Portugal não se sagrou campeão da Europa mas esteve a um palmo de
conseguir
esse objectivo. Se o segundo lugar não passa de um prémio de consolação,
a
realidade é que há mais conquistas para lá dos títulos e a selecção
portuguesa conseguiu isso mesmo outras conquistas.
Há dias, dizia, e bem, uma senhora na televisão, que a selecção tinha
levantado o espírito dos portugueses, tinha conseguido despertar neles um
orgulho e um patriotismo nunca antes visto. Um outro senhor, de maneira
modesta, a condizer com os seus dentes amarelos e prontos a cair ao primeiro
abanão, assim em jeito do Mané da Barqueira, que fumava ³práí² uns 50
cigarros de um tabaco forte que nem estica e bem abarrotados com as
ressequidas folhas das temporãs maçarocas de milho do quintal do tio José
Caralhoto, dizia então o tal amigo, que a bandeira que tinha pregada na
janela só de lá saía quando Portugal fosse campeão do Mundo. E se não
fosse!
Bom, aí, só a tiravam quando fosse para a cova, o que não vai levar muito
tempo se continuar a fumar daquela maneira!
Engraçado, que eu também comprei uma bandeirinha no mecado Vitória, do
José
Maria Carreiro (lembram-se dele quando jogava no Bristol, no Recordações e
na Académica e a quem eu tratava de diabólico?) mas quando cheguei ao Boys
Club apareceu-me um polaco mal encarado e com cara de poucos amigos a dizer
que estava na América e que no outro dia era o 4 de Julho.
Olhei o homem e entre as duas hipóteses que repentinamente me vieram à
cabeça resolvi optar por uma delas, ou seja explicar ao atrevido que a
minha
equipa jogava para um título importante e que na minha terra inventaram a
moda das bandeiras e eu também queria ter uma. O homem aceitou, deu-me um
abraço e desejou-me muita sorte, o que, infelizmente, não me serviu de
nada.
Esquecia-me de dizer que a primeira opção era enfiar-lhe a bandeira pelo
tal
lugar dentro, até porque tenho também a bandeira americana no 4 de Julho e
se não a uso por agora é porque não gosto mesmo nada do presidente Bush,
que
só fala em guerras e mais guerras quando o que precisamos é de paz e uma
coisinha para comer todos os dias.
Tudo isto a propósito do "new look" do nosso "all star team"
e das razões
base que estiveram nessa viragem e nessa nova postura dos jogadores
escolhidos.
Verdade que existem os casos pontuais, o facto de se preferir este àquele
ou
defender-se que a baliza estava melhor entregue ao Baía e por aí fóra. O
facto é que o Baía esteve no Mundial do nosso desencanto e pouco ou nada
fez, até porque atravessava então uma crise tremenda, reconhecida então
por
todos, mas o Oliveirinha teimou em levá-lo quando à altura o Ricardo era o
melhor no seu posto.
Mas a mudança esteve mesmo aí e quando falei no Oliveirinha, de quem não
gosto nem uma "pisquinha", foi precisamente para deixar claro, aos
que ainda
não perceberam, que o comando de uma selecção deve estar a cargo de gente
com carácter, gente com aceitação não só no futebol mas no seu mundo diário.
Desta vez não se deram fugas pelas janelas traseiras, não se meteram
meninas
pelo meio, não deu tempo para os casinos até altas horas, não se vergou a
qualquer tipo de pressões, não se levou fulano em prol de sicrano porque
alguém fazia questão de ser fulano a jogar.
Fez-e um todo, um conjunto, uma equipa, uma corda a ser puxada para o mesmo
lado. Portugal não ganhou mas podia ter ganho. Todos sabem que num jogo
decisivo alguém tem de ganhar e Portugal teve o seu dia não no 4 de Julho
das paradas americanas. Um pouco de sorte, só um pouquinho de sorte e a
vitória tinha sido nossa.
O outro exemplo maior do que menciono está precisamente na equipa vencedora.
Até há muito pouco tempo a selecção grega não passava de um grupo de
desalinhados e irresponsáveis rapazes. Um treinador alemão chegou, mandou
alinhar o pelotão e realizou um autêntico milagre. Da selecção grega
contavam-se histórias horrorosas e num ápice ela conquistou um povo, um país
e a admiração da Europa.
Quando Gilberto Madíl apostou no teimoso brasileiro, fui dos muitos contra
tal aposta pelos montantes envolvidos. Enganado estava eu, mas valha a
verdade que eu defendia que a selecção deveria ser entregue ao Agostinho
Oliveira, por saber o que vale como homem e como técnico e por saber ainda
o
muito que tem feito por detrás das cortinas, apoiando sempre com a sua
indesmentível classe e lealdade, o homem que escolheram para um posto que
poderia ser dele.
Agora é marchar em frente, alterar muito pouco porque há realmente muito
pouco para alterar. Rui Costa está de saída, ele que tantas saudades deixa,
Fernando Couto deve também ele assumir com classe a mesma atitude e Luís
Figo deve continuar porque é o jogador padrão e patrão da nossa equipa.
Prontos para a luta estão os jovens Cristiano Ronaldo, Postiga, Quaresma e
Tiago, outros hão-de vir porque a colheita dos últimos anos até tem sido
de
muito boa qualidade.
E eu fico à espera, com a bandeirinha do Mercado Vitória!