Portuguese Times Zé da Chica - Gazetilha




A pobreza!...

Não vale a pena ser pobre,
Nem por dinheiro nenhum!...


Há muita gente que sonha,
Gritando muito avontade,
Dizendo: Não ser vergonha
Ser pobre na sociedade!

Quem tal disse, foi um rico
Que tinha herdado uns milhões!
Mas, encavacado eu fico
Com tamanhas ilusões.

A pobreza não anima,
Quem no mundo não tem nada,
Tudo lhe cai bem em cima,
Em tudo ela é culpada!

É muito triste a pobreza,
Anda sempre desprezada.
Até pela Natureza
A pobreza é castigada!

A pobreza, na verdade
Pouco tem, ou não tem nada.
E em caso de tempestade
É sempre ela a molestada.

O pobre é sempre um vadio!
Mas se um rico põe a mão
Nuns milhões, é um desvio.
Ladrão é quem rouba um pão!...

Ser pobre é uma tristeza,
Nem ao menos se tem nome.
Vive o pobre na pobreza
Na pobreza vive a fome!

Hoje, com tantos desenlaces,
De mentiras, se descobre
Só haver duas classes,
Muito ricos, muito pobres!

A média, classe nobre,
Pagando tudo indiferente,
Cada vez está mais pobre,
Digo até, quase indigente!

E o pobre, sem um centavo,
Cada vez mais à distância,
Vai ser de novo um escravo
Da riqueza e da ganância.

Caminhamos p'rá pessão,
Que ainda hoje se lamenta;
Andar de chapéu  na mão,
Comer pãozinho e pimenta!

É um acto desumano,
Sem compaixão e sem zelo,
Cujo sonho americano
Se vai tornar pesadelo!

O rico, na aparência,
É pessoa bem formada.
No pobre, a inteligência
Por vezes nem é falada!

O pobrinho nada tem,
P'ralém do seu braço forte,
Tratado como um ninguém,
Ou pessoa de mau porte.

Conhecemos hoje em dia
Gente lá no pedestal,
Ricos em sabedoria,
Pobres na vida real!

Há quem precise de ajuda
E ainda lhe fazem danos.
Saber muito, nada muda,
Perciso é sermos humano.

Quem não quiser ajudar,
Desinteressado esteja
Calado no seu lugar,
Sem preterir quem deseja.

Pode alguém nos querer tramar,
Às vezes sabemos quem!
Com receio de o apontar
Prejudicando outro  alguém!

Quem lá do alto procura
Amesquinhar outro, eu acho,
Ao vê-lo naquela altura,
Como vai descer tão baixo!...

Ter instrução, com certeza
Nada difere, quanto a mim
Na pobreza ou na riqueza.
Pobreza d'espírito, sim!...

Vejam onde eu cheguei
Mudei, já fiz duas mudas.
Falei, falei e não sei
Porque falei em ajudas?

Na idade que atravesso,
A vida vai avançada.
Quanto a ajudas, confesso
Já  me valem pouco ou nada!

Perciso é de salvação,
Também uma vida calma,
As contas e o bordão
P¹ra rezar por minha alma.

Antes de ficar tarouco,
Como eu sou um pecador
Dos que rezam muito pouco,
Quero rezar mais ao Senhor!...

Mas continuo afirmando,
A classe média agora
Vai aos poucos se acabando,
Cada dia, cada hora.

Ela já estava chupada,
Mas continua o vampiro
Trazendo-a explorada
Até ao último suspiro!

Voltando à ânsia medonha
De afirmar o ditado:
"Ser pobre não é vergonha!"
Melhor senhores, é calado!

É uma grande verdade
Que o dinheiro no entanto
Não dá a felicidade.
Mas ELE ajuda-nos tanto!...

Por ele há quem se enforca,
Quem faz tanto acto errado.
Sendo ele a coisa mais porca,
Que guardamos com cuidado!

Dinheiro de prata, de cobre,
De papel, qualquer fabrico,
É ele que faz o pobre,
Tal como também  o rico!...

PS
Fiz p'raqui uma embrulhada,
Mas só quero que a riqueza,
(Esta gente endinheirada!)
Não se esqueça da pobreza!

Muita coisa se encobre
Sobre o pobre, um a um.
Mas ele não quer ser pobre,
Nem por dinheiro nenhum!...

Dos pobres,
já disse Deus,
Será o Reino
dos Céus!...




      
      


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