|
O Bush e o Estica
Presumo que o prezado leitor é, como este seu criado, um português com
cidadania americana que tenciona exercer o direito de voto nas eleições
presidenciais de 2 de Novembro nos EUA e, como tal, foi um dos 62 milhões de
telespectadores do debate de 30 de Setembro entre o presidente e candidato
republicano à reeleição, George W. Bush e o candidato democrata, senador
John F. Kerry.
Nas últimas semanas, os republicanos gastaram 110 milhões de dólares
procurando transformar a eleição num referendo sobre Kerry, alegando que não
tem convicção e muda de opinião.
³Ele é capaz de ficar os 90 minutos a debater-se consigo próprio sobre o
Iraque², insinuou Bush, mas Kerry colocou o oponente na defensiva afirmando
que as suas incertezas não são problema tão grave como as certezas
casmurras
do presidente que lançaram o país numa guerra.
Bush reagiu afirmando sete vezes que o seu oponente mudava frequentemente de
opinião, numa argumentação primária e preocupante.
Kerry ganhou claramente o debate, segundo os analistas a vitória mais clara
desde que Ronald Reagan se confrontou com Jimmy Carter em 1980. Acusou Bush
de cometer um erro "colossal" ao desencaderar a guerra no Iraque
quando
devia concentrar-se na captura de Osama bin Laden e sem apoio das Nações
Unidas.
Foi claro nas críticas à política de Bush, que pode vir a entrar para o
Guiness Book of Records: nunca, em tão pouco tempo, alguém conseguiu
aumentar tanto o número de anti-americanos em todo o mundo.
Bush cometeu a proeza de desunir os aliados da América e unir os seus
inimigos.
O presidente passou a maior parte dos 90 minutos na defensiva e carrancudo,
incapaz de esconder a irritação com os argumentos de Kerry, que referiu a
decisão calamitosa de, quando o derrube de Saddam Hussein, colocar as tropas
americanas a proteger o Ministério do Petróleo deixando desaparecer
relatórios ultra-secretos dos ministérios da Defesa e do Exército que
poderiam ter esclarecido a questão do armamento nuclear do Iraque.
Mais importante do que os candidatos disseram foi o que não disseram,
nomeadamente as relações da família Bush com a família bin Laden; George
W.
Bush foi sócio de um irmão de Osama, já falecido, numa companhia petrolífera
do Texas chamada Arbustos.
O senador Bob Graham, da Florida, que presidiu à comissão de inquérito ao
11
de Setembro, acaba de publicar um livro (Intelligence Matters), em que
revela dois dos terroristas do 11 de Setembro, Nawaf al-Hazmi e Khalid
al-Mihdhdar foram apoiados financeiramente pelo governo da Arábia Saudita
enquanto frequentavam cursos de pilotagem nos EUA. Mas as 27 páginas que
referiam este caso foram suprimidas da versão fnal do relatório por
exigência da Casa Branca.
Outra questão que precisa ser esclarecida é o facto de, depois do 11
de
Setembro e por ordens da Casa Branca, o FBI ter andado a recolher os
numerosos membros da família bin Laden residentes nos EUA e, ainda com o
espaço aéreo fechado, ter sido autorizada a aterragem de um avião saudita
que os levou de regresso à Arábia Saudita.
Duas dezenas de terroristas de nacionalidade saudita e ligados a uma
organização liderada por Osama bin Laden levaram a cabo operações que
matavam três mil pessoas nos EUA e um dos primeiros cuidados da Casa Branca
foi dar protecção aos membros da família bin Laden.
Também não faz sentido ter abrandado a perseguição a Osama bin Laden para
atacar o Iraque. Foi como se, para reagir ao ataque de Pearl Harbor,
Franklin Roosevelt tivesse atacado o México em vez do Japão, disse Kerry.
Outro livro que merece ser lido é "Cadeia de Comando", de Seymor
Hersh,
repórter que já tinha denunciado o massacre de My Lai, em 1969, no Vietname,
e agora revela podres da guerra do Iraque.
Foi um dos primeiros a denunciar os maus-tratos de prisioneiros na prisão de
Abu Gharib e para ele os abusos não são factos isolados e decorrem das
decisões de uma cadeia de comando que acaba no secretário da Defesa, Donald
Rumsfeld.
As graves violações dos direitos humanos nas prisões de Abu Gharib e
Guantánamo foram denunciadas por organizações como a Human Rights Watch e,
no verão de 2002, a assessora especial de Segurança, Condolleza Rice,
convocou Rumsfeld, mas foi necessário alguns militares trazerem o caso a
público para acabar com práticas que apenas contribuiram para mobilizar o
mundo árabe contra os EUA.
Na mesma linha, Kerry disse que o Iraque cria condições para que o
terrorismo se espalhe pelo mundo e os EUA fiquem mais vulneráveis. "A
forma
como o presidente lida com a guerra é uma mistura tóxica de ignorância,
arrogância e ideologia teimosa", afirmou o candidato.
Kerry foi elucidativo, mas só em 2 de Novembro saberemos se foi convincente.
Numa sondagem USA Today/CNN/Gallup divulgada esta segunda-feira, Bush e
Kerry aparece empatados com 49% das intenções de voto.
