|
Provincetown e os portugueses
O Festival Português de Provincetown começa amanhã, quinta-feira, com a
inauguração de uma exposição de João de Brito, Paula Dias e outros
pintores
portugueses no Fishermen's Wharf.
À tarde chega o antigo bacalhoeiro Gazela I, construído em Portugal, em 1883
e, segundo o cartaz da festa, o maior e mais velho veleiro em madeira que
cruza os mares. Ficará aberto ao público no Fishermen's Wharf, também
conhecido localmente como Cabral's Pier por ser propriedade de Robert e Ray
Cabral, refira-se.
O festival, que inclui prova de vinhos, portugueses kale soup e fados com
Célia Maria, termina domingo com missa na igreja de São Pedro e São Paulo,
seguindo-se a bênção da frota pesqueira pelo bispo de Fall River.
Vários portos da Nova Inglaterra têm a bênção da frota, nomeadamente New
Bedford, Gloucester e Stonington, mas Provincetown foi pioneira, começou há
57 anos.
Na extremidade do Cape Cod, foi onde os Puritanos que viajavam no Mayflower
desembarcaram primeiro em 1620, mas preferiram seguir viagem e instalar-se
em Plymouth.
A vila nasceu por volta de 1700, da caça à baleia, mas um século depois
pendurou o harpão e dedicou-se a outras pescas. Em 1800, mandava mais de 700
barcos ao mar, surgiram secas de bacalhau, fábricas de conservas, salinas,
que chegaram a ser 7 0 e os comerciantes e armadores mais bem sucedidos
começaram a construir as suas mansões nas ruas Bradford e Commercial, que
estão hoje convertidas em pensões, restaurantes e nightclubes. A vila tem
nada menos de 70 hotéis e motéis.
O primeiro português aparecido em Provincetown parece ter sido o lisboeta
Joseph Cross (José Cruz?), em 1828. Casou com uma jovem da terra, plantou
filhos e couves e ganhou fama e proveito a capitanear embarcações.
Em 1837, Provincetown tinha 93 bacalhoeiros e a maioria dos 1.113 pescadores
eram portugueses, oriundos sobretudo dos Açores e quase todos antigos
baleeiros que tinham decidido tentar a sorte nas localidades piscatórias do
Cape Cod, Gloucester e ilhas de Nantucket e Martha¹s Vineyard. Um pescador
ganhava ao tempo a média de 300 dólares por ano.
Em 1885 viviam 848 portugueses em Provincetown e representavam um terço da
população. Em 1900 eram mais de mil e começaram a surgir estabelecimentos
com nomes como Silva, Cabral, Correia e Manta.
Este Manta era Joseph Manta, dono de cinco barcos, um deles o Júlia Costa,
um dos primeiros clippers construidos nos EUA. Era um barco veloz e um dia
largou de Provincetown às 6:00 da manhã sob comando de um tal capitão
Costa,
navegou 15 milhas para norte, apanhou 15 mil libras de bacalhau e, às 11:00
da noite, estava a descarregar em Boston.
Naquela época, Provincetown, havia a alternativa da cavala.
Parece ter sido também um português quem descobriu um dia que os cardumes de
cavalas passavam ao largo do Cape na primavera a caminho da Virginia e
tornou-se um belo negócio, com capturas da ordem dos 18.000 barris.
Para dar escoamento a todo este pescado para Boston e New York, a Old Colony
Railroad fez chegar o combóio a Provincetown em 1873.
Um dia a cavala desapareceu, preferindo as costas de África e a pesca entrou
em declínio em 1900, mas nessa altura o comboio já tinha começado a trazer
artistas e outros turistas e Provincetown descobriu que eram mais lucrativos
do que os bacalhaus.
Em 1899, um dos mestres do impressionismo nos EUA, Charles W. Hawthorne
fundara a sua Cape Cod School of Art. No ano seguinte, E. Ambrose Webster
abriu a Summer School of Painting, a Provincetown Art Association foi
constituida em 1914 com 147 membros e, decorridos dois anos, funcionavam na
vila cinco academias de pintura.
Com a I Guerra Mundial tornou-se arriscado viajar para Paris e como
Provincetown tinha um ar europeu e boas caldeiradas (o toque português) os
poetas, escritores, pintores, actores, escultores, fotógrafos e outros
boémios novaiorqunos converteram a vila num Greenwich Village by-the-sea.
As relações dos pescadores portugueses com os intelectuais novaiorquinos
foram excelentes, os primeiros queriam ganhar uns dólares alugando casas e
os segundos tinham o dinheiro.
E assim Provincetown se foi transformando de pequena vila piscatória de
portugueses, onde a única beleza eram os azuis do céu e do mar, num colorido
centro de artes e turismo.
Em 1915, George Gram Cook e Susan Glaspell criaram os Provincetown Players,
companhia onde viriam a trabalhar actores como Marlon Branco, Al Pacino e
Richard Gere e cujo primeiro teatro foi o armazém de peixe do português
Manuel Morris, a quem ficaram a dever vários meses de renda.
No segundo ano de existência, a companhia levou à cena uma peça de Wilbur
Daniel Steele, sobre os portuguees e o sexo, intitulada Not Smart, neste
caso eufemismo de gravidez.
Nos anos 50, Provincetown era frequentada por gente como John dos Passos,
Eugene O'Neill, Tennessee Williams, Jak Kerouac, Truman Capote e Norman
Mailer, que ainda parece lá ter casa.
Em 1951, o falecido Reggie Cabral abriu a Atlantic House, o primeiro bar gay
e, para desespero do padre Duarte e do chefe da polícia "Cheney"
Marshall,
os hippies, os gays, as lésbicas e outros inconformados começaram a chegar
atraídos pela fama de tolerância de Provincetown, que não é tanta como
imaginam. Tem até uma postura municipal disparatada: é proibido vender
bronzeador ao domingo a tarde.
O Festival Português continua uma bela festa mas a Gay and Lesbian Family
Week tem mais bandeiras. Nesta altura, a Commercial Street tem algumas
bandeirinhas verdes-rubras, mas quando os gays têm a sua festa toda a vila
aparece decorada com bandeiras do arco-íris, para que todos saibam que é um
reduto gay, assim como Key West.
No inverno, quando fica reduzida a 3.500 habitantes, a vila é pacata, mas no
verão enche-se de casais de senhores de meia idade que passeiam pelas ruas
de mãos dadas.
Como coexistem os portugueses com os gays? Bem, os portugueses vão hoje na
segunda e terceira geração e estão mais preocupados com o pagamento das
rendas do que com opção sexual dos hóspedes.
================================
Reticências...
Sabemos que a dieta está a resultar quando até os comerciais da comida de
gato na televisão abrem o apetite...
Gatos e cães têm uma bela vida - não usam relógio no pulso...
Muitos tipos vão parar à prisão por não fazerem o que deviam ter feito:
correr mais depressa...
Americanos e franceses nem sempre estão de acordo mas é compreensível. Os
franceses são complicados, basta pensar que têm 246 variedades de queijo...
Os embaixadores são pessoas honestas enviadas para o estrangeiro para
mentirem no interesse do seu país...
Ao fim de dez minutos, a maioria das pessoas está farta de conferências; os
mais espertos fartam-se em cinco minutos e os mais sensíveis nem sequer lá
vão...
As reuniões de família são uma ocasião para conhecermos a nossa árvore
genealógica e sabermos quais os troncos que devem ser podados...
Os estudos económicos revelam que a melhor ocasião para comprar qualquer
coisa é sempre o ano passado.
Ferreira Moreno
.
=========================
RETIRADA. Prémio Pulitzer pela cobertura da guerra do Vietname e repórter
vedeta da CNN durante a I Guerra do Golfo, em 1991, Peter Arnet, 69 anos,
foi a Portugal falar da situação iraquiana e revelou que está a escrever um
livro sobre o último ano de Saddam Hussein no Iraque e o primeiro ano da
ocupação americana. No início da II Guerra do Golfo era correspondente da
NBC em Bagdade, mas foi despedido por ter questionado a forma como a
administração Bush levou o país para a guerra. Peter Arnet tinha, afinal,
razão, mas conforme disse à revista Visão, já é tarde: "O New York
Times
veio agora a público anunciar que errou ao promover a existência das armas
de destruição maciça (...) Agora, até Bill O'Reilly, um dos mais
conservadores
dentro do mais conservador órgão de comunicação americano, a Fox News,
veio
publicamente pedir desculpas pela colagem exagerada ao governo. Só que agora
é tarde".
LIVROS. My Life é o título do livro de memórias de Bill Clinton, que esta
semana chegou às livrarias e pelas quais o ex-presidente recebeu 10 milhões
de dólares da editora, Random House. A versão portuguesa será publicada em
Outubro, numa edição do Círculo dos Leitores. E Pedro Miguel Carreiro
Resendes, ou melhor, Pauleta, deve deslocar-se aos EUA depois do Euro 2004
para o lançamento da sua biografia intitulada O Ciclone dos Açores, da
autoria do jornalista José Manuel de Freitas. O livro tem prefácio de outro
açoriano ilustre, Mota Amaral, presidente da Assembleia da República, que
compara Pauleta à ave que deu o nome às ilhas: "Parece querer voar como
um
açor, quando festeja os golos que vai marcando pelos estádios do mundo".
FÉ E FUTEBOL. Depois de uma derrota inesperada frente à Grécia, a selecção
de Portugal levou de vencida a Rússia e a Espanha e está nos quartos de
final do campeonato europeu de futebol com hipóteses de conseguir um lugar
no pódio. O mais surpreendente foi a revelação do seleccionador Luis Filipe
Scolari, de que tinha feito uma promessa a Nossa Senhora de Fátima e, pelos
vistos, foi atendido. Já quando foi seleccionador do Brasil, Scolari também
deu que falar com a promessa que fez a Nossa Senhora de Caravagio e a
verdade é que se sagrou campeão mundial. Este recurso do futebol à religião
é discutível, mas, se Portugal vier a sagrar-se campeão europeu, Gilberto
Madaíl, presidente da Federação Portuguesa de Futebol já sabe: no próximo
campeonato mundial é melhor contratar o cardeal patriarca de Lisboa para
seleccionador.
PENITÊNCIA. Em 13 de Dezembro de 2002, o cardeal Bernard F. Law foi obrigado
a resignar da arquidiocese de Boston por ter atentado abafar o escândalo dos
padres pedófiilos que já custou cerca de cem milhões de dólares à
arquidiocese em indemnizações aos queixosos. Law, 72 anosm tem sido desde
então capelão num convento no Maryland, mas o Papa João Paulo II decidiu
punir ainda mais o antigo arcebispo e acaba de nomeá-lo arcipreste da
Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, com o salário cinco mil dólares
mensais. Para penitência não é nada mau.
VISITAS. Johnny Depp, Harvey Keitel e Vanessa Paradis vão a Portugal depois
do verão, rodar um filme intitulado The Gipsy Curse (Maldição Cigana),
sobre
uma perigosa sedutora que enfeitiça um homem sem pernas. Também no fim do
verão e mais propriamente a 12 de Setembro, Madonna fará um espectáculo em
Lisboa, iniciando uma digressão europeia.
ELAS MANDAM. Pela primeira vez uma mulher é comissária da polícia de
Boston. Nomeada pelo mayor Tom Menino, a comissária Kathlenn O'Toole, 49 anos,
iniciou funções o mês passado e o seu primeiro problema é o
restabelecimento da ordem na própria corporação, pois os polícias de
Boston estão há um ano sem contrato de trabalho e o descontentamento é
generalizado. Em Attleboro, YMCA fundado há 136 anos e pela primeira vez
presidido por uma mulher, Lynne Mendes, 52 anos. Professora na Coelho Middle
School, a nova presidente pertence à junta directiva do YMCA há 15 anos e já
conhece os cantos da casa.
Copyright © 1997/2001 The Portuguese Times
Autorizada a reprodução de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem