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Um país vulnerável
Antes dos atentados do 11 de Setembro de 2001 em Washington e New York
poucos imaginariam que os EUA pudessem ser atacados no seu próprio
território. E não foi preciso nenhum exército. Bastou duas dezenas de
fanáticos armados de canivetes desviarem quatro aviões e o país mais
poderoso do mundo deixou de ser invulnerável.
Naquela manhã, o presidente visitava uma escola na Florida e o avião
convertido em bomba com que os terroristas pretendiam atingir a Casa Branca
foi cair num descampado da Pennsylvania. Mas decorridos três anos outra
bomba atingiu George W. Bush: o livro "Against All Enemies" de
Richard
Clarke, ex-encarregado de contraterrorismo do Conselho de Segurança
Nacional.
Clarke foi assessor de todos os presidentes desde Ronald Reagan e não é o
oportunista que a Casa Branca tenta fazer crer. As suas críticas à actuação
da administração Bush no combate à Al-Qaeda e ao terrorismo são um vexame
para George W. Bush, que fez da segurança nacional a peça-chave da sua
campanha de reeleição.
Segundo Clarke, o presidente não levou a Al-Qaeda a sério e preocupou-se em
fazer crer que o Iraque estava por trás dos ataques, usando falsas alegações
de que tinha armas de destruição em massa e até 25 mil litros do temido
antraz e os americanos foram todos atrás.
Ainda não li o livro de Clarke, que chegou há duas semanas às livrarias
americanas, mas a avaliar pelos desesperados contra-ataques da Casa Branca
deve ser uma bomba.
O 11 de Setembro ou simplesmente 9/11, para abreviar, acabou por se tornar a
legitimidade de um presidente que não tinha sido eleito pela maioria do povo
do seu país e vencera graças a uma trafulhice descarada.
Já ninguém se lembra, mas no dia em que Bush tomou posse, a 20 de Janeiro de
2001, Washington era pratrulhada por 7 mil polícias com receio das
manifestações, numa cena sem precedentes nos EUA e própria de qualquer
república das bananas.
No 9/11, o povo americano deu mais uma vez prova de patriotismo e cerrou
fileiras em torno do comandante-chefe, o desencanto veio depois.
Uma das mais preocupantes revelações de Clarke é que uma das primeiras
preocupações do FBI depois dos atentados, seguindo instruções do chefe de
gabinete da Casa Branca, foi reunir os 20 membros da família de bin Laden
residentes nos EUA, metê-los no avião e pô-los a salvo na Arábia Saudita.
As relações pessoais dos Bush com os bin Laden, considerados os Rockefellers
do Médio Oriente, começaram com os patriarcas das duas famílias e não
deixa
de ser curioso o presidente ter sido sócio de um irmão de Ossama Bin Laden
numa empresa petrolífera do Texas chamada Arbusto (Bush em português).
As revelações de que a Casa Branca negligenciou a ameaça representada pelos
grupos radicais islâmicos como a Al-Qaeda não são novidade. Já depois de
Clarke ter deposto perante a comissão do Senado que investiga o 9-11, a
agente do FBI Collen Rowley revelou que os seus superiores limitaram as
investigações sobre um indivíduo hoje suspeito de ter sido o vigésimo
sequestrador. Sibel Edmonds, uma tradutora que trabalhou para o FBI, também
assegurou ter visto documentos escritos meses antes dos ataques e que
indicavam a possibilidade da Al-Qaeda cometer ataques armados nos EUA, mas
quem de direito não os levou a sério e isso custou três mil vidas.
Reagindo as estas embaraçosas revelações, a administração Bush deitou
culpas
à administração Clinton e entregou ao comité milhares de documentos
secretos
sobre terrorismo elaborados durante os mandatos de Bill Clinton, que deve
ser ouvido nas próximas semanas para discutir se alguma medida poderia ter
sido tomada para evitar os ataques.
O presidente e o seu vice-presidente, Dick Chenney, também devem testemunhar
e, entretanto, já foram ouvidos o director da CIA e figuras de alto escalão
como o secretário de Estado, Colin Powell e o secretário de Defesa, Ronald
Rumsfeld. Amanhã, quinta-feira, será a vez de Condoleeza Rice, conselheira
para a Segurança Nacional, que talvez esclareça finalmente o mistério que
intriga os americanos: porque é que Bush resolveu acabar com Saddam Hussein
em vez de acabar com Osama Bin Laden?
Com esta decisão, o presidente desperdiçou uma oportunidade única para
conseguir a solidariedade de todo o mundo. Depois de 9/11, uma boa parte do
planeta estava solidária com Washington e disposta a apoiar, inclusivamente
no ataque ao Afeganistão, cujo governo talibã apoiava os terroristas da
Al-Qaeda. Mas a invasão do Iraque deitou tudo a perder.
Desde que George W. Bush declarou guerra ao terrorismo, os terroristas
tornaram-se mais atrevidos e o mundo ficou mais inseguro. Muitos americanos
estão pessimistas, receiam que o pior ainda esteja para vir e o próprio
governo alerta para a possibilidade de catastróficos ataques nucleares
contaminação da água, ataques bombistas nos transportes públicos, cortes
de
electricidade e até aumento da gasolina.
Precisamente, o preço da gasolina também pode prestar-se ao terrorismo
segundo o novo Departamento de Segurança, embora neste caso os verdadeiros
terroristas sejam a Sunoco, Shell, Mobil e Texaco.
Muitos americanos começam a pensar que era mais necessária uma mudança de
regime nos EUA do que no Iraque.
Os EUA e o mundo estão mais seguros depois que Bush Filho declarou guerra ao
terrorismo?
Não me parece. Osama Bin Laden continua a fazer das suas e talvez não lhe
deitem a mão (lembrem-se que foi treinado pela CIA e usa os seus métodos).
Além de terem arrasado o Iraque (que agora vão ter que reconstruir), a única
coisa que os americanos conseguiram foi caçar um patético Saddam Hussein.
Saiu agora em Londres uma biografia de Saddam intitulada "Rei do
Terror". O
autor é Con Coughlin, editor executivo do Daily Telegraph, que nos revela um
ditador apreciador de "mulheres loiras casadas e vinho tinto português".
Embora fosse ditador sangrento e desapiedado, Washington deixou Saddam nas
calmas nos seus palácios à beira do rio Tigre até ao dia em que começou
com
ambições babilónicas e invadiu o Kuwait, tentando controlar metade das
reservas petrolíferas mundiais. Aí Washington não perdoou.
Saddam está preso em local desconhecido a aguardar julgamento. Já tem
advogado, o francês Jacques Verges, que defendeu entre outros Klaus Barbie,
chefe da Gestapo em França durante a II Guerra Mundial e o terrorista
venezuelano Carlos, o Jacal.
Se estivesse no lugar de Saddam, eu tentava era transferência do julgamento
para Portugal, país com a justiça ideal para os malfeitores, conforme se
está a ver no caso de pedofília na Casa Pia de Lisboa.
Há um ano a aguardar julgamento em prisão preventiva, o embaixador Jorge
Ritto, que é acusado de vinte e tal casos de abuso de menores, foi libertado
a semana passada por decisão do Tribunal de Relações de Lisboa,
considerando que não há perigo de fuga ou reincidência devido à sua "visibilidade
mediática".
Se é assim, Saddam Hussein não ia sequer preso em Portugal.
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Mão amiga fez-nos chegar um recorte da edição de 14 de Março último do
Jornal de Angola e no qual se dá conta de que o "PAM assegura
alimentação
no Huambo. Mais de 400 e 85 pessoas viram as suas culturas destruidas pelas
chuvas". Realmente a água foi muita, nas inharas do Huambo e no título
do
matutino luandense. O redactor de serviço resolveu escrever como fala e, em
vez de 485 pessoas, escreveu 400 e 85. Os puristas talvez se escandalizem,
mas o misteique não é tão big como parece. A língua portuguesa em Angola não
tem que ser necessariamente igual à que se fala no Brasil, nos Açores ou em
Timor. Os puristas defensores da escrupulosa pureza da linguagem escrita que
nos perdoem, mas as línguas são mais como se falam do que como se escrevem
iunou?
Guerra ao fumo. Desde segunda-feira que os fumadores da Irlanda precisam ir
para a rua ou esconder-se nas casas de banho, pois entrou em vigor um lei
que proibe o fumo no local de trabalho, incluindo os 10.000 bares do país.
