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Do fado e de Catarina, jovem fadista
- Victor Rui Dores
Nascido no mar, ao ritmo cadenciado das ondas, o fado é o nosso "fatum",
isto é, o nosso destino e a nossa forma de estar no mundo. Porque o fado
existe e nem sempre é triste e porque, até ver, é a nossa canção de marca.
Diversas, discutidas e discutíveis são as suas origens: árabe, brasileira,
africana, provençal ou popular. A única certeza que temos é que fala
português, a 6ª língua mais falada em todo o mundo, atrás do mandarim,
hindi, castelhano, inglês e bengali.
O fado exprime sentimentos, emoções, estados de alma... Começou por ser
cantado na boémia da velha Lisboa: nas vielas de Alfama, nos becos escuros e
escusos da Mouraria, nas tabernas e nos prostíbulos da Madragoa... Tem
maneiras de gingão, gosta de armar ao fino e é cantado pela plebe. O tom é
lamentoso e amoroso: as paixões infelizes, as dores lancinantes do amor, as
ironias do destino... Seguiu-se uma fase aristocrática em que passou a ser
executado em salas e salões por aristocratas da má sorte e da má vida...
O fado torna-se então marialva, canalha, fatalista. É o tempo da Severa, do
Conde Vimioso e de outras gentes de hábitos duvidosos...
No início do século XX, o fado ganha uma outra dignidade ao ser cantado em
palcos. E maior dignidade ganhará quando, a partir dos anos 30, o gramofone
o veio industrializar. Surgem então grandes fadistas: Alfredo Marceneiro,
Ercília Costa, Maria Alice, Carlos Ramos, Filipe Pinto, Berta Cardoso,
Frutuoso França, Maria Albertina, Hermínia Silva, Lucília do Carmo e uma
jovem que começa a despontar e a dar nas vistas: Amália Rodrigues. Todos
cantam os acentos doloridos da paixão, do ciúme e do pesar saudoso. Cria-se
uma mitologia fadista.
Surgem outros nomes: Argentina Santos, Max, Maria Teresa de Noronha, António
dos Santos, Tristão da Silva, Vicente da Câmara, Manuel Fernandes, Manuel
Almeida, entre muitos outros. Mas é Amália que projectará o fado para
espaços universais. Sobretudo quando começa a cantar os grandes poetas:
Camões, Pessoa, Alexandre O'Neill, David Mourão-Ferreira, Homem de Melo,
Lima Couto, Ary dos Santos... E quando para ela musicam homens da
envergadura de Frederico Valério, Raul Ferrão, Alberto Janes e Alain Oulman.
O fado corrido, o fado menor e o fado mouraria darão lugar ao fado poema e
ao fado canção. Novos fadistas surgem em cena: Teresa Silva Carvalho, João
Ferreira Rosa, Carlos do Carmo, Rodrigo, Maria da Fé, entre tantos outros. E
o fado passa a ser a expressão de uma cultura popular urbana que, a partir
de Lisboa e Coimbra, se espalha por todo o país.
O tempo passa e o fado sobrevive às mudanças, sendo ora reaccionário, ora
revolucionário, conforme lhe dá na veneta.
Hoje, uma nova geração de fadistas garante que o futuro do fado está
assegurado e garantido: Dulce Pontes, Paulo Bragança, Camané, Mísia, Kátia
Guerreiro, Mariza, Mafalda Arnauth, entre muitos outros.
Vem tudo isto a propósito de uma nova fadista que acabo de ouvir. Chama-se
Catarina e, apesar da sua extrema juventude, canta o fado "de alma e
coração" e por ele dá a voz e a cara. O seu primeiro trabalho discográfico
intitula-se precisamente De alma e coração e dá-nos a conhecer uma voz
seguríssima, bem timbrada e modulada que canta alguns dos grandes clássicos
de alguns dos fadistas acima mencionados. São 14 momentos musicais, numa
criteriosa selecção reveladora de talento e bom gosto. E belíssimos são os
músicos que a acompanham.
Corre nas veias de Catarina sangue das ilhas açorianas. Não é impunemente
que se é fadista quando se viveu ao ritmo cadenciado de ondas e marés. Além
disso, Catarina é herdeira de uma tradição poética e musical e cantar o fado
será sempre, para ela, a sua forma de quebrar distâncias e silêncios e de
perseguir a felicidade e o sonho.
Oiço de novo o disco. Que belíssima e fresca voz! Esta jovem revela
excelentes recursos vocais (é afinadíssima), ouvido apurado e sensibilidade
artística.
Catarina é, efectivamente, nome a merecer a nossa melhor atenção. Temos
fadista!
Horta - 22 de Julho de 2004

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