, sabe-se ao
certo que irão adorar a província do mar balsâmico, do céu azul-turquesa e
das amendoeiras em flor e que, se pudessem, ficavam todos por lá, depois do
Europeu, a veranear. Sabe-se também que prestaram a maior atenção ao que
lhes disse há alguns meses o seu presidente Vladimir Putin - após a vitória
alcançada no País de Gales, que lhes garantiu a viagem até ao Algarve -,
que em resumo foi o seguinte: "Os meus parabéns e ao vosso treinador pelo
que  fizeram até agora e só espero que joguem bem em Portugal."
Os russos  estrear-se-ão em 12 de Junho contra a Espanha no elegante estádio
de Faro-Loulé. Mais do que um desafio de futebol de inegável "linhagem" -
que promete grande espectáculo e emoção -,  tratar-se-á de um marco
histórico e de motivo de orgulho para o Algarve e suas hospitaleiras e
nobres gentes, que irão assistir pela primeira vez à inau importante competição europeia de mais uma das suas aprazíveis salas-de-visitas.
Vale a pena referir a carreira das selecções representativas da Espanha e
Rússia no Campeonato Europeu de Futebol, que teve início em 1960 em França e
registou como primeiro vencedor a Rússia, que derrotou na final por 2-0 a
Jugoslávia. Por seu lado, a Espanha conquistou o troféu Henri Delaunay
quatro anos mais tarde, no seu país, vencendo na final por 2-1 a equipa
russa, até aí campeã da Europa. Finalmente, a Rússia foi também vice-campeã
em 1972 e 1988, sendo derrotada, respectivamente, por  3-0, na Bélgica, pela
República Federal Alemã, e por 2-0, pela Holanda, na Alemanha Ocidental. Por
seu lado a Espanha foi  vice-campeã em 1984, após perder na final por 2-0
contra a anfitriã França.
De onde se infere que a Rússia não é exactamente um aprendiz nestas andanças
do futebol e que não vacilará nem ajoelhará perante os seus próximos
adversários.
Considerado já - e inteligentemente - como um encargo da maior
transcendência, Portugal disputará um jogo-chave, na "viragem do século",
contra os russos. Na viragem do século porque os quatro dias que irão
decorrer até os defrontarmos em 16 de Junho - após jogarmos contra a Grécia
no desafio inaugural - irão parecer uma eternidade. Seguramente uma
eternidade, ainda que em 12 de Junho somemos - como se espera - os
primeiros 3 pontos... que no entanto vão andar a fazer-nos fosquinhas,
espreitando por detrás de uma  nuvem a flutuar como algodão sobre o
rectângulo das Antas ...
O seleccionador russo, Gueorgui Yartsev, distinguiu-se como jogador e
posteriormente como treinador no  Spartak de Moscovo. Como jogador revelou
excepcional avidez e talento para marcar golos, pelo que o sentido da baliza
adversária e do golo enraizou nele como 'árvore'. Em Agosto do ano passado -
talvez porque  lhe adivinharam qualidades indispensáveis - foi-lhe oferecido
o cargo de  treinador-chefe da selecção e Yartsev aceitou. Não demorando a
afirmar-se, garantiu a presença da Rússia na próxima fase do Europeu,
reabilitando a equipa após um período de crise durante o qual registou
comprometedoras derrotas contra a Albânia e Geórgia e um empate frente à
Suiça Ao técnico russo não faltarão jogadores para escolher e eventualmente formar
a selecção que viajará até Portugal. Ao seu dispor terá 6 guarda-redes, não
surpreendendo se vier a preferir, para titular, os experientes Ovchinnikov,
ou Nigmatullin. Para o sector defensivo contará com 9 unidades, que incluem
Viktor Onopko, um veterano, iniciador de ataques,  eterno 'libero' e o
provável capitão.  A superabundância de Omédios-campistas' (18) não tornará
fácil a escolha de Yartsev, que naturalmente  não prescindirá da
versatilidade de Aleksandr Mostovoi,  perito a tecer jogadas de penetração e
muito hábil no apoio ao sector defensivo. Para o ataque o seleccionador
disporá de 9 jogadores, entre os quais Dmitri Alenichev - mais do que um
valor, um trunfo e um contra-veneno pois conhece o futebol português como as
palmas das suas mãos.  Ainda quanto ao sector atacante aguardam os russos
pela "explosão" de Dmitri Sytchev - 20 anos de invejável juventude, precioso
no passe, preciso no remate  e considerado pelos críticos do seu país como
um jogador-maravilha. E se deixarem Sytchev acender em Junho o rastilho da
sua "dinamite", ou me engano muito ou a Rússia avançará - se Deus quiser na
companhia de Portugal!
O secular conservadorismo da Rússia no futebol - aliás tradicional nas
instituições e no 'sistema' do país e tão evidente como o Kremlin e o
Cáucaso - cansa tudo e todos, até os próprios russos. Que se vão
modernizando, "ocidentalizando", aceitando até, com sorriso e vénia, a
influência das esferas externas no seu futebol.  Denotam, assim, reconhecer
que houve inércia, há estagnação e que o abundante Oproduto comercial¹
designado por futebol é afinal um filão altamente rendoso, sendo da maior
conveniência explorá-lo quanto antes.
Trata-se da "entrada oficial" dos russos na corrida ao ouro!
Do mesmo modo que se salienta o facto de nenhum clube ou treinador russo
haverem ganho qualquer troféu europeu  - a nível de clubes, acentue-se -,
salienta-se também o facto, algo singular e sintomático, de dois homens com
3 taças europeias conquistadas entre si haverem assumido recentemente o
comando de dois grandes clubes moscovitas  - o italiano Nevio Scala,
vencedor da Taça das Taças e Taça UEFA, pelo Parma, e actualmente o quarto
treinador contratado num só ano pelo Spartak,  e o nosso Artur Jorge, que
conquistou com o Porto a Taça dos Campeões Europeus em 1987, hoje à frente
do corpo técnico do CSKA.
Pelo que - como se vê - existe permeabilidade  no "granito" russo.
Houve quem na Rússia oferecesse há pouco tempo um milhão de dólares
destinados à contratação de um treinador estrangeiro para a selecção
nacional - oferta que só não se concretizou dado o sucesso conseguido por
Yartsev na qualificação para o Euro 2004.  Não restam, porém, dúvidas de que
reina ali uma  onda de entusiasmo pelo ressurgimento do futebol ao mais alto
nível - jamais que o presidente Vladimir Putin não dispensa assistir a jogos
pela televisão no conforto da sua 'dacha', após pelo fresco das manhãs ir
com um cesto aos cogumelos bravios na floresta contígua ...
Atenção ao futebol  ronceiro, de adormecer estádios, de imaginação duvidosa,
mas atlético, direito à baliza, sem floreados e tremendamente eficaz da
equipa  russa.
Cuidado com o avançado Sytchev!
Sejam bem-vindos a Portugal, 'Cossacos do Volga'!