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Cuba Libre & "bagaceiras"
A RTP Internacional transmitiu a semana passada o documentário "Madeirenses
Errantes", a saga de dois mil madeirenses que, em meados do século XIX,
imigraram para Trinidad e Tobago e um bom número dos quais veio depois para
os EUA, fixando-se no Illinois.
O documentário é baseado num livro que o jornalista Ferreira Fernandes
publicou o ano passado.
Tudo começa em 1838, com a chegada ao Funchal do médico-missionário Robert
Reid Kalley, da Igreja Presbiteriana da Escócia e a mulher, Margaret Kally.
O destino do casal era a China mas, devido à frágil saúde da esposa, o
missionário optou pela Madeira, talvez longe de imaginar que se tornaria
pioneiro do protestantismo em Portugal.
Kalley começou por ir ao continente aprender a língua portuguesa e obter
licença para a prática da medicina. Lançou depois um importante ministério
social e evangélico: abriu um pequeno hospital de doze camas, criou uma rede
de 20 escolas de ensino gratuito onde se matricularam 2.500 pessoas e às
quais deu bíblias.
Pelo facto de andarem sempre com o livro sagrado, os protestantes ficaram
popularmente conhecidos por "bíblias" e isso fez a diferença, os
católicos
eram na generalidade analfabetos.
A princípio, Kalley foi bem acolhido, até o bispo se tornou seu amigo, mas a
conversão de fiéis provocou a ira dos guardiões da tradição católica da
ilha.
Em 1843, o missionário esteve seis meses preso e os seus seguidores foram
acusados de heresia e proibidos de possuir ou ler a bíblia, a mesma edição
que D. Maria II tinha aprovado por decreto real para uso nos Açores.
A Inquisição tinha sido abolida em 1821, mas a prática de outras religiões
que não a católica continuava proibida em Portugal. E continuou até 1974.
Em Agosto de 1846, a casa dos Kalley foi incendiada e, segundo se conta, o
missionário teve que se disfarçar para poder esconder-se num navio, enquanto
a mulher e outros familiares se refugiavam no consulado britânico.
Esta agitação social coincidia com uma forte crise económica e social na
Madeira. O comércio do vinho, base da economia da ilha, estava em declínio e
o desemprego aumentava.
Por outro lado, o governo inglês andava ao tempo a recrutar trabalhadores
para as suas colónias de Trinidad e Tobago, nas Caraíbas, onde a escravatura
tinha sido abolida em 1834.
Há notícia de que, precisamente em 1834, imigraram por contrato para
Trinidad 24 açorianos da ilha do Faial, que acabaram por desaparecer nas
plantações de cana-de-açúcar sem deixar rasto, para além de duas petições
endereçadas em 1835 ao governador no sentido de regressarem aos Açores.
Para além do problema religioso os madeirenses tinham que imigrar por
sobrevivência.
Temos portanto duas vagas de madeirenses a imigrar para a Trinidad a partir
de 1846, uma composta por protestantes fugidos à perseguição religiosa e a
outra por camponeses que fugiam à miséria.
Os primeiros 219 madeirenses chegaram voluntariamente a Trinidad a 9 de Maio
de 1846, onze anos depois da chegada dos faialenses, viajando no navio
Senator, fretado pelos donos das fazendas.
Quatro meses depois, a 16 de Setembro de 1846, o navio William, de Glasgow,
aportava a Port-of Spain (a capital de Trinidad) com o primeiro grupo de 177
protestantes e seguiram-se mais dois mil.
Os presbiterianos dedicaram-se ao negócio e os católicos à agricultura. De
início as duas comunidades ignoraram-se e proibiam-se os casamentos ou a
formação de sociedades conjuntas, mas eram todos madeirenses e acabaram por
se entender partilhando tradições comuns.
Com um milhão de habitantes, Trinidad e Tobago é uma república de ilhas que
se tornou independente da Grã Bretanha em 1962. É terra de carnaval e de
festas, onde os madeirenses deixaram marcas, nomeadamente a carne em vinha
d¹alhos que se tornou prato de Natal.
Alguns madeirenses tornaram-se produtores de rum, bebida destilada de
cana-de-açúcar, por isso chamada "vinho de açúcar" e que serviu
de bebida
medicinal e até moeda para a troca de escravos.
Surgido em Cuba, o rum é hoje produzido e consumido em todo o mundo, mas o
rum escuro de Trinidad e Tobago é o mais forte e encorporado por ser
envelhecido em tonéis de carvalho por diversos anos, segundo práticas
introduzidas pelos madeirenses.
O rei do rum foi Joseph Bento ("JB") Fernandes, nascido a 31 de Maio
em
Port-au-Prince, filho de Gregório Fernandes, natural do Funchal e chegado a
Trinidad em 1870.
Gregorio destilava um rum igual a tantos outros que se faziam na ilha, mas
teve visão empresarial. Quando a palavra "franchising" ainda não
tinha sido
sequer inventada, ajudou outros portugueses a tornarem-se lojistas de rum e
fornecia-lhes o produto, e fez a maior fortuna da ilha.
Diz-se que "JB" inventou o Cuba Libre (duas colheres de sumo de limão,
cubos
de gelo, uma dose de rum e meia lata de Coca-Cola), mas não é verdade.
No anedotário dos drinques consta que o Cuba Libre surgiu em Cuba durante a
guerra de independência contra a Espanha (1895-1898). Os soldados
independentistas tomavam a refrescante bebida e erguiam um brinde, gritando
o brado da independência: "Cuba Libre!"
Ao tempo já havia Coca-Cola, que foi lançada em 1886, mas a a realidade é
mais prosaica: Cuba Libre foi criada pelos americanos e não pelos cubanos,
num local que se chamava Havana¹s American Bar. O nome foi com efeito dado
em homenagem ao protesto pró-independência de Cuba, que os EUA apoiaram.
Em 1973, Fernandes vendeu a empresa à multinaconal Bacardi e criou a Joseph
B. Fernandes Foundation para apoiar obras em Trinidad, Madeira e comunidade
portuguesas.
Nos EUA, a Portuguese Heritage Scholarship Foundation e o Clube Madeirense
S.S. Sacramento, de New Bedford, atribuem anualmente bolsas de estudo
instituidas pela "JB" Foundation.
Ferreira Fernandes entrevistou descendentes dos "exilados",
incluindo o
arquitecto Stephen Mendes, tio de Sam Mendes, realizador premiado com o
Oscar por "American Beauty".
Alfred Hubert Mendes, autor das novelas "Black Fauns" e "Pitch
Lale", é
considerado um dos pais da literatura das Caraíbas. Era filho de
presbiterianos e teve por sua vez dois filhos, um dos quais, Peter Mendes,
professor de literatura numa universidade britânica, é o pai de Sam Mendes.
A sorte não sorriu a todos os madeirenses em Trinidad e, graças à American
Protestant Society, uns quantos conseguiram que a American Hemp Company, do
Illionois, os trouxesse para os EUA.
O primeiro grupo de 260 pessoas chegou a New York na primavera de 1849, mas
a companhia dera o dito por não dito e ficaram à deriva.
Contudo, a saga dos "exilados" tinha sido largamente noticiada pela
imprensa
norte-americana e o povo do Illionois decidiu honrar o compromisso da
companhia e acolheu os madeirenses.
Um primeiro grupo de 130 pessoas instalou-se na cidade de Springfield em
Novembro de 1849 e grupo semelhante na vizinha cidade de Jacksonville.
Os madeirenses deram-se bem nas pradarias do Illionois, ou pelo menos muito
melhor do que nas quentes e húmidas plantações de cana de cacau das
Caraíbas.
Pouco tempo depois, dois terços dos que tinham ido para Trinidad e Tobago já
estavam no Illinois, onde constituiam uma comunidade de mil pessoas em 1855
e que continuava a aumentar com a chegada de mais "exilados", pois
bastava
dizer que eram protestantes e vítimas de perseguições religiosas para serem
admitidos.
A área onde os madeirenses se instalaram ficou conhecida como "Portuguese
Hill" e há notícia de que tinha duas igrejas protestantes e uma católica,
construída em 1856. Os católicos também imigravam, fazendo-se passar por
protestantes.
Em Springfield vivia ao tempo o advogado Abraham Lincoln e muitos
portugueses tiveram relações com o futuro presidente, que em 1858 admitiu
como cozinheira Frances Affonsa, emprestou dinheiro a juros a Joseph J.
Alves e Ritta Angelica da Silva e a futura primeira-dama, Mary Todd, vestia
bordados madeirenses.
As plantações de cana que tinham levado os madeirenses para as Caraíbas
atrairam-nos também ao então reino do Hawaii, onde a cultura terá sido
introduzida por um tal Antone Silva, presumivelmente português.
Jason Perry, representante consular de Portugal, aconselhou o recrutamento
de mão de obra nos Açores e na Madeira.
Em 1878, chegou a Honolulu a barca Priscilla, com 63 homens, 16 mulheres e
35 crianças que tinham deixado o Funchal cinco meses antes. No ano seguinte
chegaram 400, em 1881 mais 800 e nos dez anos seguintes mais 8.000. Em 1900,
viviam no Hawaii 12.000 portugueses, que representava três quartos dos
27.000 brancos do arquipélago.
A leva manteve-se até 1913, com a chegada do navio Ascot, com 1.283
imigrantes portugueses, mas a imigração acabou com a I Guerra Mundial.
Os portugueses eram maioritariamente católicos e isso terá levado os
missionários protestantes a recorrer à colónia protestante madeirense no
Illinois, pedindo pastores que falassem português.
Em 1890 chegaram a Honolulu os três primeiros missionários de origem
portuguesa, descendentes dos que tinham ido para Trinidad e que traziam na
bagagem os salmos traduzidos 60 anos antes para português por Robert Kalley.
Tempos depois era construida uma capela que se tornou a Igreja Evangélica
Portuguesa, mas os luso-havaianos continuaram maioritariamente católicos e
um padre madeirense, Stephen Peter Alencastre, ordenado em 1902, em
Honolulu, tornou-se o primeiro bispo de Hawaii em 1924.
Os católicos não perdoaram a tentativa de evangelização e passaram a
chamar
"bagaceiras" aos compatriotas protestantes. O termo é pejorativo
significa
plebe, ralé.
Curiosamente, a palavra "bagasse" entrou na gíria local, mas talvez
os
havaianos não saibam o significado.
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Morreram 101 jornalistas em 2004
Em 2004 morreram 101 jornalistas, o maior número dos últimos dez anos,
segundo a Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), para quem 2005
poderá vir a ser o pior anos de sempre para os profissionais dos mídia
devido ao agravamento da situação no Iraque. As mortes mais recentes foram
no final de Dezembro na Nicarágua e nas Filipinas.
Contudo, o Iraque, onde morreram 23 repórteres e pessoal técnico de mídia
foi considerado o local mais perigoso. A maioria dos mortos eram repórteres
iraquianos que trabalhavam para organizações americanas. Segundo Aldan
White, secretário da FIJ, ³a segurança da imprensa atingiu um nível
intolerável e tem de ser resolvida com urgência². Essa questão será um
dos
temas do Encontro Internacional para a Segurança da Imprensa (INSI), que se
realiza a 17 de Novembro em Vilamoura, no Algarve.
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Reticências...
As pessoas verticais tornam-se um alvo fácil para os maldizentes... Aprenda
com os erros dos outros, nunca viverá o suficiente para os repetir a todos...
Terá menos hipóteses de cair em tentações se não se aproximar delas... Se
elogiar o pintor quando vê um bonito quadro, deve felicitar o Criador quando
vir as belezas do mundo... Não reze por um fardo leve, reze antes por umas
costas fortes... Se levar a vida a correr sem dar tempo a Deus, este mundo
será como um hospital, um lugar para adoecer e morrer...
Ferreira Moreno
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