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Àcerca da música portuguesa "made in America"
Há algumas semanas atrás alguém me questionou sobre o actual estado de saúde
da música portuguesa "made in America", particularmente nestas
redondezas. A
resposta foi que "vamos andando mais ou menos bem" e que a verdade é
que têm
surgido, sobretudo nos últimos 10-15 anos muitos jovens intérpretes
luso-americanos, alguns com muito talento e com grande potencial a um bom
aproveitamento em todos os aspectos. O problema, quanto a nós, prende-se
mais com a questão de orientação, alguém que saiba gerir e conduzir por
melhores trilhos estes novos valores que vão surgindo. Temos poucos, muito
poucos. Isto em termos de música e espectáculos é tão importante como um
jogador ou equipa de futebol necessitar de um educador ou treinador.
Antes de mais nada convém aqui sublinhar que isto é apenas um parecer e uma
opinião de alguém que conhece razoavelmente bem o meio artístico, anda no
mundo da música desde que se conhece e portanto é apenas isso. Não
pretendemos com este e outros artigos criar aqui uma espécie de teoria ou
doutrina dogmática. Nem tão pouco efectuar aqui um estudo que possa servir
de referência futura. Longe disso. Haverá os que concordam e os que
discordam. Com argumentos válidos e menos válidos. Na troca de ideias é que
aprendemos. Nessa perspectiva até temos aprendido. É isso aí e nada mais.
Não frequentámos as melhores universidades de música, nem temos mestrados ou
doutoramentos neste ramo, mas entendemos que a música é algo que tem mais a
ver com uma natural sensibilidade e que vem do berço, mais do que se
aprende. Há grandes artistas, compositores e intérpretes de renome mundial
que não conhecem uma nota de música, mas que são dotados de grande
sensibilidade e poder de criação fora do vulgar. Há grandes obras em vários
géneros musicais criadas por verdadeiros talentos, que têm música dentro de
si, que sentem a música, e que na gíria popular os designamos de ³grandes
ouvidos para a música², mas que nunca ouviram falar de colcheias,
semi-colcheias, mínimas, semínimas, breves, fusas, semi-fusas, etc. e o
solfejo é chinês para eles. Por isso é que dizemos que a música é algo que
mais se sente do que se aprende. É um mundo infinito a descobrir, ou seja,
quanto mais um indivíduo pensa que sabe disto melhor fica a saber que pouco
ou nada sabe. E isto já é bom, é sinal de que já sabe alguma coisa, ou então
já sabe que nada sabe.
Após este "esclarecimento" voltamos então ao cerne da questão. Como
está a
nossa música portuguesa criada e cultivada aqui no nosso meio?
Há diversas opiniões sobre o assunto, aqueles que falam mal de tudo e todos,
que isto é tudo uma boa mS e que os culpados são a família, os produtores, a
televisão, as rádios e os jornais, que divulgam e promovem tudo e toda a
gente, incentivando-os a fazer mais... Há ainda outros que andaram por estes
caminhos e são de opinião de que antigamente era melhor, que isso de gravar
um disco era uma coisa muito séria e que agora todo o bicho careta grava e
que por este andamento qualquer dia vão aprender primeiro a cantar... e
depois a falar. São os que opinam de que "no meu tempo é que era bom".
Uma
no cravo outra na ferradura.
Finalmente, registamos as opiniões dos menos negativistas e pessimistas, que
alinham mais numa filosofia pedagógica, que há coisas menos boas mas que
apontam o caminho mais correcto a seguir. Que a evolução tecnológica da
informática tem facilitado mas que pode ser uma faca de dois gumes:
contribui para o surgimento de tudo e mais alguma coisa: os bons e menos
bons, os talentos reais e artificiais, cantores e cantoneiros. É nesta
corrente de opinião que a nossa se insere.
Aqueles que nos conhecem mais de perto sabem que somos frontais quando
devemos ser e que por vezes refugiamo-nos no silêncio, porque isto é assim
mesmo, às vezes é mais conveniente e aconselhável omitir uma opinião, por
diversos motivos, um deles poderá ter a ver com a falta de conhecimento
naquela ocasião e há que estudar e apurar os motivos. Quem critica e opina
sobre determinado assunto publicamente tem de saber o que está a dizer, com
conhecimentos de causa para não cair no ridículo ou depois ser chamado
ignorante, arrogante, sabichão e cair na incredibilidade geral. É preciso
ter cuidado. Tenho medo desses adjectivos.
