Segundo números recentemente divulgados pelo Universo On Line, website
brasileiro, são 65 os futebolistas de nacionalidade brasileira que militam
em 27 das 32 equipas que iniciaram recentemente a "Champions League",
ou, se
preferirem, a Liga dos Campeões Europeus de Futebol. Atrás dos brasileiros
é
igualmente notada a presença argentina, embora com números muito
inferiores
25.
Esta autêntica invasão brasileira está no entanto a causar sérias
apreensões
junto dos donos da bola europeia. Na recente reunião dos 14, que juntou em
mesa redonda altos dirigentes da UEFA e os representantes dos mais cotados
clubes europeus, entre eles o portuguesíssimo F.C. do Porto, um dos temas
mais focados foi precisamente a presença de tão valioso contigente
sul-americano nas mais cotadas equipas europeias. Para os dirigentes dos
clubes há urgentemente que encontrar soluções para uma melhor calendarização
das provas internacionais a nível de selecções sul-americanas, alvitrando-se
as mesmas datas das dos calendários das europeias, ao mesmo tempo que
exigem
a divisão de despesas respeitantes ao seguro global dos atletas, o que é
absolutamente justificável.
Pondo de parte a questão de datas, tempo de ausência das equipas que pagam
os volumosos ordenados e recebem depois os atletas com lesões por vezes
graves quando ao serviço das selecções, esta questão brasileira é mais
complexa e tem maiores e mais sérios reflexos do que isso, como deixou
entender recentemente um dirigente da Associação de Roma. Segundo este, a
procura de jogadores feitos fora de portas está a impedir o aparecimento de
jovens valores e alguns começam por isso a bater na velha mas sempre
actualizada questão de reduzir o número de estrangeiros por equipa,
alterando a lei base das naturalizações, que como se sabe são feitas
consoante as necessidades da ocasião.
Mas há clubes italianos que não estão à espera disso para começar a
olhar o
futuro. A Juventus, actual líder do campeonato da I Liga Italiana de
futebol, não tem jogadores da América do Sul, baseando a sua estrutura
numa
nova política de aquisições dentro da Europa e reforçando o seu
recrutamento
interno. Até agora, a "velha senhora" não se tem dado nada mal
com o
processo e outras equipas do top do futebol italiano já manifestaram a
mesma
intenção. Aliás, a recente remodelação da "squadra azzuri"
veio despertar os
clubes para a necessidade de uma aposta mais forte na juventude. O novo
técnico, Marcello Lipi, operou uma transformação que já outros haviam
preconizado e que Giovanni Trapattoni, actual treinador do Benfica, teve
medo de fazer. Deixou de fora alguns indiscutíveis e foi buscar algumas
segundas escolhas nos actuais clubes. Daniele Bonera, Daniele De Rossi,
Alberto Giraldino, Andrea Pirlo e Luca Tóni fizeram parte da equipa que
derrotou recentemente a Noruega (2-1) e Moldávia (1-0) em jogos de
apuramento para o Mundial da Alemanha. O caso de maior sucesso foi o do
jovem De Rossi (21 anos), avançado do Roma. Tinha um contrato de
jovem-promessa que lhe pagava apenas 50 mil euros por ano e a sua passagem
pela selecção obrigou o seu treinador e a direcção do clube a ver a
coisa
com outros olhos. Assinou já um contrato milionário e passou a ser opção
frequente do seu treinador.
Em Portugal as coisas são bem piores quando se fala de estrangeiros,
nomeadamente brasileiros. Na última estatística divulgada pela FPF
(Federação Portuguesa de Futebol) era de 713 profissionais e não amadores
o
número de jogadores nascidos no país irmão que jogavam em território
luso,
espalhados por um universo de pequenas e grandes equipas militantes na I
Liga, II Liga, II Divisão B, III Divisão e campeonatos regionais. Para além
destes, há ainda um número exagerado de atletas das ex-colónias e de
outros
países africanos, com a diferença de que são menos conhecidos e logo aí
mais
baratinhos.
Ainda recentemente o meu Sano António foi à Praia da Vitória vencer o
Praiense na I eliminatória da Taça. O Além Capelas tinha tudo jogadores
de
São Miguel (para não perder o subsídio do Governo, que dá um jeitão) e
o
Praiense tinha só rapazes de cor, uns emprestados por equipas do continente
e outros muito possivelmente assinados no largo do do Rossio. Quando
perguntei as razões de aposta tão estranha fui informado que para além de
serem mais baratos acomodam-se aos quatro e cinco no mesmo apartamento, o
que já não acontece com outros.
Aqui está portanto a razão de termos de esperar tanto tempo para ver um
novo
Chalana, um novo Futre ou um novo Postiga.
Eu é que não posso dizer que vi o meu caminho "barrado" por
brasileiros ou
africanos. Um dia fui suplente do Chinoca nas primeiras do Santa Clara e
entrei a 15 minutos do fim de um jogo frente ao Marítimo da Calheta. Estive
bem, pelo menos foi isso que me disseram e estava à espera de uma chamada
mais duradoira.
O João Maciel acabou logo com as minhas ilusões dizendo-me: "Se um
dia deres
bom jogador de futebol eu já estou a treinar o Benfica".