|
Alcunha para todos os gostos
Mário Soares talvez já não seja lembrado pela sua graça por muitos
compatriotas que, no entanto, possivelmente ainda o recordam pela alcunha de
Bochecas.
O ex-presidente da República é um exemplo da popularidade das alcunhas em
Portugal, onde o seu predecessor marechal Costa Gomes ficou conhecido por
Rolha, dada a capacidade em manter-se à superfície da vaga política no
agitado período pós-25 de Abril.
As alcunhas já não estão tão em moda em Portugal, mas um jornal de Lisboa
publicou há dias uma reportagem sobre as quatro alcunhas de Carlos Silvino
da Silva, um dos implicados no escândalo de pedofília da Casa Pia: Bibi,
Comissário, Galinha e Padre Frederico.
Bibi foi devido à paixão de Silvino pelo seu bibe da escola. Comissário era
outros dos nomes pelo qual os miúdos da Casa Pia se lhe referiam, por ser
quem "comandava as tropas". O motivo da alcunha Galinha não precisa
de
explicação e Padre Frederico teve a ver com o sacerdote brasileiro que
esteve implicado num homicídio no Funchal e fugiu da cadeia.
Carlos Silvino adorava igualmente alcunhar outros funcionários da Casa Pia e
ao ex-provedor Manuel Abrantes, também preso e arguido no processo, chamava
Ai à Latas, não se sabe porquê.
Alcunha é um apelido em regra depreciativo ou brejeiro por que se designa
alguém devido a alguma particularidade física, moral ou profissional.
Lisboa sempre teve o hábito da alcunha, sobretudo nos bairros populares onde
todos se conheciam. Muitas alcunhas passavam de pai para filho, o filho do
Marreco por exemplo passava a ser conhecido como Filho do Marreco, mesmo que
fosse escorreito. Todos tinham alcunha, o merceeiro, o polícia e o
guarda-freios que corria a malta pendurada nos eléctricos.
O Douglas Faz Bancos (inspirada no actor Douglas Fairbanks) é uma das muitas
alcunhas referidas num dicionário das alcunhas de Lisboa que é um autêntico
retrato da cidade, mas o hábito tende a desaparecer na cidade de
arranha-céus onde as pessoas mal se conhecem.
Nas localidades mais pequenas, onde o que acontece de peculiar a cada um é
normalmente do conhecimento geral, as alcunhas ainda são frequentes e no
Alentejo 80% da população tem alcunha.
Francisco Martins Ramos. catedrático na Universidade de Évora, reuniu
35
mil alcunhas no livro o Tratado das Alcunhas Alentejanas e concluiu que a
maioria dos alcunhados são homens (88,8%) e apenas um terço (35,9%) aceita
as alcunhas, já que regra geral são depreciativas.
A maioria (32%) das alcunhas são do tipo comportamental, criticam atitudes e
modos de estar. Caso do Braço de Trabalho, alcunha de sujeito pouco amigo do
trabalho e assíduo frequentador de uma taberna cujo dono tinha a alcunha de
Bom Ladrão, devido à fama de se enganar nas contas a seu favor.
O segundo maior grupo (15%) é o das alcunhas sobre características físicas.
Caso do Balado, indivíduo de pénis avantajado e do Apaga-Velas, indivíduo
muito alto, característica comum as pessoas que apagavam as candeias de
iluminação pública antes de existir a electricidade.
No Ribatejo também abundam alcunhas e um jornal regional refere José Alberto
Vitorino, antigo comandante dos bombeiros de Almeirim e actualmente
inspector distrital dos bombeiros de Castelo Branco, que é conhecido por Zé
Merda e não parece ralado com isso. Tanto que resolveu dar o nome de Quinta
do Zé Merda a uma propriedade que comprou há tempos e pendurou a porta de
casa um azulejo com o seu "brasão".
Em Santo Tirso também não faltam alcunhas pitorescas, algumas associadas à
família ou histórias que tenham marcado os indivíduos que as têm: Cu de
Chumbo, Caga Rambas, Papa Ovelhas e Picha a Rojo, entre outras.
Algumas alcunhas tornam-se apelidos. José Saramago, o Prémio Nobel da
Literatura, nasceu na Azinhaga, povoado ribatejano e o pai chamava-se José
de Sousa, por alcunha o Saramago. O futuro escritor recebeu a alcunha no
registo e Saramago, alcunha cuja origem a família nem sequer conhece,
tornou-se mundialmente conhecida.
Ainda que as alcunhas se apliquem na generalidade mais a pessoas singulares,
não raras vezes também se referem a populações e na sua origem estão
velhas
rivalidades.