Prevê-se que outras nações europeias sigam em breve o exemplo irlandês,
nomeadamente Portugal. Alguns oponentes da medida argumentam que os bares e
restaurantes irlandese sofrerão uma redução no número de clientes devido
à
lei de não fumar, mas em New York aconteceu precisamente o contrário. Quando
a lei antifumo entrou em vigor, há 10 meses, dizia-se que de 30% a 50% dos
restaurantes e bares novaiorquinos iriam falir e a cidade perderia milhares de
postos de trabalho e milhões de dólares em receitas fiscais. Nada disso
aconteceu: 97% dos 22 mil restaurantes e bares de New York cumprem a lei e as
suas receitas aumentram 9% porque muitas mais pessoas tornaram-se
clientes desde que o ar se tornou mais limpo e saudável. Há 130 mil pessoas
a trabalhar na restauração e, como a poluição se tornou seis vezes menor,
o
número das doenças cardiovasculares e pulmonares em New York diminuiu porque
as pessoas passaram a respirar um ar mais limpo e seguro.
O homem e as máquinas. Joseph DeMello reside na Kaufman Road, Tiverton, tem
sete veículos na sua propriedade: um Lincol 84, outro Lincoln 88, um
Cadillac 85, um Mercedes 67, um camião Ford 86 e uma furgoneta Toyoata.
Havia mais um carro, mas desapareceu desde que a polícia lhe foi bater à
porta. Mello é acusado de ter convertido o quintal em junkyard, mas
defende-se alegando que, embora não estejam registados e nem sequer
circulem, são veículos que lhe fazem falta. Além disso, feitas as contas,
Mello tem sete veículos em três lotes e um vizinho tem três carros num único
lote.
Saramago e o voto. Aos 81 anos, José Saramago continua em forma e acaba de
publicar novo e polémico romance intitulado Ensaio sobre a Lucidez e no qual
manifesta o desencanto em relação aos partidos políticos e defende o voto
em
branco. Mas dado que o Prémio Nobel é candidato às eleições europeias de
13
de Junho próximo na lista do PCP, ficamos sem saber se o apelo ao voto em
branco abrange ou não o seu partido.
Gasolina aumenta. O preço da gasolina continua a aumentar nos EUA e em
alguns pontos do país já atingiu $2.50 o galão. Embora seja uma pechincha
se
comparado com o preço em Portugal, 50 por cento dos americanos acham que o
governo tem de fazer alguma coisa e, em vez das armas de destruição maciça,
devia começar a procurar petróleo no Iraque. Os outros 50 por cento dos
americanos acham que, se o governo não resolver entretanto o problema,
resolvem-no eles em 2 de Novembro.
O discurso de Bush. Na visita que fez a semana passada a Orlando, Florida,
George W. Bush proferiu um longo discurso de 45 minutos e, sem que o
presidente desse por isso, durante grande parte da intervenção, Tyler
Crotty, um garoto de 13 anos, quebrou todas as regras do protocolo e viu
várias vezas as horas, bocejou e fez ginástica, procurando resistir ao sono.
Um clipe com as imagens do jovem foi mostrado sexta-feira no programa de
David Letterman, na CBS, fez rir milhões de americanos e Tyler tornou-se
celebridade nacional e um bom trunfo para o Partido Democrata em ano de
eleições, a ponto do acesso da imprensa ao jovem ter passado a ser
controlado pela própria Casa Branca, a exemplo do que fez o Pentágono em
relação a Jessica Lynch, a heroína do Iraque.
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Reticências...
Uma opinião é frequentemente um mínimo de factos combinados com preconceito
e emoção... O homem que tem boa opinião de si próprio é habitualmente mau
juiz... Algumas pessoas julgam-se espertas só por formarem opinião sem
conhecimentos dos factos... A sua reputação pode ser prejudicada pela opinião
dos outros, mas só você pode prejudicar o seu carácter... A maneira mais rápida
de acender uma fogueira é juntar duas opiniões opostas... Apenas os malucos
e os mortos nunca mudam de opinião... Uma das maiores dificuldades do homem
é manter as suas opiniões em segredo... Toda a gente tem direito a expressar
a sua opinião. Contudo, não tem direito a esperar que os outros ouçam...
Ferreira Moreno
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