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A verdade sobre o Carnaval do meu tempo!... Ainda estou bem lembrado, Daquele tempo passado, Da festa e da petizada. Do modo de entrudar, As maneiras de brincar, Da seringa e caldeirada! No meu tempo o Carnaval Era uma festa anual Com festejos a granel Cheia de alegria e vida, Festa muito divertida E longa em S. Miguel! Tradição já dos antigos, Após o Dia de Amigos, (Sempre numa quinta-feira!) Vem amigas e compadres, Domingo magro e comadres, Numa pura brincadeira. Mas o que nos lembra mais São os três dias finais D¹um gozo piramidal. Três dias de barafunda, Domingo Gordo e Segunda E Terça de Carnaval! Daí se confraterniza Na quinta-feira precisa, Os amigos, no seu dia, As amigas, tal e qual E os outros em geral Têm o dia da folia! Uns serões bem divertidos, Amigos, todos unidos, Nas ruas, casas, salões, Com as belas petiscadas, E também as mal-assadas, As filhós e coscorões. À noite eram os serões, Festas, bailes nos salões, Expondo os lindos costumes, Com cocotes, serpentinas E os rapazes, nas meninas Usavam o lança-perfumes. E nos dias mais lembrados Pelas ruas mascarados Homens, mulheres e crianças E as danças regionais De cadarços e outras mais, Que lindas aquelas danças! Correndo todo o local Lá ia o Rei Carnaval Com a rainha a seu lado, Mantendo o seu personagem Dentro d¹uma carruagem Num coche improvisado. E os assaltos combinados, Onde íamos mascarados Às casas bem conhecidas. Pouca despesa lhes dávamos Porque nós é que levávamos Desde os doces às bebidas. Eram lindas meus senhores As batalhas de flores No Campo de São Francisco. Lá dentro, batalhas finas, Limas, flores, serpentinas, Mas cá fora era o corisco! Ninguém entendia nada, A seringa, a caldeirada E a lima de parafina, Os ovos de casca dura, As sacas de serradura, Ou areia da mais fina. Na terça-feira eram certas As camionetas abertas Com bidões d¹água e mangueira, Andar por todas as bandas Esguichando p¹rás varandas A refrescar as sopeiras. E lá pelas freguesias Brincavam naqueles dias, A Maria mais o Zé Usando além d¹alguns pós De farinha ou de arroz Fuligem da chaminé. À noite, no Coliseu, Ou sala do Ateneu, Haviam por sua vez As danças com gente em paca De colarinho e casaca Com laço um quarto p¹ras três! Isto não era p¹rá malta, Era só p¹rá gente alta, Dita alta sociedade. Dos que nas horas chistosas Confundiam as esposas, Trocando o par à vontade! Quanto à malta, neste dia Tal e qual se divertia, Com entrada menos cara, Gozando a noite fora Lá na velha Promotora Ou sala do Santa Clara. Pois dentro destas festanças, Se organizavam danças Com concursos pitorescos De crianças e casais Com trajes regionais E trajes carnavalescos. Também eram muito usados Os bailes de mascarados, Que depois foram proibidos, Porque ao usarem viseira Faziam muita asneira Por vezes bem atrevidos! Nas danças eram usados Além de papéis picados As serpentinas bonitas, Enquanto os pares dançavam, Rodavam e se enrolavam Naquelas bonitas fitas! A festa se prolongava E só quando o sol raiava Se ponha um fim à festa. Bem regados de cerveja, Poucos entravam na igreja Mas tinha a cinza na testa! Hoje, já há algo diferente, Tal como antigamente Juntam-se amigos, amigas, Festejando aqueles dias Com certas patifarias Fora das modas antigas. Tornou-se muito complexo, Em tudo se mete sexo E o sexo perdeu o presto. Como o célebre rei que tinha Na mesa sempre galinha, Por fim tornou-se indigesto!.. Homem e mulher actual Esqueceram a moral, Levados por Belzebu. O amor, segredos tinha, Hoje, já nada se adivinha, Tudo ali é posto a nú!... Um e outro, o dia inteiro, A mudarem de parceiro, Muitos se vêem na rua. Que moral esta, Deus meu, Não tem ela homem só seu, Nem ele mulher só sua. Que me perdoe os casais Diferentes, ditos normais, Fora desta confusão. Que juntos, deram o nó Formando uma carne só E somente um coração! Mas vamos ao Carnaval, Deitar um ponto final Ao que aqui vai escrito. Se eu disse algo de errado, Que eu seja perdoado. Mas o que eu disse está dito!... Carnaval é p'ra brincar, Mas não para se abusar!... |
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