Marcos Baptista Ávila, guitarrista clássico terceirense de visita a New
Bedford

"Gosto de criar, produzir sons e compor sequências harmónicas que sensibilizam as pessoas"

Marcos Baptista Ávila é um jovem músico natural da ilha Terceira, que se
encontra de visita a esta área. A guitarra clássica tem sido o seu
passaporte nas viagens que tem efectuado pelos Açores, Portugal Continental
e quase toda a Europa.

Um homem que vive exclusivamente para a música. Falou-nos de si, dos seus
projectos, das suas "viagens" e experiências acumuladas nesse mundo.

"Comecei a tocar guitarra desde miúdo por incentivo de meu pai, Carlos
Baptista, um dos grandes guitarristas dos Açores, vivendo nesse mundo da
música, através da guitarra portuguesa e da guitarra clássica, tocando
coisas simples entre amigos", começou por nos dizer Marcos Baptista Ávila,
jovem natural da ilha Terceira, e que resolveu dar uma saltada a New Bedford
para visitar alguns amigos permanecendo aqui durante alguma temporada.

"Mais tarde fui estudar guitarra clássica no Conservatório de Angra do
Heroísmo e depois ingressei na Força Aérea como cabo especialista, mas
sempre tocando guitarra clássica, uma vez que a música é parte da minha vida
e a minha companheira é a guitarra, até mesmo quando comecei a aprender
outros instrumentos no conservatório, nomeadamente o violoncelo em S.
Miguel, onde permanecei durante alguma temporada tocando em diversos
pequenos concertos mais intimistas", sublinha este este talentoso músico e
instrumentista terceirense, que já tocou ao lado de grandes instrumentistas
portugueses que trabalharam com conhecidos artistas, nomeadamente Vítor
Espadinha e Rão Kyao e outros da área do jazz.

O mundo açoriano tornou-se muito pequeno para alargar os seus conhecimentos
no mundo da música, sobretudo na vertente técnica e Marcos decide sair do
país.

"Depois fui viver para a Alemanha durante quatro anos a aprender engenharia
de som, porque senti vontade de ter conhecimentos mais aprofundados nesta
área, até porque já em São Miguel eu tinha um pequeno estúdio onde fazia as
minhas próprias produções e de bandas locais e isto de produzir sons e saber
utilizá-los sempre me fascinou também. Nesse país aprendi mais coisas sobre
jazz e a tocar guitarra de jazz", salienta Marcos Ávila, que entretanto após
quatro anos regressou aos Açores para mais tarde viver outra experiência.

"Fui para a Europa e vivi em Barcelona durante cerca de dois anos e aqui
aprendi a tocar flamenco já que anteriormente eu tinha umas noções de rumba,
esse género musical mais conhecido nos Gipsy Kings e isso para mim não era
suficiente, eu queria o verdadeiro flamenco, as bolarias o tango; aprofundei
muito os meus conhecimentos a nível de flamenco", sublinha.

Depois foi a experiência de conhecer outros países da Europa, nomeadamente a
Itália e a Grécia.

"Aqui fiz a experiência de tocar na rua, onde se vê muita arte, até mesmo
indivíduos musicalmente graduados, do topo de gama, tanto a nível do jazz
como da música clássica, de flamenco, etc., e constatei que na rua poderia
tentar qualquer coisa e então corri a Europa quase toda a tocar na rua,
nomeadamente na Grécia. Eu adoro os sons gregos, onde se nota influência
árabe mas também nota-se qualquer influência de flamenco, se bem que os
instrumentos mudam. Achei a Grécia muito parecida com Portugal,
designadamente a nível da gastronomia e do modo de viver das pessoas, da sua
hospitalidade, amabilidade e simplicidade, na realidade dois extremos da
Europa muito parecidos um com o outro", esclarece Marcos Ávila.

O regresso à sua ilha Terceira tinha de acontecer e aconteceu, onde
trabalhou mais de perto com o seu pai sobretudo no aspecto da produção.

"Na ilha Terceira fiz muitas produções, ajudei o meu pai, quer na produção
de bandas de rock como em projectos de fado e outros géneros musicais como
ainda a tocar e a acompanhar outros músicos nas mais diversas áreas da
música, uma vez que gosto de tocar de tudo um pouco, tanto clássicos como
temas norte-americanos antigos, flamenco, jazz, enfim, faço de tudo um pouco
e sobretudo divagar no violão, criar sons, compor sequências harmónicas que
funcionam e sensibilizam as pessoas", explica.

Uma outra questão abordada durante a nossa conversa na redacção do PT, teve
a ver com eventuais apoios e o espaço propício e promissor que os Açores
poderão eventualmente proporcionar aos músicos... aos verdadeiros músicos. A
verdade é que muitos artistas, nomeadamente os músicos, reclamam falta de
condições, de apoios e de potencialidades para cultivar e desenvolver a sua
arte naquelas ilhas do Atlântico. Marcos Ávila percebe a pergunta e explica:

"Obviamente que o Governo Regional dos Açores dá o que pode aos seus músicos
e estes todos reclamam mais, mas quando a música é boa o músico meche
consigo e consegue dar o salto. Às vezes a frustração do açoriano é outra,
vive numa ilha fechada e com pouco espaço para exprimir e mostrar a sua
arte, a terra é pequena, mas penso que os músicos devem preocupar-se mais em
aperfeiçoar-se e trabalhar mais arduamente do que chamar a atenção,
criticar, etc., etc.".

Marcos Ávila Baptista actuou já com bandas e artistas em Portugal
Continental, em palcos e eventos de maior dimensão, nomeadamente no Centro
Cultural de Belém, no Festival do Seixal e na TV, no Big Show Sic, tocando a
guitarra eléctrica.

"Gostei da experiência, demos muitos concertos, gosto da guitarra eléctrica
e do rock mas fica muito por ali e eu não gosto de ficar dependende de um
amplificador ou de uma banda para tocar e resolvi voltar às origens, com o
meu violão", confidencia-nos Marcos, ele que por vezes actua algumas noites
no Inner Bay, em New Bedford.

Entre os vários projectos em que produziu e participou como instrumentista,
o nosso entrevistado menciona um de que se orgulha. Trata-se dos "Heranças",
gravado ao vivo na Casa da Ribeira, na ilha Terceira, um CD de música
regional terceirense excelentemente executado, "de alma e coração, com uma
expressão notável, recheado de um cariz musicalidade de tal maneira que as
pessoas são mesmo obrigadas a sentir as emoções profundas ali sugeridas",
explica, adiantando que a música tradicional açoriana, em especial a da ilha
Terceira é de um cariz musical muito rico.

"Já corri vários países da Europa, como atrás mencionei, ouvi muita música,
quase toda ela mais de cariz folclórico, mas a nossa música tradicional é
muito sentimental, muito sentida e tem a ver com a saudade e o sentimento
obrigatoriamente traz música bonita, onde naturalmente sobressai mais a
melodia", salienta.

Outro dos projectos a que esteve ligado, juntamente com seu pai, foi o disco
de Eglantina Canha, numa abordagem à música tradicional terceirense
incluindo alguns clássicos do fado. Aliás, foi através de Eglantina,
imigrante açoriana que reside em New Bedford, que viemos a conhecer este
talentoso músico açoriano. "Fiz vozes para este trabalho, que foi totalmente
produzido por mim e em que meu pai participou como guitarrista".

Marcos Ávila Baptista, um homem que vive da música, vive com ela e para ela
e há-de morrer assim. Atento ao seu pequeno e íntimo mundo. "Até mesmo num
convívio de amigos gosto de gravar esses momentos, estou atento a tudo e
isto é para mim uma forma de vida", conclui.



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