|
Carlyle em Portugal
Dia 30 de Abril, na Assembleia da República portuguesa, o deputado Francisco
Louçã, do Bloco de Esquerda, confrontou o primeiro-ministro Durão Barroso
com a questão de que o governo teria dado instruções à Caixa Geral de
Depósitos para financiar o grupo americano Carlyle na corrida à compra de
uma participação na empresa gasolineira GalpEnergia, favorecendo assim um
concorrente num concurso público.
O Estado pretende vender 33,34% da Galp e os quatro consórcios candidatos à
compra enviaram segunda-feira as propostas para a Goldman Sachs, de Londres:
Carlyle, grupo José Mello, Viacer e o fundo de capital de risco inglês CVC,
que controla a empresa de pasta de papel Lecta e concorre com apoio do
Deutsche Bank.
O grupo José de Mello (os Mellos da velha CUF), faz consórcio com o BCP, que
será o financiador de 40% da proposta. A Viacer é uma holding que reúne os
accionistas da cervejeira Unicer (Arsopi, grupo Violas e BPI) e avança para
a Galp com um sindicato bancário liderado pelo BPI.
Finalmente, a Carlyle conta com a participação do Banco Espírito Santo e
Caixa Geral de Depósitos, que escandalizou Louçã e ainda a petrolifera
angolana Sonangol, a Fundação Oriente, Fundo Fomentinvest (Fundação
Luso-Americana, Ilídio Pinho, Horácio Roque e Grupo Espírito Santo), a
Riopele e grup Amorim.
A Carlyle fica com 45% do consórcio Luso-Oil, mas por ser uma empresa
privada de investimentos, cederá a sua posição no fim de sete a dez anos,
dando preferência de compra aos accionistas portugueses.
Tudo isto era público, mas assistiu-se a este diálogo parlamentar mais para
lamentar:
"Gostaria que o sr. primeiro-ministro explicasse porque razões o banco
do
Estado, a Caixa Geral de Depósitos, financia o grupo Carlyle, que vai assim
comprar uma parte do Estado na Galp com dinheiro dado pelo governo",
interpelou Louçã. "Martins da Cruz, um mês depois de ter saído do
governo,
tornou-se o homem da Carlyle em Portugal".
Lembre-se que Martins da Cruz, diplomata de carreira, era ministro dos
Negócios Estrangeiros e foi forçado a resignar na sequência do escândalo
de
ter metido uma cunha do colga da Educação para admissão da filha na
universidade.
"Gostava que o sr. Primeiro-ministro me explicasse", prosseguiu Louçã.
"Se é
por amizade com Martins da Cruz, se é por acordo com a família Bush..."
"Conclua, sr. deputado", insistiu Mota Amaral, presidente do
Parlamento.
"Concluo sr. presidente", anuiu o deputado. "Ou se é por
respeito pela
família bin Laden ou porque razão é que a Caixa Geral de Depósitos apoia a
pretensão do grupo Carlyle nesta negociata?"
"Vossa excelência mente quando diz que o governo deu instruções à
Caixa para
tomar uma determinada posição nesta questão", exclamou Durão Barroso,
visivelmente indignado. "Tem de provar se fui eu ou a ministra das Finanças
ou qualquer membro do governo. Desafio o senhor deputdo a provar as suas
insinuações. Ou prova ou está a mentir".
"A Caixa Geral de Depósitos não tem autonomia para tomar uma decisão
destas
sem consultar a tutela", rematou Louçã, encerrando a polémica.
Durão Barroso não negou que Martins da Cruz trabalhe para a Carlyle e,
segundo o jornal Público, terá sido contratado no início do ano, quando os
norte-americanos formalizaram o pedido de entrar na corrida da privatização
da Galp. Todos os concorrentes têm os seus homens em Portugal e Pina Moura,
ex-ministro da Economia do governo Guterrres, representa a energética
espanhola Iberdrola.
A intervenção do deputado do Bloco de Esquerda serviu apenas para animar a
sessão e nada trouxe de novo. Se porventura a Carlyle for favorecida pelo
governo serão os restantes concorrentes que não deixarão de fazer valer os
seus direitos.
Louçã definiu o grupo Carlyle como "o mais especulativo a nível
mundial" e
não andou longe da verdade.
A Carlyle é um fundo norte-americano de investimentos privados com sede em
Washington e cuja estrutura accionista é confidencial, sabendo-se apenas que
o grosso do capital (cerca de 60%) pertence aos "seniores partners",
entre
10 a 12% à Mellon Foundation e 5,5% à caixa de previdência dos funcionários
públicos do estado da Califórnia.
Um dos principais accionistas é George Soros, financeiro filósofo com
fortuna estimada em sete biliões de dólares e que reservou nove milhões
para
impedir a reeleição de George W. Bush em Novembro.
Apesar de ter salvo Bush filho da falência em 1990 e de se sentar ao lado de
Bush pai na junta directiva da Carlyle, Soros acha que o júnior já estragou
o que tinha a estragar como presidente dos EUA.
Bush pai começou por ser investidor da Carlyle em 1993, mas depois de ter
perdido a tentativa de conseguiur um segundo mandato presidencial tornou-se
também consultor da empresa para a Ásia e especialista em atrair
investidores.
Segundo o Washington Post, doze ricas famílias sauditas, incluindo a de bin
Laden, "foram encorajados a investir na Carlyle graças ao velh Bush".
Contudo, a 26 de Outubro de 2001 e em resultado do 11 de Setembro, os bin
Laden retiravam discretamente os 2,02 biliões de dólares que tinham
investido na Carlyle.
Refira-se que nem todos os Bin Laden são fanáticos barbudos como o temível
Osama. A família é constituida por pessoas respeitáveis, considerados os
Rockefeller do Médio Oriente e com grandes investimentos nos EUA,
possuindo
nomeadamente parte da Microsoft e da Boeing.
O grupo Carlyle gere 18 biliões de dólares de investimentos em mais de 160
sociedades na área da defesa, aeronáutica, energia e telecomunicações de
55
países. A especialidade é comprar empresas em dificuldades, de peferência
empresas de armamento e, quando se tornam lucrativas graças a contratos com
o governo, vendê-las por somas astronómicas.
A tempo inteiro ou para operações temporárias de relações públicas, a
firma
emprega figuras de proa na geopolítica mundial como John Major, ex-primeiro
ministro da Grã Bretanha, Karl Otto Pohl, ex-presidente do Bundesbank, Fidel
Ramos, ex-presidente das Filipinas, Arthur Levitt, ex-presidente da Security
Exchange Commission e James Baker, antigo secretário de Estado. Os salários
desta gente são, obviamente, mantidos secretos.
Entre as sociedades controladas pelo grupo estão a Empi Inc., medicamentos e
produtos médicos, facturação de 73 milhões de dólares em 2000; Medpoint
Inc., medicamentos e peservativos, facturação de 223 milhões em 2001;
United
States Marine Repair, a maior companhia americana de navios de guerra não
nucleares e United Defense Industries, fabrico de tanques e veículos
blindados para o Exército americano e exportação, que facturou 1,18 biliões
em 2000.
Segundo o Los Angeles Times, num único dia a Carlyle ganhou 237 milhões de
dólares com a venda de acções da United Defense Industries, a quinta maior
fornecedora do Pentágono e cujos dividendos engordam cada vez que rebenta
uma guerra.
Um dos melhores dias da UDI foi quando o secretário da Defesa, Ronald
Rumsfeld, deu ao seu velho colega na equipa de luta greco-romana da
universidade, Frank Carlucci, o contrato de fabrico do tanque Crusader, que
o seu predecessor quis cancelar. Não se pode dizer que tenha sido ilegal,
mas também não foi muito curial.
Carlucci é o presidente da Carlyle, conhece os portugueses e estes também o
conhecem. Foi embaixador de Lisboa em 1974-75, vice-director da CIA de 1975 a
1986 e secretário da Defesa da administração Reagan entre 1987 e 1989.
Carlucci, que fala fluentemente português (com sotaque brasileiro), tem
vindo a reunir no grupo barões da política de Washington, independentemente
da filiação partidária, juntando por exemplo o ex-senador republicano Jack
Kemp e o ex-congressista democrata Tony Coelho na EuroAmer, sociedade
gestora de participações sociais com capital social de 300 mil contos e o
primeiro investimento da Carlyle em Portugal.
O presidente conselho de administração da EuroAmer é o jornalisa Artur
Albarran, antigo apresentador de programas de televisão da RTP e da SIC, que
terá conseguido o emprego graças à mulher, a americana Lisa Hardy, das
relações de Carlucci.
A EuroAmer foi festivamente apresentada em 1997, na Embaixada dos EUA em
Lisboa, então representada por Elizabeth Bagley, amiga do casal Clinton e na
presença do então primeiro ministro António Guterres.
Os primeirois empreendimentos foram imobiliários e não faltaram clientes,
mas há cerca de um ano a holding enveredou pelo ramo retalhista e abriu em
Lisboa os supermercados America Cash e Superamerica, que já fecharam.
Segundo a revista Visão, Albarran está a ser investigado por evasão fiscal
e, como se não bastassem os problemas de negócios, tem também problemas
pessoais. Divorciou-se e a ex-mulher não lhe poupa elogios. Lisa Hardy disse
à revista "Gente" que Albarran "está falido e a preparar uma
fuga".
Frank Carlucci não gosta que o seu pessoal dê nas vistas. Portanto, um dias
destes temos o Albarran de volta à televisão. Possivelmente como enviado
especial a Bagdade.
===============================
KERRY 2004. No prosseguimento da corrida para a Casa Branca, John Kerry vai
estar em fins de Junho em Newark e ter oportunidade de ouvir o fado.
Entretanto, veio passar o fim de semana com a família a Boston, aproveitou
para uma volta de bicicleta pelas margens do Rio Charles e teve azar na
Route 2, derrapou num monte de areia e caiu. A bicicleta ficou destruida,
mas o senador está intacto. Anda nesta altura pela Califórnia. Para onde
quer que vá, tem sempre agentes do Serviço Secreto à perna, assegurando a
segurança do futuro presidente. Até a mansão que os Kerry possuem na
Hulbert
Avenue, ilha de Nantucket, está sob vigilância discreta da Guarda Costeira,
mas a preocupação são mais os turistas do que os terroristas. A campanha de
Bush gastou num mês 50 milhões de dólares a tentar denegrir Kerry. E tal
como o já tinha feito nas presidenciais de 1992, quando acusou outro
candidato republicano, Pat Buchanan, de ter um Mercedes, desta vez também
acusou Kerry de ter um veículo alemão, um Audi Quattro 2001, registado em
Massachusetts e em nome da mulher. O preço varia de $30.000 a $85.000,
dependendo do modelo. Outro problema foram as taxas: Kerry declarou
rendimentos de $395.338 e pagou 70.575. Teresa, cuja fortuna é estimada
em
700 milhões, não declarou os impostos e explicou-se: o candidato a
presidente é o marido, não ela.
CONSERVADORES. O senador Arlen Specter venceu a semana passada as primárias
republicanas da Pensilvânia com 526.120 votos (51%), enquanto o seu
oponente, congressista Pat Andrade Toomey, teve 509.507 (47%). Specter
concorrerá em Novembro ao quinto mandato no Senado, contra o democrata Joe
Hoeffel. Filho de mãe portuguesa, Toomey é um conservador que representa há
vários anos o 15º distrito da Pensilvânia na Câmara de Representantes, mas
resolveu declarar guerra a Specter, considerando-o demasiado liberal para o
eu gosto. Ganhou apenas mais alguns inimigos. Os republicanos da Pensilvânia
optaram por Specter, preferindo um conservadorismo q.b. Specter tem
cultivado boas relações com os democratas. Em 1998, foi dos poucos
republicanos que votaram contra o "impeachmet" de Clinton e agora o
ex-presidente retribuiu com uma contribuição de $1.000 para a camapanha de
Specter.
JELLY BEANS. Faleceu em San Francisco Peter Rocha, 65 anos Rembrandt dos jelly
beans. Começou como gráfico e decorador. Nos anos 80, ao ter
conhecimento de que Ronald Reagan apreciava jelly beans, resolveu retratá-lo
em jelly beans, iniciando uma ligação à Jelly Belly Candy Co., que durou até
ao fim dos seus dias. Entre outros, retratou Isabel II, Bucha e Estica,
Benjamin Franklin, Larry King, Elvis Presley e apresentou os trabalhos em
vários países. O retrato de Reagan está na biblioteca presidencial em Simi
Valley e o de Larry King em casa do retratado. Os quadros de Rocha eram na
realidade mosaicos. Começava por desenhar a figura numa placa de madeira e
depois aplicava os beans. Cada retrato requeria em média 14.000 beans.
FORTUNA. Segundo o jornal Sunday Times, Paul McCartney deixou de ser o
músico mais rico da Grã-Bretanha, tendo cedido o lugar a Clive Calder,
ex-proprietário da editora Lomba Records. O ex-Beatle surge agora no segundo
lugar com património de 1.130 milhões de euros e continua a facturar.
Apresenta-se este verão em Portugal. Será um regresso. Quando do primeiro
casamento, com a falecida Linda McCartney, Paul passou a lua de mel na casa
de Cliff Richard na Albufeira, Algarve.
=========================
Reticências...
A América é sem dúvida o país com mais elevado padrão de vida, mas
infelizmente são cada vez menos os americanos que o podem gozar... O velho
sonho americano de ter dois carros na garagem de cada casa está a tornar-se
realidade com o preço a que a gasolina chegou... Há dois carros em cada
garagem e qualquer deles por pagar... Se os americanos comprassem apenas
aquilo que podiam comprar, o país ia à falência... Nada melhor para
apreciar a
vida que Deus nos dá do que tentar viver vidas que não estão a nosso
alcance... Muitos de nós perdemos tempo precioso com a mesma facilidade com
que os políticos perdem o nosso precioso dinheiro...
Ferreira Moreno
Copyright © 1997/2001 The Portuguese Times
Autorizada a reprodução de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem