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Preto no branco
O português Francis Obikwelu conquistou a medalha de prata dos 100
metros
dos Jogos Olímpicos de Atenas, com 9,86 segundos, novo recorde europeu. É a
prova mais rápida do atletismo (só perde para a maratona, a prova mais
nobre) e o português só não conseguiu bater o norte-americano Justin Gatlin,
que cortou a meta com menos um centésimo.
Obikwelu nasceu há 25 anos na Nigéria e descobriu Portugal representando o
país de origem nos campeonatos mundiais de júniores de 1994. Tinha 15 anos,
decidiu ficar em Portugal trabalhando na construção civil no Algarve. O
Belenenses foi o primeiro clube que lhe abriu as portas, hoje representa o
Sporting, é cidadão português e, sem alardes, cometeu domingo um feito
histórico para o atletismo português e ascendeu a nata dos maiores atletas
do mundo.
Quase todos os jornais americanos publicaram segunda-feira, na primeira
página, a fotografia dos três primeiros a cortar a meta: Justin Gatlin,
Obikwelu e outro norte-americano, Maurice Greene, medalha de ouro há quatro
anos em Sidney e, desta vez, medalha de bronze. Os três são negros, afros se
preferirem.
Aos jornais norte-americanos interessou apenas o facto das medalhas de ouro
e bronze terem sido conseguidas pelos norte-americanos, mas não deixaram de
mencionar que o português Obikwelu ganhara a prata, o que parece ter
incomodado um leitor luso-descendente da área de Boston, que telefonou
queixando-se de que agora os americanos iam pensar que Portugal é país de
pretos.
Não me parece que a maioria dos portugueses esteja nesta altura preocupada
com a cor da pele de Obikwelu, assim como nunca os preocupou o facto de
Eusébio, Coluna e outras glórias lusas serem de origem africana.
Também não me parece que incomode o facto de Obikwelu ser cidadão português,
embora não deva continuar a ser por muito mais tempo, pois não lhe devem
faltar propostas de contratos e naturalizações.
A verdade é que num país que teve durante 500 anos um império colonial em
África, na Índia e na Ásia e que tem cidadãos de origem europeia, africana,
asiática e indiana, não deveria haver pessoas com os preconceitos raciais do
nosso leitor.
Tudo isso é afinal consequência dos chamados descobrimentos marítimos,
quando portugueses, espanhóis, franceses, holandeses, ingleses e italianos
se assumiram como raça superior e passaram a escravizar os povos cuja cor da
pele fosse mais escura, pela razão comezinha de que toda a economia colonial
assentava na mão-de-obra escrava.
A Inglaterra, que foi a maior potência colonial, foi também o maior
traficante de escravos. No início do século XIX, os ingleses decidiram
acabar com o tráfico dos escravos, mas não acabaram com a escravidão nas
colónias.
Treze dessas colónias britânicas eram na América e no dia 4 de Julho de
1776
decidiram proclamar a independência de uma confederação que se chamou
Estados Unidos da América.
A Constituição, a cartilha que regia o novo país, afirmava um princípio
nobre de que todos os homens nascem livres e iguais em direitos, incluindo o
direito à felicidade. Contudo, para os negros esse princípio não passou de
letra morta, o país continuou esclavagista.
A escravatura só desapareceu 85 anos depois da proclamação da independência
e foi necessária a Guerra da Recessão (1861-1865). Mas segregação racial
manteve-se e os negros tiveram de esperar pela II Guerra Mundial e pela luta
de Martin Luther King e outros líderes dos direitos cívicos para
conseguirem, no final da década de 60, a anulação de leis que consagravam
nos EUA um apartheid do tipo sul-africano.
Contudo, quarenta anos depois oficialmente encerrada a segregação, as
divisões raciais mantêm-se e mesmo que um negro tenha sucesso económico, a
sua penetração na chamada sociedade branca é improvável.
Em Portugal sempre existiram preconceitos raciais e aumentaram com a
traumática descolonização. Foi a época das anedotas sobre Samora Machel.
Os
retornados foram-se integrando, as feridas cicatrizaram, a miscigenação é
elevada, mas as tensões raciais persistem, embora não tão violentas como
nos
EUA e acabam por se resumir muitas vezes nas anedotas sobre negros contadas
pelos brancos e que os negros pagam na mesma moeda.
O racismo talvez nunca acabe, tal como a guerra ou a fome. Contudo, recentes
descobertas da genética revelam que a cor da pele não serve de base a
qualquer classificação racial e todos os seres humanos têm uma origem comum,
sendo as características dos seus génes muito semelhantes.
O slogan ³todos diferentes, todos iguais², que foi adoptado em Portugal numa
campanha contra o racismo, aplica-se também neste caso. E não tendo origem
biológica, o racismo só pode ser consequência de problemas culturais,
sociais, políticos, religiosos ou históricos.
Sarah Tiskbsoff, bióloga da Universidade da Pennsylvania, considera que a
cor da pele é, meramente, "uma característica que pode mudar muito
rapidamente e uma adaptação às condições do ambiente. As pessoas que
vivem
em regiões quentes e estão expostas a uma intensa radiação solar, como em
África, na Nova Guiné ou na Austrália, desenvolveram uma pele escura,
enquanto as que vivem nas regiões nórdicas desenvolveram uma pele mais
clara".
Deste modo, considera a cientista, "a cor da pele só por si não deve
ser
usada como base para classificação racial".
Como muitos outros cientistas, Sarah Tiskbsoff considera que os humanos têm
origem africana comum. África terá sido o "Paraíso" e "Adão"
e "Eva" uns
macaquinhos que resolveram caminhar aprumados.
Há coisa de dez mil anos (o homem não parece ser mais velho do que isso),
talvez todos os homens fossem parecidos com os bosquímanos actuais do ponto
de vista da subsistência e da cor da pele.
Os bosquímanos, que em Angola são também conhecidos como mukankalas, são
um povo nómada do deserto em vias de extinção. Não são negros, aliás os
negros
não são de origem africana. Na realidade, a raça nasce na Índia.
Enfim, o racismo tem a ver com várias coisas: razões económicas, caso dos
afro e dos americanos; razões históricas, caso dos judeus e palestinianos;
razões religiosas, caso dos irlandeses católicos e protestantes.
Tudo menos a cor da pele e não se deve fazer o disparate do Michael Jackson,
que era preto, quis por força ser branco e parece um extraterrestre. O mundo
às cores é muito melhor.
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DESLOCALIZAÇÃO. O primeiro-ministro Pedro Santana Lopes vai por diante com a
discutida e discutível decisão de transferir várias secretarias de Estado:
a
Administração Local para Coimbra, Agricultura para Santarém, Educação
para
Aveiro, Turismo para Faro e Juventude para Braga. Sendo assim, que tal
transferir a secretaria da Emigração para New Bedford?
CONGRESSISTAS. Devlin Nunes, congressista luso-californiano, esteve
recentemente nos Açores, onde se avistou com o presidente do Governo
regional e com Mota Amaral, presidente da Assembleia da República, que se
encontra de férias em São Miguel. Nestes encontros foi levantada a
possibilidade de realização, no próximo ano, nos Açores, de um encontro de
legisladores luso-americanos ou representantes de áreas com comunidades
açorianas. Reunindo federais e estaduais, ainda se arranjam três dezenas de
participantes.
CIA. O senador republicano Pat Roberts, presidente do Comité de Inteligência
do Senado dos EUA, apresentou uma proposta de reforma dos serviços de
inteligência que parece agradar a democratas e republicanos e que resultaria
na criação do cargo de director nacional de inteligência (NID, na sigla em
inglês) e numa divisão da CIA em três novas agências < ciência e
tecnologia,
operações e inteligência - cada uma sob a direcção de um assistente do
NID.
A proposta surge na sequência do inquérito aos atentados ao 11 de Setembro,
em que a inteligência americana esteve a dormir na forma. A CIA está, por
exemplo, bem informada sobre Portugal e informa, no seu site, que o país tem
66 aeroportos e uma linha de costa de 1.793 km, mas não consegue dar com Bin
Laden.
DESIGUALDADES. Do tamanho do estado de Indiana e com a população da cidade
de New York, Portugal é irrelevante para a maioria dos americanos. Contudo,
Portugal está ao nível dos EUA num aspecto, infelizmente negativo:
desigualdades sociais. Segundo o relatório mundial das Nações Unidas sobre
o
Desenvolvimento Humano de 2002, os EUA são o país onde há maior fosso entre
ricos e pobres, surgindo Portugal em segundo lugar. Portugal é o estado da
União Europeia onde há maior fosso entre ricos e pobres: 20% dos portugueses
mais ricos detêm quase metade da riqueza nacional.
ARTE. A revista norte-americana Art News elege todos os anos 200
coleccionadores de arte que considera os maiores do mundo. A listagem da
revista é composta essencialmente por norte-americanos, entre os quais Bill
Gates. A lista inclui desta vez um português, o madeirense José Manuel
Berardo, apontado como um dos maiores coleccionadores do mundo de arte
moderna. Berardo foi adquirindo ao longo dos anos uma valiosa colecção de
obras de Júlio Pomar, Vieira da Silva, Amadeu de Sousa Cardoso e Pablo
Picasso, entre muitos outros. Os quadros abrangem todos os movimentos e
técnicas da arte contemporânea.
OLIMPÍADAS. A realização dos Jogos Olímpicos de Atenas veio levantar a
velha
questão do aproveitamento político da competição e de subornos, mas isso não
é um problema contemporâneo. Já na era antiga os Jogos envolviam rios de
dracmas, que eram os dólares de então e há notícia de que, no ano 488
antes
de Cristo, o campeão grego Astylos se vendeu à cidade siciliana de Siracusa.
E no ano 64 da era cristã, em Olímpia, a corrida de quadrigas foi um
escândalo: os juízes ignoraram o verdadeiro vencedor, cujo nome nem sequer
passou à história e atribuiram a vitória ao imperador Nero, embora tivesse
caído durante a corrida e não tivesse cruzado sequer a meta.
SOPAS. Estamos em pleno ciclo de festas do Espírito Santo, que nos Açores se
prolongam da Pascoela ao Pentecostes e nos EUA fogem ao calendário litúrgico
e preenchem todo o verão com pensões, coroações e sopas da tradição.
Sopas
que são um caldo com conduto de carne, mas com variantes que são tantas
quantas ilhas têm os Açores. No Faial exigem toucinho fumado, enquanto que
na Terceira levam galinha. Mas o segredo de umas boas sopas do Espírito
Santo está sobretudo na carne e, dizem os entendidos, tem que ser gorda e
velha. Quanto mais velha, melhor.
GASOLINA. Se o leitor residente nos EUA acha a gasolina cara a $1.80 o
galão, imagine-se a viver em Portugal e pagar $4 o galão.
FAMÍLIAS. Os quebequenses interessam-se por genealogia e, tal como na Nova
Inglaterra há uma casta que se considera descendente dos passageiros do
Mayflower, também no Quebec há muita gente orgulhosa dos antepassados. A
família mais numerosa são os Tremblay, descendentes de Pierre Tremblay, que
se fixou em 1657 em Baie Saint Paul no Charevoix e do qual descendem 150 mil
canadianos e americanos. Em 1978 foi constituída a Associação dos Tremblay
da América e hoje há no Quebec 163 associações de família, com um total
de
32 mil membros que se agrupam na Federação das Famílias Quebequenses. E
talvez seja altura duma associação das famílias portuguesas na América.
Que
tal começar pelos mais numerosos, os Medeiros?
TIMOR. Águeda Amaral correu domingo a maratona dos Jogos Olímpicos de Atenas
em representação de Timor Leste. Foi a segunda Olimpíada desta timorense de
32 anos, mãe de quatro filhos e que treina correndo pelas ruas e praias de
Dili. Águeda já tinha corrido a maratona dos Jogos de 2000, em Sidney, mas
desfilara com a bandeira do Comité Olímpico Internacional, pois o seu país
ainda não se tinha tornado independente e recuperava da violenta ocupação
indonésia. Desta vez, Águeda foi porta estandarte da delegação timorense.
Timor tornou-se independente há dois anos, mas é um país pobre e Águeda
continua a treinar nas ruas. Domingo, foi a 65ª na maratona de Atenas, com o
tempo de 3h 18m 25 segundos. Não ganhou medalhas, mas subiu ao pódio do
orgulho timorense.
PICO DA VARA. Cumprem-se este sábado 55 anos sobre o fatídico acidente do
avião Lockheed Constalation da Air France que se despenhou no Pico da Vara,
na ilha de São Miguel. Foi a 28 de Agosto de 1949. O avião fazia a travessia
entre Paris e New York. Transportava homens de negócios, uma violinista
célebre e Marcel Cerdan, ex-campeão mundial, ídolo dos franceses. Cerdan ia
encontrar-se em New York com a cantora Edith Piaf, com quem tinha um
romance. O acidente deu-se por volta das quatro da manhã. O estrondo acordou
muitas pessoas na freguesia do Nordestinho e os que vieram à rua viram a
grande labareda no Pico da Vara. Uns quantos não hesitaram e subiram a serra
a pé, pelos estreitos trilhos, até ao local do acidente: o Pico Redondo.
Havia corpos por todo o lado e a desgraça foi aproveitada por alguns para
encherem os bolsos de jóias, relógios, dinheiro. Conta-se que houve quem
cortasse dedos para se apoderarem dos anéis. O incidente gerou um problema
diplomático entre Portugal e a França. As autoridades francesas apelidaram
os habitantes da freguesia de ³piratas de pé descalço² por terem saqueado
os
despojos dos mortos. Mas a grande maioria subiu ao Pico da Vara por razões
humanitárias.
Voluntários e soldados idos de Ponta Delgada carregaram os cadáveres em
panos de tenda até ao adro da igreja na Algarvia, onde os corpos foram
metidos nos caixões para o regresso a França.
Os camiões que levaram os caixões foram acompanhados pela banda de música
até à estrada...
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