O senhor Reinaldo Melquíades é um respeitável cidadão natural da ilha
Terceira e com residência fixa em New Bedford, a tal a que chamam a cidade
das baleias, porque tem um museu desses mamíferos e, reza a história,
muitos
dos nossos apareceram por aí de arpão a enfiar nelas, coisas que hoje não
se
fazem, o que acho muito bem. Disso de baleias até percebo eu, até porque
as
Capelas, onde eu ia ver os filmes do Kirk Douglas ou da querida Sofia Loren,
era também conhecida por terra das baleias e até por lá se rodou o filme
"Quando o Mar Galgou a Terra".
Óh, e por falar da baleia, lembro-me, rapazote ainda, que o tio Manuel
Machado, que morava na estrada, tinha a fama de ser o mais destemido dos
arpoadores. Tinha tanta força, contava o Mané da Barqueira, que um dia
estava tão zangado no quintal à espera do sinal de marchar para o mar,
atirou o arpão por cima das árvores e este foi parar direitinho no
traseiro
do "gueixo" do José da Ernestina, furando o bicho de lado a lado.
Imagine-se o bicho aos saltos, estrada fora, e a tia Maricotas aos gritos
dizendo que tinha sido o bordão de São José a castigar o marido que tinha
tomado uma grande travadeira no dia antes.
Bem, não sei o que me passou pela tóla para entrar nesta coisa das baleias,
mas, dizia eu, o Reinaldo Melquíades, benfiquista ferrenho, que nos seus
tempos de jovem foi árbitro na sua terra, com proibição de apitar o
Angrense
porque senão a outra equipa arriscava-se a perder por seis ou sete, tem a
mania das estatísticas e um destes dias, só porque falei no exageradíssimo
número de brasileiros no futebol europeu, com maior incidência em
Portugal,
apareceu-me com os seus números em dia, ou seja com o número de
brasileiros
que militam na Superliga e Divisão de Honra.
Claro que o sr. Melquíades não teve muito trabalho. Foi só questão de
"compendiar" a coisada que vem nos cadernos do jornal "A
Bola".
Seja como for, teve a paciência de fazer tudo isto, só para dizer que a
equipa que menos gosta neste mundo, o maldito F. C. do Porto, tem no seu
plantel nada mais nada menos do que oito brasileiros, um angolano, um grego,
e um sul-africano. Claro que agora tem de juntar mais o Leandro, que,
segundo dizem, vai fazer golos ao Benfica como antes faziam o Branco ou o
Geraldão. Dizem, até, que o pontapé do Leandro tem tanta força como o
braço
direito do Manuel Machado, o tal das baleias.
Mas a estatística do homem da Terceira vem realmente lembrar a disparatada
quantidade de estrangeiros em Portugal. A ver pelas mesmas, mais um ou menos
um porque o início da prova já lá vai, os 18 clubes da I Liga increveram
nos
seus respectivos quadros 266 portugueses, 117 brasileiros, 10 franceses, 5
espanhóis, 4 chilenos, 4 angolanos e mais alguns de outras nacionalidades,
como se pode pode ver no quadro abaixo.
Note-se, por exemplo, que o Nacional da Madeira é a equipa com maior número
de brasileiros (14), seguida do vizinho Marítimo (9).
Lembre-se, agora, que a época passada o Nacional teve 16 brasileiros, tendo
entrado em campo algumas vezes com 9 titulares do país irmão. Fez, como se
sabe, a melhor época de sempre e embolsou uma boa quantia com vendas feitas
no final da temporada. O Marítimo está na mesma leva e se Deus fosse
madeirense e amigo do João Jardim estava na frente do campeonato.
Também o F.C. do Porto tem sabido tirar grandes dividendos da presença
brasileira em Portugal. Pelo clube das Antas têm passado alguns brasileiros
de eleição e o último deles acaba de render uma razoula cheia de dinheiro
aos cofres do clube comandado por Pinto da Costa.
Mas a influência brasileira no futebol português tem o seu lado negro.
Para
os jovens que despontam no futebol nacional torna-se extremamente difícil
chegar às equipas da I Liga e mesmo à Divisão de Honra, também ela com
60
brasileiros. São bons e por vezes relativamente baratos, optando os clubes
por essa aposta mais rápida e de frutos imediatos do que investir e esperar
pela formação nas suas próprias escolas. É preciso ser-se realmente um
jovem
de talento fora do comum para atingir o estrelato, casos por exemplo de
Cristiano Ronaldo, Quaresma, Hugo Viana, Manuel Fernandes, Helder Postiga,
Hugo Almeida e outros que, felizmente, ainda se vão impondo nesta competição
renhida por um lugar ao sol.
Outro pormenor que muitos vão esquecendo é que com a invasão brasileira
desapareceu o filão de África outrora tão produtivo para equipas como o
Benfica e Sporting. Será que em Angola e Moçambique já não se joga
à bola?
Será que Eusébio, Coluna, Costa Pereira, Juca, Mário Wilson, Nené, Rui
Rodrigues, Hilário, Jordão, Dinis, Arnaldo da CUF, Jacinto João e irmãos
Conceição do Setúbal, Reinaldo, Ferreira Pinto, Vata, Matine e muitos
outros
foram um acaso do destino ou apenas fruto da colonização portuguesa?
Segundo as estatísticas do Melquíades são apenas quatro os angolanos em
Portugal e o mais famoso deles, Pedro Mantorras, talvez esteja,
infortunadamente, perdido para a modalidade. De Moçambique, veja-se, apenas
um jogador inscrito na I Liga do futebol português. Incrível, mas é
verdade!
Aqui fica então o contributo do meu estimadíssimo amigo Melquíades
e a
certeza que o seu, dele, Benfica, ainda não é desta que vai ser campeão,
a
ver pelo andar da carruagem. Claro que há sempre a hipótese chamada
Robinho,
que vem para o Benfica por amor à camisola, deixando para trás os milhões
do
Real e outros algozes da Europa que andam atrás dele.
Quanto ao Angrense, sua paixão de criança, perdeu um destes dias com o meu
Santo António, no campo das Felgueiras, em frente à casa do João Vazio.
Se
fosse no tempo em que era árbitro, também eu o proibia de dirigir tal
encontro. É que, faz agora uns anos, o Melquíades estava na festa dos
Madeiras, em New Bedford, quando lhe apareceu pela frente um conterrâneo
dos
tempos das touradas e do futebol.
Fiquei de lado, à espreita, e testemunhei o grande abraço do tal amigalhaço
ao Melquíades.
Braços muito abertos e num vozeirão para que todos ouvissem exclamou:
"Éh óme, quando apitavas o nosso Angrense enfeitavas aquilo muito bem
enfeitadinho e a gente lá conseguia ganhar alguma coisa. Agora, até com o
"estupor" do St.o António a gente perde. Ómessa!!!"