Não vejam os prezados leitores eventualmente naturais das localidades
referidas qualquer intenção depreciativa, mas regista-se em nome da tradição
que os naturais de Alcains são conhecidos como Unhas Negras, os de Castelo
Branco são Sardaniscas, os da Covilhã são Caimões, os do Fundão são Cabeças
de Burro, os de Idanha-a-Nova são Alarves, os de Sendinho são Tinge Rodilhas
e Ourém, porque tinha a feira "dos três", era conhecida por ser a
terra mais
honrada do país.
Na Madeira, os do Porto Santo eram conhecidos por Profetas, os do Caniçal
por Burreiros e os do Curral das Freias por Cabreiros.
Todas as freguesias madeirenses têm alcunhas e os pescadores de Câmara de
Lobos eram conhecidos pela alcunha de Xavelhas, que era o nome do barco que
utilizavam ou por Charnota ou Chernota, nome que davam aos chernes pequenos
que apanhavam.
Nos Açores também não faltam alcunhas. O açoriano mais famoso da
actualidade, o futebolista Pauleta, é conhecido precisamente pela alcunha
que herdou do pai. Pauleta chama-se na realidade Pedro Miguel César
Resendes, nascido a 20 de Abril de 1973 em Ponta Delgada.
Outro ídolo do futebol português, Eusébilo da Silva Ferreira, tinha a
alcunha de Pelé quando ainda jogava em Moçambique, pois a alcunha é também
parte da cultura dos territórios colonizados pelos portugueses e na
Guiné-Bissau a pessoa recebe mesmo várias alcunhas.
Na infância, o guineense recebe o Nome di Kassa, alcunha que o acompanha nas
andanças de menino e que tanto é usado no contexto familiar como
comunitário: o Pedro é conhecido por Pipi, o Jorge por Djodje e o Armando
por Mando, etc. Na adolescência, os colegas dão-lhe o Nome de Toroça
(troça), alcunha que pode passar de pai para filho ou de irmão mais velho
para irmão mais novo. Por fim, é o Nomi de Manjuandadi ou de Colegação,
alcunha usada em grupo por colegas ou amigos intimos.
Oriundos de um país de alcunhas, não faltam alcunhas mais ou menos
hilariantes nas comunidades portuguesas nos EUA, algumas trazidas da terra
natal e outras adquiridas já na diáspora, caso de Meio Quartilho e Canjirão,
alcunhas que advêm das libações dos visados.
Quase todas as alcunhas são depreciativas, ferem a susceptibilidade dos
visados e tanto acontece aos anónimos cidadãos como aos senhores do mundo.
Os russos têm dado muitas alcunhas ao presidente Vladimir Putim. Quando foi
nomeado por Boris Yeltsin como seu sucessor chamaram-lhe Príncipe Herdeiro.
Depois foi Valdimir Sol Vermelho, lembrando o famoso princípe russo. Agora
chamam-lhe Míssil Sem Controlo, não se sabe se devido aos seu gosto pelo
esqui ou por não dar rumo ao país.
Nos EUA, o presidente George W. Bush tem também uma alcunha dos tempos da
universidade: os colegas chamavam-lhe Soufflé por ser fofo e vazio na parte
de cima.
============================
Bush explica 11/9
Pouco à vontade nas conferências de imprensa (deu umas 30 até agora,
enquanto o pai tinha dada o triplo em igual período), o presidente George W.
Bush deu ontem uma conferência de imprensa para reafirmar que não recebeu
aviso anterior aos ataques de 11 de Setembro de 2001, de que "algo estava
para acontecer nos EUA".
O jornal New York de sábado passado afirma que um relatório dos serviços de
informações entregue a Bush no dia 6 de Agosto de 2001, numa reunião no
rancho do presidente em Crawford, no Texas, revelava que a rede Al Qaeda já
estava estabelecida no país e planeava um ataque com explosivos, pretendendo
sequestrar aviões.
O artigo do New York Times veio contradizer as explicações repetidas por
diversas vezes pela Casa Branca, segundo as quais as informações sobre a
Al-Qaeda eram de natureza "histórica", baseadas em informações
antigas e em
ameaças a alvos americanos no exterior e não poderia ser considerado um
alerta de emergência.
A existência do documento veio à tona a semana passada durante o depoimento
da assessora de Segurança Nacional, Condoleeza Rice, à comissão do Senado
que investiga as circunstâncias dos atentados de 11 de Setembro.
A comissão tem pressionado a Casa Branca para revelar o conteúdo do
relatório, que se tornou no centro de uma escaramuça sobre a competência da
política anti-terrorista antes do 11 de Setembro e, pressionado pelas
exigências, o presidente veio a público esclarecer a questão, mas pouco
adiantou de novo.
"O que é que a Casa Branca queria afinal, que o relatório já indicasse
a
hora a que o WTC ruiu"?
========================
MELTING-POT
Confrarias. A Confraria do Vinho do Porto esteve em 1997 nos EUA para
promover convívios de apreciadores do afamado vinho e talvez volte este ano.
Confraria é uma associação de pessoas com os mesmos interesses e em
Portugal
não faltam confrarias, nomeadamente a Confraria das Tripas à Moda do Porto,
constituida recentemente. Embora o imigrante tente reinventar Portugal na
diáspora, nunca ninguém se lembrou de criar uma confraria portuguesa nos
EUA. Podíamos ter por exemplo a Confraria da Portuguesa Kale Soup, mas a
verdade é que a rapidez da vida americana não dá para prolongados repastos
e
por isso talvez devessemos ir antes para coisa mais rápida. Talvez a
Confraria do Ovo Estrelado.
A importância do português. A única coisa que o senador Jack Reed, de Rhode
Island, sabia dizer em português era "cala a boca" e por isso
resolveu
aprender português depois da visita que fez a Lisboa por ocasião da Expo 98.
Esperamos ter oportunidade de ouvir Jack Reed pondo à prova os seus
conhecimentos da língua de Camões. Não nos é indiferente a disponibilidade
do senador para aprender português e muito mais gente nos EUA devia fazer o
mesmo. A começar por muitos portugueses.
Malas da emigração. No Museu Etnográfico de Arganil estão patentes três
malas da emigração na Beira Alta: o baú para o Brasil, cesta de vime para
Lisboa e a mala de cartão para França.
O café do amor. O Café Majestic, no 112 da Rua da Santa Catarina é local de
paragem obrigatória no Porto. Foi inaugurado a 17 de Dezembro de 1921 com o
nome de Élite, mas passou a chamar-se Majestic em 1922 e tornou-se o café
mais chique da cidade, com os seus sofás de couro, os espelhos de cristal de
Antuérpia, os estuques dourados no tecto e o mármore indiano no chão.
Atento
ao sinal dos tempos, o Majestic tem uma página na internet que levou há anos
um americano a escolher o café para pedir a noiva em casamento. Atravessaram
ambos o Atlântico só para que ela se sentasse a uma mesa do café e ele, de
joelho em terra, lhe pedisse a mão e o resto, claro.
Children's Foundation. Billy Andrade, natural de Bristol, é o único
luso-descendente no golfe profissional e está ligado a uma original cruzada
de bem fazer: um leilão anual de bolas de golfe autografadas por
celebridades da modalidades em benefício da Children's Foundation. Houve um
ano em que só uma bola autografada por Tiger Woods rendeu mais de 50 mil
dólares.
Piton em casa. Wanda Nunes, de Boston, tem um animal de estimação pouco
comum, uma piton que dá pelo nome de Moma. Só que coabitar com uma cobra de
mais de metro e meio pode ser problemático como se viu sábado passado.
Quando se preparava para lhe dar o pequeno almoço (dois ratos), Wanda viu
que Moma tinha outros apetites, pois enrolou-se numa perna da mulher e
começou a tentar engolir-lhe o braço. A piton é uma espécie de gibóia e
estes enormes ofídeos podem engolir um boi, quanto mais uma pessoa. Wanda
gritou aterrada, o filho de 13 anos tentou libertar a mãe, mas Moma não
queria deixar a presa e o pequeno acabou telofonando à polícia. Dois
possantes agentes libertaram a mulher e fecharam Moma na gaiola. Wanda está
agora num dilema, a serpente é quase parte da família, mas não lhe agrada a
possibilidade de ser breakfast de piton.
Mestre-cuca. Bravo, revista trimestral da Bon Appetit Management, publicou
um artigo sobre Paul Amaral, mestre de artes culinárias na Greater New
Bedford Vocational Technical High School. Com 50 anos de experiência na
restauração, Amaral lecciona há 25 na escola de New Bedford e começou a
criar cozinheiros na Diman High School de Fall River onde um dos seus alunos
foi um tal Emeril Lagasse.
========================
Reticências...
As casas modernas são maravilhosas. Estão equipadas com máquinas que fazem
tudo, excepto pagar as contas... As novas casas têm carpetes de parede a
parede e hipotecas de porta a porta... As novas casas têm todos os confortos
possíveis e imagináveis, excepto baixo preço... Pode fazer as contas assim...
quando acabar de pagar a casa, a mobília nova que comprou já será uma
antiguidade... Os automóveis mudam todos os anos, tornando-se mais baixos e
mais largos, enquanto os pagamentos ficam mais compridos e mais altos...
Muitas pessoas têm um problema com os carros novos, o motor não anda e os
pagamentos não param... Os carros modernos são tão silenciosos que a única
coisa que faz barulho é o banco que fez a hipoteca...
Ferreira Moreno
Copyright © 1997/2001 The Portuguese Times
Autorizada a reprodução de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem