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Ganha Kerry, já se sabe
Escrevo terça-feira, 2 de Novembro de 2004, dia de eleições presidenciais
nos EUA e espero que se decida hoje quem será o próximo inquilino da Casa
Branca, pois já não aguento mais as previsões dos analistas da TV e os
candidatos, John Kerry e George W. Bush, prometendo caçar os terroristas de
todo o mundo e não conseguem sequer acabar com a ladroagem de Washington.
A primeira coisa que fiz mal saí de casa esta manhã foi votar. Voto na
paróquia de St. Andrews, Belleville Road, New Bedford. São todos vizinhos,
eleitores, damas que fornecem o boletim e dão baixa nos cadernos eleitorais
e até o polícia que assegura a ordem do escrutínio. Não troquei impressões
com ninguém, mas aposto John Kerry foi o mais votado na Belleville Road,
aliás como em toda a cidade, em todo o estado de Massachusetts e, espero, em
todo o país.
Espero que não se repita a bagunça de há quatro anos na Florida, os
problemas nas máquinas de voto, bloqueio ao voto negro, as contagens e
recontagens e só 40 dias depois soubemos que ganhara Bush, numa decisão do
Supremo Tribunal e embora o candidato democrata, Al Gore, tivesse recebido
mais votos populares a nível nacional.
O velho ideal de "um homem, um voto" não vigora propriamente no país
campeão
das democracias. Os EUA são uma união de estados autónomos cada um com as
suas eleições independentes. As eleições não são federais, cada cidade
tem
os seus boletins de voto, até mesmo para presidente, embora os candidatos
sejam escolhidos dentre uma mesma lista em todo o país. O presidente é
eleito com os votos dos cidadãos, mas a última palavra cabe a um Colégio
Eleitoral que os pais da pátria criaram para preservar o poder dos estados
menores.
Cada estado tem direito a um determinado número de delegados. O estado de
New Hampshire, por exemplo, tem quatro delegados, o mesmo número que Nevada,
um estado com dimensões territoriais maiores. De certo modo consegue-se um
equilibrio do peso de cada um dos 50 estados relativamente ao número de
delegados, cujo total é 538.
Para ser eleito, o candidato presidencial precisa obter no mínimo 270 votos
do Colégio Eleitoral. Em 15 estados existe a obrigação de os delegados
votarem no candidato vencedor no voto popular, nos outros 35 não existe esta
obrigação, mas em geral espera-se que os delegados respeitem este princípio.
Na eleição de 2000, embora Gore tivesse obtido maior número de votos
populares noutros pontos do país, Bush venceu na Florida por uma pequena
margem de 537 votos populares que lhe valeram 27 votos nos Colégio Eleitoral
e a Casa Branca.
Prevenindo novas baralhadas, os democratas têm este ano 10 mil advogados
prontos a investigar eventuais irregularidades e na Florida já está a ser
investigado o desaparecimento de 60 mil votos enviados aos eleitores que
pediram para votar pelo correio no condado de Broward, onde fica a cidade de
Fort Lauderdale, a norte de Miami. No Oregon, Nevada e o caso já está nos
tribunais.
Mais do que Kerry contra Bush, esta eleição é de Bush contra Bush. A
verdade
é que ninguém se lembra de um presidente que tenha contra si tanta coisa e
mesmo assim tenha conseguido obter tão bons resultados nas sondagens.
Baseado em argumentos que não passaram de falácias, Bush lançou o país num
conflito armado evitável; não conseguiu criar postos de trabalho, pelo
contrário, oito milhões de americanos ficaram sem emprego durante o seu
mandato; agravou o défice federal; é alvo de piadas seja pelas acções que
toma, seja pelas frases que diz, que se tornaram conhecidas como bushismos e
que deram origem a uma série de livros.
Durante a campanha, Bush foi um robot de si próprio, repetiu acusações que
fizera há quatro anos a Gore. Só falou em Deus, gays e aborto porque não
tinha nada a dizer a respeito de empregos, saúde e educação.
O país nunca esteve tão dividido, há gente que detesta Bush e gente que
adora Bush, sobretudo camadas populares e ignorantes, encantadas com um
presidente que admite candidamente ser ignorante.
Os republicanos gastaram muitos milhões na lavagem cerebral da população
mas
se Bush for reeleito a única coisa que mudará no país será a cor do nível
oficial de alerta.
Nestas eleições há 35 milhões de novos eleitores, dos quais 20 milhões de
jovens e em princípio serão votos para Kerry. Historicamente, a participação
política dos jovens tem sido diminuta, pois só passaram a ter direito a voto
a partir dos 18 anos na eleição presidencial de 1972.
Este ano, 58% dos jovens eleitores registaram-se para votar, a mais elevada
percentagem desde 1992, quando Bill Clinton foi eleito para o primeiro
mandato. Segundo a Universidade de Harvard, há nove milhões de estudantes
universitários recenseados.
Os latinos também se registaram em grande número e há cerca de 10 milhões
inscristos, 45% como democratas e 24% como republicanos.
Em 2000, foram às urnas 5,9 milhões de latinos, 65% votaram em Gore e 32% em
Bush, que este ano deverá ser penalizado por não ter cumprido nenhuma
promessa eleitoral.
Há quatro anos, o tempo de espera para receber o "green card" era
em média
14 meses e, na esperança de angariar votos entre os latinos, o então
governador do Texas garantiu que ninguém teria que esperar mais de seis
meses, mas o tempo de espera é agora de 33 meses.
Kerry também deve receber a maioria dos votos dos eleitores negros, 66% dos
quais são democratas e apenas 7% são republicanos.
Os republicanos apenas ganharam terreno entre os eleitores brancos
protestantes, 51% dos quais tencionam votar republicano e 22% democrata.
Mais de 71% da população americana com direito a voto está registada para
votar, o índice mais alto desde 1964 e, embora o voto não seja obrigatório,
não deverá haver muitas abstenções.
Segundo a Reuters, Kerry tem apoio das mulheres, católicas, solteiros,
hispânicos e eleitores de 18 a 24 anos, a chamada ³Geração Y², que nasceu
entre 1978 e 1983, mas para chegar à chegar à Casa Branca precisa ganhar na
Florida, Pensilvânia e Ohio.
Bush deve levar a melhor na Florida, cujo governador é irmão do presidente e
é uma espécie de coutada eleitoral da família.
A Pensilvânia tem um passado democrata e poderá estar com o senador, embora
Bush lá tenha estado 41 vezes nas últimas semanas, tanto que mais parecia
concorrer a governador estadual.
Ohio é que está complicado. Nenhum presidente republicano chegou à Casa
Branca sem ganhar Ohio e, desde 1850, o estado votou no vencedor em 90% das
eleições. Foi Ohio que registou o maior número de novos eleitores e é também
o estado que perdeu mais empregos durante os quatro anos de Bush. Pode haver
surpresas.
Penso que todos os americanos deveriam ter visto o filme "Farenheit
9/11",
de Michael Moore, ajuda a formar opinião sobre Bush. Há uma cena incrível
no
começo do filme gravada em vídeo pelos jornalistas que acompanhavam a visita
do presidente a uma escola infantil dia 11 de Setembro de 2001 no momento
exacto em que começava o terrível ataque ao World Trade Center. Por duas
vezes surgiu o chefe de gabinete segredando-lhe qualquer coisa ao ouvido e o
presidente permanece despreocupadamente a ler histórias para os meninos e à
espera de instruções. Qualquer de nós teria no mínimo corrido à televisão
mais próxima para tentar saber o que se estava a passar, mas Bush continuou
a ler histórias infantis, meio pateta.
Se Kerry se tornar o 44º presidente dos EUA esperamos que uma nova equipa
democrata se instale na Avenida Constitution, onde, no meio de um quarteirão
em que é proibido estacionar, fica a Casa Branca.
Já estou cansado de previsões, mas a útima que ouvi é que a eleição pode
terminar empatada no Colégio Eleitoral, com 289 delegados para cada lado. Se
isso acontecer. O Senado escolherá o presidente e será Bush, enquanto a
Câmara dos Representantes escolherá o vice-presidente e será John Edwards,
se a maioria for democrata.
Uma tradição diz que o candidato cuja máscara se vender mais no dia 31 de
Outubro, dia de Halloween, vence as eleições. Sendo assim, ganha Bush, que
vendeu mais 10%.
Mas dou mais crédito à crença surgida em 1933, quando a equipa de futebol
dos Boston Braves se tornou nos Redskins e mudou para Washington, DC: se a
equipa ganhar o último jogo em casa antes das eleições o candidato que está
na Casa Branca é reeleito. Aconteceu a primeira vez em 1936, com Franklin
Roosevelt; em 2000, os Redskins ganharam aos Titans, do Tennessee e George
W. Bush derrotou Al Gore, que era vice-presidente.
No passado domingo, os Redskins perderam com os Green Bay Packers, como tal
John Kerry será o vencedor.
Kerry é de Boston e este ano a cidade está em grande: os Red Sox ganharam a
Serie Mundial do beisebol, matando um jejum de 86 anos e os Patriots vão a
caminho de mais um Superbowl do futebol americano. Portanto, como diz uma
canção em voga lá nas ilhas, ganha Kerry, já se sabe.
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Dura Lex, Sex Lex
Nestas eleições, os votantes são convidados a pronunciarem-se sobre muitas
propostas de lei submetidas a referendo por legisladores ou pelos próprios
eleitores incluindo uma proposta formulada a 750.000 eleitores em 36
distritos da Câmara de Deputados de Massachusetts pela organização Fathers
and Families, para aprovação de uma lei estabelecendo que os filhos de
casais divorciados ou separados passem igual tempo em casa dos progenitores.
Em onze estados há propostas de lei proibindo o casamento entre pessoas do
mesmo sexo, nomeadamente Ohio, Oregon e Michigan.
Algumas propostas de lei são curiosas, como a que obriga os bares da
Carolina do Sul a vender garrafas miniatura de bebidas alcoólicas.
No Alaska, foi submetida a referendo uma proposta de lei proibindo os
caçadores de utilizarem comida para atrair os ursos negros (castanhos
pode?).
Não faltam leis curiosas e na mesma linha zoológica: em Natachez, Missouri,
é proibido dar cerveja a elefantes; no Michigan, crocodilos não podem ser
amarrados às bocas de incêndio; em Baltimore é ilegal levar um leão ao
cinema e na locaidade de Zion, Illinois, é proibido dar charutos a cães,
gatos e outros animais domésticos; em Fairbanks, Alaska, os alces estão
proibidos de fazerem amor nas ruas da cidade e em Kingsville, no Texas, são
os porcos que não podem fazer sexo na área do aeroporto, não se sabendo o
que acontece aos prevaricadores.
A respeito de sexo, acreditem ou não, ainda vigoram nos EUA leis bizarras:
em Hastings, Nebraska, os hotéis são obrigados a providenciar pijamas
brancos aos hóspedes e nenhum casal poderá fazer amor sem estar devidamente
vestido.
Em Washington D.C., a única posição sexual permitida pela lei é "missionary
style" e qualquer outra está proibida.
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Corpo diplomático
Constou que o Consulado de Portugal em New Bedford poderia estar extinto,
mas não se confirma e ainda bem. O consulado continuará a servir a
comunidade portuguesa da área, só que sem cônsul.
Com efeito, consta que, quando o actual cônsul for transferido, já não será
substituido.
O consulado continuará aberto e prestando todos os serviços como até aqui,
mas deixará de ter cônsul de carreira, ou seja, pessoal do corpo diplomático
e talvez não faça falta.
Como diz Luis Filipe Soares, a maioria dos portugueses ainda pensa que corpo
diplomático é o de alguém que pede educadamente desculpa após dar um
traque.
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