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Viva Las Vegas
Por coincidência, o Francisco Resendes, este vosso criado e respectivas
consortes estiveram a semana passada uns dias em Las Vegas, hospedados no
mesmo hotel, o Aladdin e sem que tivessemos planeado isso. Mas planeou o
hotel, cuja tarifa é pechincha: 690 dólares pela viagem e hospedagem quatro
dias para duas pessoas, mais barato do que só a viagem para os Açores, que
é
menos tempo de voo.
No caso dos Resendes foi a segunda visita. A Fernanda é gerente de uma loja
Eye Health Vision Center e a convenção dos fabricantes de material
oftalmológico voltou a ter lugar em Las Vegas, que já recebeu este ano cinco
milhões de participantes de convenções.
Las Vegas é a cidade que mais cresce no país e cuja população aumenta à
razão de três mil novos habitantes por ano e não pára de crescer. Tudo
isto
começou há 175 anos graças a uns quantos poços de água que convertiam o
local num pequeno oásis na secura do barrento Deserto Mojave.
Era terra dos índios Anasazi e Paiute, mas deixou de ser em 1829, quando uma
expedição de 60 mexicanos comandada por Rafael Rivera passou por ali a mando
do comerciante Antonio Armijo, comerciante de Los Angeles que procurava
encurtar caminhos de Old Spanish Trail.
Rivera chamou Las Vegas ao lugar. Em espanhol significa terra fértil, veiga.
Em 1844, acampou nas Las Vegas Springs a expedição do capitão John C.
Fremont, que andava a descobrir os trilhos que o combóio deveria percorrer
depois a caminho da costa do Pacífico. Fremont dá hoje o nome a uma rua e um
hotel de Las Vegas.
Em 1850, começaram a aparecer caravanas de mórmons que se mudavam de Utah
para Los Angeles e o Old Spanish Trail passou a ser conhecido como Mormon
Trail.
Em 1861, o Congresso dos EUA criou o Território de Nevada, com capital em
Carson City, 48Km a sul de Reno e que ainda hoje não em 50 mil habitantes,
enquanto Las Vegas já vai perto dos dois milhões.
Com a chegada do combóio da Salt Lake City Railroad, em 1890, Las Vegas
ficou mais concorrida, já com uns quantos "sallons" onde se jogava
póquer e
foi elevada a cidade a 15 de Maio de 1905.
O primeiro hotel abriu no ano seguinte com o nome de Nevada e chama-se hoje
Golden Gate Hotel. Mas o verdadeiro desenvolvimento só começou em 1931,
quando a Legislatura estadual legalizou o jogo.
Outra medida decisiva foi a construção de boas estradas, pois Las Vegas é a
mais isolada cidade dos EUA: Los Angeles fica a 278 milhas, Phoenix a 290,
Reno a 447 e San Francisco a 575.
Igualmente importante a legislação possibilitando divórcios e casamentos
rápidos, que se tornaram especialidade da terra.
Para obter divórcio bastam seis semanas de residência na cidade.
Quanto aos casamentos, realizaram-se 119.124 em 2003 e apenas é necessária
licença que custa $55 e pode ser obtida no Clark County Marriage Bureau, que
abre das oito da manhã à meia-noite dias úteis e nem sequer fecha aos fins
de semana.
De cinco em cinco minutos realiza-se um casamento na cidade. Há dezenas de
capelas casamenteiras para todos os gostos e quem preferir encontra até
padre com pinta de Elvis Presley, que continua a ser uma instituição em Las
Vegas, com direito a museu e mais de meia centena de imitadores que fazem
carreira à sua custa.
Todos os hotéis têm capelas casamenteiras e fazem preços especiais para os
hóspedes. No Caesar's Palace a capela é decorada como templo romano e o mais
barato são $1.000 por casamento, havendo também quem pague o chamado
casamento Dolce Vita (assim mesmo, em italiano), que custa $15.000.
Celebridades do showbiz gostam de casar em Las Vegas, caso recente de
Britney Spears, mas o casamento de que ainda se fala é o de Elvis com
Priscila Beaulieu, em 1967, na capela do Aladdin, onde ele estava a actuar.
Contudo, o campeão casamenteiro de Las Vegas continua sendo Mickey Rooney:
casou três vezes na Chapel of the Bells e duas na Little White Chapel.
Capital do vício
Visitam Las Vegas 36 milhões de pessoas por ano, o aeroporto local tem a
média diária de 720 partidas e chegadas, mas nem sempre foi assim e uma
medida que contribuiu para o desenvolvimento da cidade foi a legalização da
prostituição, que valeu a Las Vegas o título pouco invejável de capital do
vício, mas do qual ficou perdoada depois dos escândalos de pedofilia na
arquidiocese de Boston e outras.
Na lista telefónica são 68 páginas de anúncios de conceituadas
profissionais
louras, ruivas e morenas de todas as cores e raças oferecendo os seus
serviços para convenções ou discretas visitas domiciliares, em grupo ou
individuais e a preços especiais, nalguns casos duas raparigas pelo preço de
uma. Enfim, há quem discorde do amor comprado, mas às vezes acaba por sair
mais barato do que o amor gratuito.
Acrescente-se que no estado de Nevada é ilegal sexo sem preservativo.
O dedo de Godfather
Nos anos 30, Las Vegas já tinha alguns casinos onde é hoje a Baixa, caso do
The Last Frontier, ainda existente e que mandava uma diligência buscar os
clientes que aterravam no pequeno aeródromo, serviço pioneiro dos actuais
shuttles, os mini-autocarros que fazem ligação entre os hotéis e o
aeroporto, onde as boas vindas são dadas pela slot machines.
Mas a expansão só começou realmente com a chegada de Benjamin Siegel,
Bugsey
de alcunha e considerado o pai da moderna Las Vegas que se ergueu ao longo
do Las Vegas Boulevard a chamada The Strip, nove quilómetros de avenida onde
ficam 40 dos super hotéis.
Siegel, cuja vida já deu filme, começou a carreira na trafulhice dos
telegramas da Trans American, que permitia saber com alguma antecedência os
resultados das corridas de cavalos e apostaar nos ganhadores. Era das
relações dos pouco recomendáveis Al Capone, Frank Costello e Lucky Luciano.
Siegel sonhou construir o maior casino-hotel do mundo, o Flamingo, com
ambiente de luxo e misturando jogo com restaurantrs e espectáculos de
mulheres bonitas. Arranjou um sócio, Bill Wilkerson, empresário da noite de
Los Angeles e editor do Hollywood Repórter, mas que fugiu para Paris devido
aos calotes e o deixou entalado e obrigado a recorrer a Costello e Luciano.
O Flamingo, o primeiro hotel da Strip, então chamada US 91, foi inaugurado
em 1947 e poucas semanas depois Siegel era morto a tiro na casa de Beverly
Hills, que partilhava com Virginia Hill, uma actriz medíocre. Foi acusado de
defraudar os cofres da Mafia.
Anthony "Tony the Ant" Spiloto, Meyer Lansky e Nick Civella são
outros
mafiosos que contribuiram para o desenvolvimento de Las Vegas nos anos 40 e
o conselheiro municipal Oscar Goodman propôs há tempos a criação de um
"Mob
museum".
Em "Casino", filme de Martin Scorsese, Joe Pesci acusa que os donos
dos
casinos dos anos 70 eram todos desonestos, mas o que salva o filme são as
pernas de Sharon Stone e tudo isso já lá vai.
Os actuais donos dos casinos são respeitáveis empresários como Al Faccinto
Jr., presidente da MGM Mirage International, filho de um fabricante de
charutos que investiu o dinheiro da família no El Cortez, Las Vegas Club e
foi um dos primeiros sócios do Caesar¹s Palace, aberto em 1966. Faccinto é
hoje dono do MGM Grand, Mirage, New York-New York e Treasure Island em Las
Vegas e mais quatro casinos noutros pontos do país.
Gary Loveman é presidente da Harrah's Entertainment, proprietária do
Harrah's Rio, Caesar's e Binion's Horshoe em Las Vegas e mais 24 casinos
noutros pontos do país.
William Weidner é presidente das Vegas Sands, dona do Venetian Casino Resort
e Grand Canal Shops em Las Vegas e que está a investir no antigo território
português de Macau, abriu no inicio deste ano o Sands Macau e abrirá em
breve o Venetian Macau.
A cidade nunca dorme
Diz-se que New York nunca dorme e tem cara disso. Las Vegas também nunca
prega olho, casinos, bares, lojas de bebidas e alguns restaurantes funcionam
24 horas os sete dias da semana, mas está sempre impecável.
Os grandes nomes do espectáculo continuam a actuar em Las Vegas e a semana
passada tivemos Celine Dion, Caesar¹s Palace; Chicago, Stardust; Robin
Williams, MGM; Danny Gans, Mirage; David Bremer, Hilton; Rita Rudner, NY,NY;
Vicente Fernandez, Aladdin; Penn & Teller, Rio; Bruce Willis, Golden Nuget
e
Chubby Checker, Silverton.
Além disso, as bailarinas do Folies Bérgere e do Crazy Horse, de Paris,
continuam a dançar no Tropicana e no MGM, respectivamente; os Blue Men no
Luxor; o show Mama Mia no Mandalay Bay e, caso incrível, três companhias do
famoso Cirque du Soleil têm espectáculos no NY,NY (Zumanity), Bellagio (O) e
Treasure Island (Mystere). Custo médio dos bilhetes $100.00
Cidade do faz conta
A Strip uma das quatro zonas de jogo de Las Vegas, é uma faixa de néon onde
se sucedem 40 dos 90 casinos de Las Vegas todos enormes, sem janelas e sem
relógios, para que o jogador se mantenha entretido a jogar e não dê pelo
tempo a passar.
Em Las Vegas estão os dez maiores hotéis do mundo. Ao todo são 200 hotéis
com 120 mil quartos, capacidade hoteleira que não existe em nenhuma outra
cidade e outros estão em construção, inclusive o Wynn, que abrirá na próxima
primavera.
Para ser considerado grande, hotel de Las Vegas tem que ter pelo menos três
mil quatros e, além das salas de jogo, restaurantes, ginásios, salões de
beleza, muitas e cara lojas, adoptar também estilo de parque temático.
O Venetian, inaugurado em 1999 no local do velho Sands, tem seis mil quartos
e reproduz glórias arquitectónicas de Veneza com uma réplica em tamanho
natural da torre da Campanile existente na Praça de São Marcos, as pontes
dos Suspiros e do Rialto e até um canal com gôndolas para românticos
passeios a $12.50 por pessoa.
O Luxor tem forma de pirâmide e inspira-se no Egipto dos faraós, tendo uma
exposição permanente sobre o faraó Tutankamon e outras atracções sobre o
assunto.
O Caesars Palace é inspirado na Roma antiga e a estátua do imperador César
Augusto dá boas vindas aos visitantes. Tem réplica de uma vila romana,
fontes ornamentadas com estátuas falantes, piscina que evoca as termas de
Pompeia, um bar que reproduz um antigo barco do Nilo e um falso céu onde o
dia nasce, entardece e anoitece, tudo isso de hora a hora.
O Mirage decidiu-se por m lago artificial em cascata num jardim de mais de
mil palmeiras onde um vulcão entra em actividade e lança lava a 20 metros de
altura, de 15 em 15 minutos das 7:00 à meia noite.
O Treasure Island inspirou-se nos piratas, a começar numa enorme caveira
pintada na calçada, à entrada. Todas as noites, 7:30, 8:30, 10:00 e 11:00,
no lago frente ao hotel, um navio pirata em tamanho natural e um galeão
inglês travam uma batalha naval com tiros de canhão, explosões, mastros
derrubados e o afundamento de um dos navios. É o show mais concorrido da
cidade.
O Excalibur é inspirado na corte do medieval rei Artur. Dá direito a jantar
com cavaleiros da Távola Redonda, espectáculo no Teatro Merlin e à noite no
exterior do hotel, show com cavaleiros de armadura enfrentando um dragão que
cospe fogo.
O Francisco e a Fernanda Resendes foram almoçar ao restaurante giratório da
Stratosphere Tower, a mais alta construção da cidade, 833 pés de altura. Na
parte superior da torre há uma montanha russa e, em cima da montanha russa,
um mastro vermelho com cadeiras onde as pessoas se sentam e que depois cai a
alta velocidade pelo lado de fora da torre. Poucos experimentam.
O casal Mendes preferiu jantar na tranquilidade do Paris Hotel, com a sua
réplica da Torre Eifel quase do tamanho da original e um Arco do Triunfo.
Cada hotel tem a sua particularidade e o New York, New York tem a Estátua da
Liberdade, a Ponte de Brooklyn, o Village e só não tem a Ellis Island porque
é nome de concorrente.
O Aladdin que Johnny Carson e Frank Sinatra quiseram comprar em 1980 e hoje
parece ser de Wayne Newton, tem também o seu falso céu com trovoada e
respeita ambientes orientais nas 140 lojas.
O Bellagio com os jardins botânicos, mil repuxos dançantes, o restaurante
Picasso (decorado com alegadas obras do autor) é uma galeria onde está
patente uma exposição de obras de Monet cedidas pelo Museu das Belas Artes
de Boston, é um dos hotéis mais sofisticados.
Por sinal, o bostoniano John Kerry esteve na cidade o mês passado em
campanha eleitoral e instalou-se no Bellagio. A comitiva ocupou todo um
andar, 70 quartos.
O Mandalay Bay, que fica no final da Strip, inspira-se nos ambientes dos
mares do sul, um aquário com 2.000 peixes, incluindo 12 espécies de tubarões
e uma praia artificial com ondas e tudo.
O MGM, que tem seis mil quartos, é o mundo do cinema, com a jaula
envidraçada do velho leão da Metro e fotografias de estrelas nas paredes,
entre as quais a nossa Carmen Miranda e o nosso Emeril Lagasse, que tem ali
um restaurante.
Em Las Vegas é possível dar volta ao mundo percorrendo os seus hotéis:
Monte
Carlo, New York, Paris, Riviera, Venetian, California, Golden Gate, Arizona,
Greek Island, Rio, San Remo, Santa Fé, St. Tropez, Texas, Tuscany,
Casablanca.
É o Disneyworld dos graúdos.
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