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A corrida à Casa Branca
Esta é a última edição do Portuguese Times antes das eleições
presidenciais
nos EUA e não posso deixar de lembrar aos prezados leitores que são
eleitores a importância de votar John Kerry no próximo dia 2 de Novembro. As
razões são elementares: há esperança de Kerry ser melhor presidente que
George W. Bush e pior não será com certeza. Ou, como disse ontem Bill
Clinton na Pensilvânia, entre um candidato que nos fala de esperança e outro
que nos fala de medo, deve optar-se pelo primeiro.
Realmente, este foi o ano de todas calamidades nos EUA: furacões, erupções
e
eleições presidenciais, as mais caras de sempre, mais de um bilião de
dólares investido pelos dois candidatos.
Algumas pessoas dizem que, não podendo ser o antigo presidente Bill Clinton,
que continua popular mesmo com quatro bypasses, o candidato ideal deveria
ser um misto de Bush e Kerry, ou seja, um tipo que se farta de suar e não
diz coisa com coisa.
À primeira vista parece não haver grandes diferenças entre os dois
candidatos, Bush tem um pai rico e Kerry uma mulher rica.
Mas, conforme escreveu domingo o Washington Post, "Kerry, com a sua
promessa
de firmeza aliada à sabedoria e mente aberta, conseguiu mais convicção no
seu pedido pela confiança da nação em deixá-lo liderar o país nos próximos
quatro anos".
Bush o que fez foi agravar o desemprego (o primeiro presidente que não criou
empregos desde a Grande Depressão, nos anos 30) e acumular um défice maior
que qualquer outro presidente, de George Washington a Ronald Reagan, 2,7
triliões de dólares.
O curioso é que, a seis dias das eleições e com o país metido na alhada do
Iraque, as sondagens sobre as intenções de votos deveriam ser todas
favoráveis a Kerry e não são.
Parece haver americanos que acreditam no utópico plano de levar a democracia
ao Médio Oriente e acabar com o terrorismo.
Tivemos há dias as primeiras eleições presidenciais no Afeganistão, mas a
contagem dos votos ainda não acabou, tal como na Flórida há quatro anos.
Na guerra contra o terrorismo, Bush conseguiu pelo menos capturar o
cozinheiro de Osama bin Laden. Não é a grande vitória que prometeu em 2001,
mas pelo menos bin Laden está a comer pior.
O problema é que, com a sua política externa, George W. Bush corre o risco
de, comforme li algures, entrar para o Guiness Book of Records, pois nunca
alguém conseguiu aumentar o número de anti-americanos em todo o mundo em tão
curto espaço de tempo.
Diz-se que os EUA invadiram o Iraque por causa do petróleo, mas a gasolina
está cada vez mais cara. As gasolineiras são mesmo as únicas empresas que
prosperaram na administração Bush.
Há 30 anos, os EUA produziam quase tudo o que consumiam, hoje vem quase tudo
do Japão, China e outros países de mão-de-obra barata, o que tira emprego
aos americanos e não contribuiu propriamente para que comprem os produtos
mais baratos.
A liberalização do comércio externo defendida pelos republicanos vem
agravando o desemprego e poderá levar muitos eleitores a votarem democrata
no próximo dia 2, mas não são fáceis as previsões.
As sondagens sobre intenções de voto mostram Bush com 48% e Kerry com 46%,
ou vice-versa, mas com uma margem de erro de 3% que deixa tudo em aberto.
Ainda há pouco vi na TV um tipo prevendo que Bush ganhará o voto popular e
Kerry o voto eleitoral. OU seja, a repetição do que aconteceu nas eleições
de 2000, quando o candidato eleito não foi o que obteve maior quantidade de
votos populares, mas o que conseguiu mais votos eleitorais. Só que desta
vez, o beneficiado será o democrata Kerry e não o republicano Bush.
Convém lembrar que não são propriamente os eleitores que escolhem o
presidente dos EUA, mas um arcaico colégio eleitoral constituido por
representantes de cada estado e cujo número varia conforme a população. Por
exemplo, na Califórnia são 55 e na Florida 22.
O presidente carece do mínimo de 279 votos eleitorais para ser eleito, mas
às vezes as coisas não são tão lineares e há quatro anos, na Florida, por
causa de pouco mais de 400 votos, a escolha do presidente acabou sendo feita
um mês depois da votação pelos nove juizes do Supremo Tribunal, sete dos
quais tinham sido nomeados por presidentes republicanos.
Portanto, este ano poderemos não saber quem será o próximo presidente já
na
próxima terça-feira, mas não será nada de novo. Também passámos os últimos
quatro anos sem saber quem é o actual presidente, se George W. Bush ou Dick
Cheney.
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ATENÇÕES. O mundo está pendente das eleições presidenciais do próximo
dia 2
de Novembro. Alguns líderes estrangeiros, como o italiano Silvio Berlusconi,
o russo Vladimir Putin e o japonês Junichiro Koizumi, apoiam Bush. Mas a
maioria dos estrangeiros está com Kerry e o candidato democrata ganhou
esamgadoramente nas sondagens efectuadas em 35 países, perdendo apenas na
Polónia. A maioria dos estrangeiros quer uma mudança na Casa Branca porque,
conforme escreveu o jornal italiano Corriere della Sera, "o destino do
planeta se decide em grande parte nos EUA".
LUSO-AMERICANOS. Não se sabe ao certo quantos portugueses naturalizados
americanos irão votar no próximo dia 2 de Novembro, mas calcula-se que sejam
pelo menos 200 mil e estão concentrados em Massachusetts, Rhode Island,
Califórnia e New Jersey. Nos últimos anos, com as novas leis de imigração,
os imigrantes portugueses ganharam consciência da importância da
naturalização e do voto, que não é obrigatório e por isso nem todos
exercem
esse direito. Por tradição, os imigrantes são simpáticos as políticas
sociais do Partido Democrata, embora alguns passem a identificar-se com os
republicanos à medida que melhora a situação económica. Este ano há uma
razão especial para os portugueses votarem democrata, a mulher de Kerry,
Teresa Simões Heins Kerry, a Terezah, como dizem os americanos, é
portuguesa, nascida em Moçambique.
LATINOS. Há nos EUA 40 milhões de latinos, termo usado para designar
genericamente os hispânicos. É a maior minoria do país, tendo ultrapassado
os negros ou afro-americanos, como se diz hoje em dia. Cerca de sete milhões
de latinos estão habilitados a votar nestas eleições, um número suficiente
para fazer diferença, sobretudo em estados como Florida, Colorado, Nevada e
Novo México. Bush e Kerry disputam esses votos. No Colorado, os latinos
constituiram-se na associação Nueva Desperanza e tomaram posição contra
Bush, a quem acusam de ter enviado para a pobreza 1,3 milhões de americanos,
800 dos quais hispânicos.
HOLLYWOOD. A maioria dos nomes espectáculo apoia o candidato democrata à
presidência dos EUA. Leonardo DiCaprio, Ben Affleck, Matt Damon, Robert de
Niro, Michael Douglas, Barbara Streisand, Samuel L. Jackson, Benicio del
Toro e outros tem feito campanha por John Kerry. Os astros de Hollywood
tradicionalmente são democratas, mas este ano até músicos como Bruce
Springsteen, Dixie Chiks, REM, Pearl Jam, John Mellencamp e outros deram
espectáculos e arrecadaram mais de 10 milhões de dólares para a campanha
democrata. Parecia impossível, mas os republicanos também tem apoios no
rock, caso de Ricky Martin e das bandas Gotham Road e Ramones. Mas a arma
secreta republicana é o actor Arnold Schwarzenegger, governador da
Califórnia, que tem acompanhado Bush nos comícios. É um republicano que faz
parte do clã Kennedy e aparentemente todos gostam dele, liberais e
conservadores. Todos, menos os críticos de cinema.
APOIOS. John Kerry recebeu o apoio oficial de 80 dos mais influentes jornais
do país, entre os quais New York Times, Washington Post e Boston Globe. Por
outro lado, o Chicago Tribune e Miami Herald, entre outros, deram os seu
apoio Bush. Além dos jornais, Kerry conseguiu também o apoio dos líderes de
sete milhões de muçulmanos americanos. A organização Força Tarefa de
Direitos Humanos dos Muçulmanos, que há quatro anos apoiara Bush, vota agora
contra ele. Apesar de Mary Cheney, a filha homossexual do vice-presidente
Dick Cheney, as organizações de gays e lésbicas também apoiam Kerry,
considerando que, embora não seja abertamente a favor do casamento
homossexual, e com certeza melhor que Bush.
HUMOR. Os políticos são alvos preferenciais dos humoristas em todo o mundo e
não há época mais rica para piadas do que as eleições. Isso é evidente
nesta
altura, nos EUA, todos os apresentadores dos talk-shows nocturnos da TV
fazem humor sobre as eleições e os telejornais repetem as piadas de Jay
Leno, David Letterman e outros na noite anterior. Um dos programas de maior
sucesso é o Daily Show apresentado no Comedy Channel por John Stewart e que
funciona como uma revista dos principais acontecimentos do dia sob a óptica
do humor. A equipa de Stewart acaba de lançar uma versão hilariante da
história dos EUA em livro que está a ser um sucesso. O livro ridiculariza a
história dos EUA, a começar pelas próximas eleições no capítulo ³Indecisão
2004². Stewart põe em causa as mais verenáveis tradições americanas, caso
dos peregrinos, "que tiveram sucesso no Novo Mundo porque não vieram em
busca de glória. Vieram para escapar à perseguição religiosas e criar uma
sociedade onde pudessem rezar como bem entendessem e um dia, se Deus
quisesse, praticar a sua própria perseguição contra os outros."
LIVROS. Neste mar de lama da campanha 2004, algumas denúncias sem fundamento
encadernadas em livros tornaram-se rapidamente best-selles. É o caso de The
Family, de Kitty Kelley, em que três gerações da família Bush são
tratadas
como escroques, avarentos, mulherengos e drogados. O livro de 705 páginas
não está ao serviço dos democratas, está a serviço da autora, que
facturou
bem. Noutro livro de sucesso, Philip Roth põe o aviador e simpatizante nazi
Charles Lindbergh a candidatar-se à Casa Branca em 1940, pelo Partido
Republicano e contra Roosevelt. Roth tem opinião formada sobre Bush: "Não
está qualificado para administrar uma loja de ferragens, quanto mais um
país".
JOGOS. As eleições americanas são um jogo e inspiraram realmente mais de 20
jogos de computador, telefone celular ou internet, que foram lançados
ultimamente. Há jogos para todos os tipos, desde os de carácter educacional
até aos propagandísticos, destinados aos militantes radicais republicanos.
Um desses jogos chama-se John Kerry: Tax Invaders e especula sobre quanto
iriam custar as promessas de campanha do candidato democrata. Outro jogo
republicano mostra Kerry num combate de boxe consigo próprio, satirizando as
mudanças de opinião do senador. Há ainda um game mais bizarro e que permite
ao utente que se faça passar por George W. Bush convertido em 007 e
protegendo a rainha Isabel II num atentado em Londres.
ANIMAIS. A campanha presidencial chegou ao reino animal. Prova disso são os
últimos vídeos de propaganda lançados pelas campanhas de George W. Bush e
John Kerry. O vídeo republicano mostra uma floresta e um grupo de lobos
caminhando entre as árvores e depois esperando em grupo, numa clareira,
enquanto o locutor diz: "Num mundo cada vez mais perigoso (...) John
Kerry e
os liderais do Congresso votaram a favor de um corte de verbas para
operações de inteligência dos EUA. Cortes tão profundos que enfraqueceram
as
defesas dos EUA. E fraquezas atraem aqueles que estão à espera para fazer
mal aos EUA", numa analogia aos lobos esperando para atacar a presa. O vídeo
democrata mostra uma águia, símbolo dos EUA e John Kerry garante que, no seu
governo o país "vai ter sempre os mais fortes militares. Para que os EUA
sejam mais seguros, nos não podemos ficar sozinhos no mundo (...) eu vou
fazer
com que a política externa volte a seguir os valores que nos permitiram ter
o respeito mundial".
DESPESAS. A Convenção Republicana que aclamou George W. Bush como candidato
do partido a Casa Branca e decorreu durante quatro dias no Madison Square
Garden, em New York, custou mais de 154 milhões de dólares e entrou para a
história como a mais cara de sempre nos EUA. E as viagens de campanha de Bush
também deverão entrar para a história, tem viajado para toda a parte e
só na Pensilvania esteve 17 vezes nas últimas semanas. São centenas de
horas
a viajar e no Air Force One cada hora de voo são 50 mil dólares.
DESCULPAS. A mulher do candidato democrata à Casa Branca teve que pedir
desculpa à primeira-dama Laura Bush após criticas feitas numa entrevista a
um jornal. "Não sei se ela alguma vez teve algum emprego de verdade",
disse
Teresa Heinz Kerry, 66 anos aos USA Today. Laura Bush, 57 anos, tabalhou
nove anos como bibliotecária numa escola e, após a publicação da
entrevista,
Teresa Kerry decidiu desculpar-se. Na verdade, ser bibliotecária e mulher de
George W. Bush não é um trabalho fácil.
SUSPEITAS. O que era o vulto nas costas do casaco do presidente Bush no
primeiro debate presidencial que teve lugar em Miami? Segundo alguns
jornais, o vulto rectangular vísivel entre as omoplatas de George W. Bush
era um receptor de rádio que transmitia as respostas de um assessor para um
pequeno auscultador dissimulado no ouvido do presidente. A Casa Branca e os
responsáveis pela campanha republicana viram-se inundados de telefonemas e
desmentiram. Bush saiu-se melhor no terceiro debate e os seus assessores
disseram que foi por ter falado com o coração. Nas duas vezes anteriores,
presume-se, falou com o cérebro e foi a pobreza que se sabe...
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