Falta menos de um mês para as eleições e Kerry ainda vai ter muita dor de
cabeça para chegar à Casa Branca. E, se chegar, o mais certo é continuar
com
dores de cabeça nos próximos quatro anos: há oito milhões de americanos à
procura de trabalho, 45 milhões de trabalhadores não têm seguro médico,
4,3
milhões de famílias vivem abaixo do nível oficial de pobreza, 220 mil
estudantes deixaram de estudar o ano passado por não poderem pagar a
universidade e o rendimento familiar médio sofreu uma quebra de 1.500
dólares.
As questõas económicas estão agendadas para o segundo debate dos dois
candidatos presidenciais no próximo dia 8 de Outubro em St. Louis.
Entretanto, ontem à noite, tivemos em Cleveland o primeiro e único debate
entre os candidatos a vice-presiente, o actual vice republicano Dick Cheney
e o senador democrata John Edwards.
Este debate costuma ser inconsequente, mas desta vez tem importância crucial
pelo papel que Cheney assumiu no governo de Bush, funcionando como uma
espécie de primeiro ministro, em particular nas questões ligadas à política
externa e à segurança nacional.
Para os críticos do presidente, Bush não passa de uma marionete de Cheney e
terá partido dele a decisão de invadir o Iraque e facturar contratos de
vários biliões com a empresa Halliburton, de que era administrador antes de
ser eleito.
Cheney não estará muito preocupado com o debate, mas para Edwards poderá
ser
crucial. Está com 51 anos e, se Kerry vencer em Novembro, terá caminho
aberto para a sua própria campanha presidencial em 2012; se Kerry perder no
mês que vem, Edwards embala para a sua própria candidatura presidencial em
2008.
Edwards não era visto em público há duas semanas e já se diz que andou a
treinar para presidências secretas tipo Cheney.
Nobel de Medicina para estudiosos do olfacto
Os norte-americanos Richard Axel e Linda D. Buck ganharam o prémio Nobel da
Medicina ou Fisiologia, de 2004, por descobertas importantes sobre aquele
que foi durante muito tempo o mais enigmático dos nossos sentidos.
Axel, 58 anos, do Howard Hughes Medical Institute da Universidade de
Columbia, em New York, partilha o prémio com Buck, 57 anos, do Fred
Hutchinson Cancer Research Center de Seattle, Washington.
A investigação premiada segunda-feira contribuiu para perceber o
funcionamento do sistema olfactivo, permitindo perceber por que razão os
odores são percepcionados de forma diferente por cada indivíduo.
Cerca de mil genes receptoras olfactivas que ocupam uma pequena aréa na
parte superior do nariz e detectam cerca 10 mil odores diferentes, explicou
a Academia Nobel em comunicado.
O prémio Nobel de Medicina e o primero a ser conhecido e hoje, quarta-feira
será anunciado o da Química. O da Literatura será provavelmente anunciado
qunta-feira, o da Paz na sexta-feira e o da Economia na segunda-feira.
Os prémios, no valor de 1,3 milhões de dólares serão entregues a 10 de
Dezembro, aniversário da morte de Alfred Nobel, fundador destes galardões.
Bush e Blair candidatos ao Nobel da Paz
A página de internet australiana especializada em apostas sobre o Nobel
Centrebet refere como favorito entre os aspirantes do Nobel da Paz a Vaclav
Havel, dissidente histórico, herói da "Revolução de Terciopelo"
de 1989 e
chefe do Estado Checo até 2003. Além disso, é dramaturgo e possui casa no
Alentejo.
Em 2003, a distinção foi atribuída à advogada de direitos humanos iraniana
Shirin Evadi, escolhida entre um grupo de 165 candidatos, entre os quais o
Papa João Paulo II.
Este ano concorrem 194 individualidades e instituições, número recorde em
que figura no segundo lugar o director geral da Agência Internacional de
Energia Atómica (AIEA),
Mohamed ElBaradei e o ex-chefe de inspectores de armas da ONU no Iraque,
Hans Blix.
Entre os candidatos ao Nobel da Paz figuram também o presidente George Bush,
o primeiro ministro inglês Tony Blair, os senadores norte-americanos Richard
Lugar e Sam Nunn, que lutam pelo desarmamento nuclear.
Na lista de favoritos figura ainda o israelita Mordechai Vanunu, libertado
em 2004 depois de ter passado 18 anos na prisão por ter revelado a
existência do programa nuclear do seu pais, o dissidente cubano Osvaldo
Paya, de novo, o Papa João Paulo II e aspirantes com menos possibilidades à
priori, como o cantor Bono da banda de rock U2, o presidente do Pasquistão,
Pervez Musharraf e o ex-presidente da Jugoslávia Slodoban Milosevic.
Se Bush ganhar receberá 1,4 milhões de dólares. Obviamente há uma lista
com
120.267 assinaturas a protestar contra a nomeação.
Candidatos ao Prémio Nobel de Literatura
O Nobel de Literatura será possivelmente anunciada amanhã e está rodeado de
grande expectativa. Este ano surgem com particular força nomes de mulheres,
discriminadas pela Academia Sueca e convertidas nas principais aspirantes de
2004. A argelina Assia Djebar, a norte-americana Joyce Carol Oates e a
dinamarquesa Inger Christensen são as favoritas.
Até agora, a Academia Sueca só galardoou nove mulheres desde que o prémio
foi atribuido a primeira vez, em 1901. Em 1996 foi atribuído à poetisa
polaca Wislava Szyborska e, antes dela, à americana Toni Morrison e à
sul-africana Nadine Gordimer.
Este ano, jornais de Estocolmo dão a americana Joyce Carol Oates como
favorita.
Copyright © 1997/2001 The Portuguese Times
Autorizada a reprodução de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem