Mariza em Boston
Transgredir ou não regras e hábitos do fado?


A canção nacional portuguesa fez-se ouvir no passado sábado em Boston, no
Berklee Performance Center, mesmo ali na movimentada Massachusetts Avenue.
Passavam quinze minutos da 8:00 da noite quando Mariza, considerada por
muitos como uma das maiores revelações do fado, pisou o palco e quando
entravam ainda na sala alguns forasteiros vindos de diversas partes da Nova
Inglaterra.
Perante um auditório praticamente esgotado (capacidade para 1.200 pessoas),
Mariza, excelentemente acompanhada por um trio de grande categoria
constituído por António Neto (guitarra acústica), Luís Guerreiro (guitarra
portuguesa) e Fernando Sousa (baixo acústico) demonstrou todas as suas
qualidades de grande intérprete que na realidade é, num repertório baseado
nos seus dois CD's: "Fado em Mim" e "Fado Curvo", cantando belos temas de
grandes autores e compositores, nomeadamente Fernando Pessoa, Maximiano de
Sousa, David Mourão Ferreira e Zeca Afonso.
Durante os cerca de 90 minutos em que esteve em palco, esta jovem natural de
Moçambique e que reside em Portugal desde os 3 anos de idade e um dia
descoberta na Mouraria por Jorge Fernando, foi exuberantemente aplaudida por
um público encantado e magnetizado não só pela sua voz como ainda pela
excelência das suas interpretações (saber transmitir o verdadeiro sentido
que o autor de um poema pretende dar) e ainda pelo virtuosismo de um trio de
músicos que realmente é outro espectáculo dentro do espectáculo, a tal ponto
de afirmarmos que grande parte do sucesso do espectáculo de Mariza provém de
António Neto, Luís Guerreiro e Fernando Sousa.
Mariza é toda ela música. O seu corpo fala música. A sua voz é um
instrumento que transmite sentimentos e que desperta sensações em quem a
ouve, sendo esta a principal virtude de um intérprete, sobretudo ao vivo.
Ouvir Mariza em disco e vê-la e ouvi-la ao vivo são duas coisas totalmente
diferentes. Ou seja, no palco, a fadista liberta-se de certas regras,
hábitos e imposições que este género musical possa eventualmente sugerir. Há
mais espontaneidade e liberdade. Há os intervalos de silêncio. Mariza em
palco é mais Mariza e de alguma forma liberta-se e transgride essas regras,
a tal ponto de eu dizer ao meu companheiro de lado: "Os adeptos daquela
corrente de fado mais tradicional não estão a gostar deste espectáculo". É
que efectivamente o fado de Mariza adopta outras influências e variantes em
todas as suas vertentes: instrumental, vocal, presença de palco e... imagem.
É claro que nem toda a gente concorda com isso, mas sou de opinião de que
quando se adiciona novos elementos a um género musical este torna-se mais
rico e mais universal. É a tal "fusion" ou fusão de estilos. E o fado
cantado ao vivo por Mariza apresenta essa característica. Contrariamente ao
que muito boa gente possa pensar, Mariza não transgride as regras do fado,
simplesmente adiciona novos elementos e experiências. É assim com o rock,
com o jazz, com o tango, com os blues e outros géneros. E porque não há-de
ser com o fado? É ou não é verdade que o fado tem mudado ao longo dos anos?
E vai continuar a mudar. Isto faz-me lembrar um episódio verdadeiro há cerca
de vinte anos atrás, quando Carlos do Carmo, em digressão por estas
paragens, num espectáculo em New Bedford, introduziu no seu acompanhamento
musical, um baixo acústico amplificado. Os "puritanos" e pseudo-entendidos
da matéria cá do sítio ficaram escandalizados. Carlos do Carmo, que sabe
disto melhor do que ninguém, teve de explicar a história da evolução do
fado, tanto na vertende de interpretação como no aspecto de revestimento
musical. Nem isso os convenceu...
Mas, voltando ao espectáculo do passado sábado, devemos afirmar que em quase
todos os aspectos foi idêntico ao de Maio de 2003: o mesmo acompanhamento e
praticamente o mesmo repertório dos dois CD's. Temas como "Chuva",
"Cavaleiro Monge", "Primavera", "Feira de Castro", "Menino do Bairro Negro",
"Barco Negro", "Oiça lá ó senhor vinho", "Há festa na Mouraria", e para
terminar, após dois encores, o seu grande sucesso "Ó gente da minha terra",
fizeram-se ouvir na sala do Berklee Performance Center, dotada de uma
acústica excelente.
Numa breve retrospectiva ao passado, Mariza viajou aos tempos da sua
infância na Mouraria, bairro lisboeta onde cresceu e onde começou a cantar
com apenas cinco anos de idade, dois anos após ter vindo de Moçambique, sua
terra natal. Um momento íntimo do espectáculo, ao interpretar um belo fado e
dispensando a guitarra portuguesa de Luís Guerreiro e o baixo acústico de
Fernando Sousa, acompanhada apenas pela guitarra acústica de António Neto.
Antes evocara a memória de Maria Severa, a primeira mulher portuguesa a
cantar e tocar fado. "Não temos discos nem documentos concretos de Maria
Severa como artista, mas temos um elemento melhor do que tudo isso: a nossa
imaginação e eu imagino que cantava assim...", disse Mariza, sugerindo uma
imagem algo arrogante e irreverente em palco, secundada pelos sons
sugestivos da guitarra portuguesa de Luís Guerreiro.
Enfim, mais um espectáculo de excelente nível: uma grande fadista e três
instrumentistas a nível dos melhores que temos em Portugal. O público,
constituído na sua maioria por portugueses, como seria aliás de esperar,
soube ouvir e aplaudir e contribuir para a riqueza do espectáculo. Mariza
prometeu incluir Boston na sua tournée do próximo ano. Tem de vir.

 


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