Quanto a nós, um dos maiores erros que se cometem hoje em dia no nosso meio
artístico é, como se diz na gíria popular, andar com a carroça à frente dos
bois. Explicamos com um exemplo concreto: é um erro um artista, que começa a
dar os primeiros passos para a música, gravar logo à partida um disco e
pedinchar a sua presença em alguns grandes espectáculos. A carreira do
verdadeiro artista deve ser cimentada de outra forma, gradualmente, com
várias etapas, numa aprendizagem constante e depois então pisar grandes
palcos e atirar-se às gravações. É necessário crescer, mas devagar e sem
pressas. Porque se um indivíduo for persistente chega lá. Claro que há os
que se perdem pelo caminho e na maioria dos casos é porque realmente não têm
talento para tal. Pura e simplesmente. Gravar porque aquela amiga gravou,
fazer uma festa igual à de fulana de tal, porque o meu filho ou a minha
filha não é nada inferior àquele ou àquela é revelador de uma mentalidade
doentia e que não contribui em nada para o melhoramento do meio. Nem para
eles próprios. Nunca gostei de "copycats" cheios de complexos e que só
complicam a vida à malta da comunicação social, que por vezes é metida no
barulho e tenta fugir de tais situações. Sou cem por cento adepto da
originalidade e do bom senso. Tenho medo de "mexericos" e de invejas
entre
artistas.
Há ainda aqueles que querem aparecer em todas. Fulano ou cicrana pedem para
actuar neste ou naquele evento público e temos que pôr as coisas na balança:
será que a presença dele ou dela vai enriquecer o espectáculo? Ou até mesmo,
será que ele ou ela irão ganhar com isso? Não basta querer aparecer em tudo
o que é sítio. Um artista deve ser dotado de senso comum e ter a noção do
que está a fazer e saber acima de tudo quando a sua presença é desejada.
Porque, meus amigos, quem promove um espectáculo deve fazê-lo sempre em
atenção com o público. É para ele que se trabalha e não para meia dúzia de
amigos ou amigas que gostam de cantar e de aparecer. Há gente que não
compreende isto e depois ouvem-se afirmações de que não se ajuda os artistas
da comunidade, coitadinhos, que merecem uma oportunidade. A verdade é que
nós compreendemos os problemas, os desafios e dificuldades deles. Divulgamos
todos. Mas na realidade o público é que é o juiz final e tudo tem um
limite. Já há muito me apercebi de que as pessosas estão cansadas de
espectáculos com 15-20 artistas a desfilarem em palco num só show. Há casos
em que isso se justifica mas na maioria das vezes é um exagero. Há aqueles
artistas e grupos que fazem atrair público e o agente ou promotor tem todo o
direito de se defender com essa realidade. Os outros que começam a dar os
primeiros passos têm de saber esperar pela sua vez.
Somos frequentemente confrontados com situações deste género e então temos
de fazer decisões e depois sermos criticados, geralmente nas costas, porque
frontalmente têm medo, como se fossemos boicotá-los na TV, no jornal ou na
rádio. Já fomos vítimas dessas coisas no passado e não fazemos isso a
ninguém. Quem desempenha tais funções não deve ter amigos favoritos nem
inimigos favoritos. É tudo igual. Conhecemos gente no meio artístico que não
vai com a cara do autor destas linhas e certamente não é por isso que vamos
deixar de rodar o video ou falar neles. Como também conhecemos os amigos e
amigas de conveniência...
Finalmente, se temos ou não gente de qualidade. Até temos. Menciono alguns:
os Eratoxica e a Bethany lançaram recentemente um trabalho de excelente
qualidade, independentemente das preferências da maioria do público por este
ou por aquele género musical. Vamos até ao ponto de afirmar que foi quanto a
nós um dos melhores trabalhos jamais lançados na comunidade, como também
foram e continuam a ser referências de qualidade os trabalhos discográficos
dos grupos Lovestreet e Edge.
Mas há mais: o disco de fados dessa excelente intérprete que é na realidade
Catarina Avelar é considerado um trabalho de grande qualidade, a todos os
níveis e que pode ser apresentado em qualquer rádio portuguesa do mundo. São
palavras nossas e de gente ligada ao meio artístico em Portugal, como são os
casos do poeta e escritor açoriano Victor Rui Dores, o guitarrista Carlos
Parreira, o cançonetista Fernando Correia Marques e outros. Quanto a nós é o
melhor disco de fados dos últimos tempos, numa cuidadosa e inteligente
selecção de clássicos que se adaptam à doce, suave e melodiosa voz desta
jovem luso-americana de New Bedford, que nunca frequentou as mais famosas
casas de fado em Lisboa.
E já que falamos de fado, convém aqui sublinhar que o mais recente disco de
fados de Madalena Pata é também um selo de excelente qualidade, como também
é de registar o bom contributo em termos de divulgação da nossa canção
nacional a outras comunidades e etnias que está a fazer o casal Vinagre, a
Ana e o José. Convém ainda sublinhar que uma grande fadista portuguesa de
renome nacional e que dispensa elogios mora aqui, a Natércia da Conceição,
considerada como a "madrinha" de todas as fadistas portuguesas em
terras do
Tio Sam. E temos também bons executantes na guitarra e na viola clássica.
Voltando a outros géneros musicais temos também valores que merecem nota
altamente positiva: Luís Neves e Centerfold continuam a dar cartas, Arlindo
Andrade e Maurício Morais têm criado canções que se tornam em grandes
sucessos e que até são cantados por outros artistas em Portugal, para além
dos bons espectáculos que apresentam ao público. Há mais ainda: Nélia e seu
conjunto são na realidade um espectáculo e conseguem empolgar o público.
Esta jovem terceirense prepara um novo trabalho discográfico a sair
brevemente e que vai ser outro registo de excelente qualidade, do qual
tivemos oportunidade de ouvir.
Temos também, mais na linha da música tradicional e popular, os grupos
Gerasons e mais recentemente o Ilhas de Bruma, de que falamos abaixo.
Portanto, como se pode constatar, temos gente de qualidade e a nossa música
goza de boa saúde.
Comprovadamente aqui.
Ilhas de Bruma
Por motivos de ordem profissional foi-nos impossível marcar presença na
festa de lançamento oficial do primeiro trabalho discográfico do Ilhas de
Bruma, grupo de música popular portuguesa que acaba de surgir no panorama
artístico comunitário e ligado à Associação Cultural Lusitânia, de Fall
River.
"Heritage" é o título genérico deste belo disco, que vem sem dúvida
enriquecer e dar mais diversidade ao nosso cenário musical, uma vez que não
existem muitos desses projectos por aqui.
O grupo é constituído por gente que até sabe o que está a fazer, como é o
caso de Mário Ventura, ligado a grupos do género em S. Miguel, nomeadamente
o Gente da Ilha, Victor Nóbrega, Luís Carreiro, para mencionar apenas estes
entre um grupo de duas dezenas de componentes executando instrumentos
típicos que este género sugere, como viola da terra, violão, flauta, tambor,
violino, acordeão e as vozes. Doze são os temas que compõem este disco,
tendo em Mário Ventura o responsável pelos arranjos e direcção musical, e a
gravação e misturas a cargo de Aires Ferreira.
Os temas e respectivos autores incluídos neste "Heritage" são:
"Quem somos"
(Luís Carreiro), "Gente das Ilhas" (Álamo de Oliveira e Cunha Mendes),
"Vapor da Madrugada" (Luís Alberto Bettencourt), "Velho Pezinho"
(José
Francisco Costa), "Chamateia" (António Melo Sousa e Luís Alberto
Bettencourt), "Saudades da Mocidade" (Popular), "Adeus às Furnas"
(João M.
Viveiros), "Ilhas de Bruma" (Manuel Medeiros Ferreira), "Charamba"
(popular
da ilha Terceira), "Folgadinho" (popular da ilha de S. Miguel), "Sapateia
de
Santa Maria" (popular da ilha de Santa Maria), "Cantigas às Estrelas"
(popular da ilha de S. Miguel).
O grupo tem-se apresentado em diversos eventos festivos sobretudo de índole
cultural e as suas actuações têm sido sublinhadas de sucesso, reconhecimento
público de que este projecto tem qualidade e daqui deste cantinho auguramos
longa e bem sucedida carreira artística ao "Ilhas de Bruma".

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