Sai mais uma dose de desgosto para a mesa do canto!
Naquela madrugada de Junho escondi apressadamente duas lágrimas de desgosto
e de uma quase desesperada desilusão à mistura com uma muito espicaçada
vontade de partir a cabeça do Oliveirinha e as de meia dúzia de jogadores
portugueses. Num ápice, ou seja quando ainda estava mal acordado, a selecção
de futebol do meu pais já levava três batatadas de um conjunto sem nome, a
não ser que alguém acredite que o conjunto de rapazes que formam a equipa
deste imenso país chamado United States of América seja capaz de um dia
inscrever o seu nome na lista dos grandes vencedores de uma modalidade a que
chamam despercebidamente "soccer".
Prometi, então, que no futuro nunca mais me iria entusiasmar ou sequer
pensar de que a nossa selecção seria capaz de coisas valiosas e bonitas.
Afinal, esta era a segunda vez que apanhava uma tremenda desilusão, eu que
no México acompanhei a par e passo a greve da vergonha que veio a resultar
em mais um afastamento prematuro dos lugares de honra.
Mas, sabem como é, a nossa selecção aí está a respirar saúde, as
promessas
voltam a estar no ar e lá vem o mal controlado entusiasmo seguido de um
também mal disfarçado optimismo.
Desta vez existem razões extra para acreditar que é possível chegar lá.
O
facto de jogar em casa é indiscutivelmente a maior, mas a essa razão deve
juntar-se a enorme capacidade de um técnico ganhador e que tem a seu favor
o
facto de ser pouco influenciável. Pensa por si, ninguém interfere no seu
trabalho, para desgosto do meu estimadíssimo amigo José Joaquim Garrido
Batista, ele que chama tótó ao brasileiro, dizendo que não é mais do que
um
sargento mal amanhado. Tudo isto porque não levou o Baía à selecção.
Que
chatice!...
Vamos então voltar a sonhar e acreditar que é possível Portugal vencer
este
europeu do nosso orgulho. Vamos acreditar que Luís Figo aparece em
excelente
forma, que Ricardo Carvalho vai demonstrar ser de momento o melhor central
da Europa e que o querido Pauleta vai voar mais alto do que todos os
milhafres que faziam diariamente a travessia de S. Roque para o apetecível
pequeno almoço no aterro da Relva. Vamos ser mais uma vez optimistas e
vamos
mais uma vez abraçar estes talentos na esperança de que, desta vez, vamos
ser igualmente acarinhados e deles vamos receber a devida retribuição.
Mas, tal como dizia tio Agostinho Cabral, é sempre bom jogar com um pé atrás
e outro à frente. Como gato escaldado de água fria tem medo, eu já estou
mais ou menos prevenido.
Para começar, vou ver a estreia na casa do meu amigo Floriano que por estar
em dieta rigorosa preveniu para levarem combustível. O Manny Branco leva o
camarão (consola!), o João Moniz leva esparguete porque tem genro italiano,
o Olivério leva uns frangalhotes bem churrascados, o bossa grande não leva
nada porque está ainda em lua-de-mel, o Tóni Chaves leva aguardente de
cana
feita em Santa Maria, o Nuno leva a viola e eu levo feijoada com pé e cabeça
de porca. Levo também o arroz doce da minha cunhada Norvinda que faz sempre
por alma da sua mãe e minha sogra, o que quer dizer que se tivesse morrido
mais cedo já eu tinha dentro do bucho mais umas toneladas de arroz tão
docinho.
Aqui fica a receita, na certeza de que se alguém encomendar a tal dose de
desgosto para a mesa do canto arrisca-se a levar com o tacho nos cornos.
Viva Portugal!...