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Fadista Manuela Cavaco ao PT:
"Sou uma fadista tradicional e as novas correntes são
tudo menos fado"
Manuela Cavaco é uma fadista portuguesa natural do Montijo e que começou a
cantar muito nova, aprendendo com os pescadores do seu bairro. Depois vieram
as festas de amigos, as idas a casas de fado para ouvir, apreciar e aprender
vendo de perto os grandes nomes do fado.
Quando uma noite, numa dessas casas cantou, ficou de imediato a fazer parte
do elenco.
Casa da Pimenta, Número 1, Taverna do Embuçado e Forte D. Rodrigo, são
algumas das casas onde actuou com regularidade. Mas as suas actuações foram
sempre pautadas por uma sobriedade que não procurava um estrelato
sensacionalista, mas uma dádiva seu dom de voz para quem a quisesse escutar
no ambiente intimista propício ao verdadeiro fado, como ainda hoje acontece.
Teatro Maria Matos, Teatro Taborda, Padrão dos Descobrimentos, Centro
Cultural de Belém e Casino Estoril são auditórios onde também actuou.
Do seu repertório consta especialmente o fado tradicional, mas também
interpreta com grande emoção os belos fados musicados, nomeadamente os
celebrizados por Amália Rodrigues, alegres ou tristes que sejam.
Tem actuado no estrangeiro, nomeadamente na Suíça, Holanda, França Espanha e
aqui nos EUA cantou em Providence, RI, Hudson, Mass. e Florida.
Com cinco discos gravados, o último dos quais chegado aqui ao PT pelas mãos
do famoso guitarrista português Carlos Gonçalves ("Fado a Sério")
inclui
fados clássicos que ficaram imortalizados na voz da saudosa Amália
Rodrigues, sendo acompanhada à guitarra por Carlos Gonçalves e à viola por
Lelo Nogueira.
Manuela Cavaco tem grande vontade em voltar a actuar nos EUA, o que poderá
acontecer juntamente com Carlos Gonçalves no decorrer deste ano. Concedeu
esta entrevista ao PT (via internet) com algumas afirmações no mínimo
curiosas.
PT - Como nasceu Manuela Cavaco para o fado?
Manuela Cavaco - "Eu acho que nasci fadista. Nasci e cresci num bairro à
beira mar, em Montijo, muito perto de Lisboa. Na rua onde eu morava,
habitavam muitos pescadores que amanhavam as suas redes na rua e enquanto o
faziam, iam cantando o fado. Foi com eles que aprendi a cantar. Nessa altura
as rádios passavam muito fado e eu fui aprendendo a gostar cada vez mais,
até que comecei a ser convidada para festas de amigos e a assistir a grandes
programas com fadistas profissionais. Um dia, numa casa de fados em Lisboa,
pedi para cantar um fado e perdi a conta a quantos cantei. Na semana
seguinte já fazia parte do elenco dessa casa e nunca mais parei. Surgiram
depois convites de outras casas de fado, entre elas o Forte D. Rodrigo em
Cascais e a Taberna do Embuçado em Lisboa".
PT - Fale-nos dos seus registos discográficos...
MC - "Tenho um CD muito recente que gravei com o guitarrista Carlos
Gonçalves e com o viola Lelo Nogueira. Apesar de já ter feito a gravação de
quatro cassetes e mais quatro CDs, esta foi a gravação que me deu mais
prazer fazer, porque senti a guitarra a "falar" comigo durante o tempo
que
durou a gravação".
PT - "É uma fadista tradicional ou abraça as novas correntes do fado?
MC - "Sou uma fadista tradicional. "Novas correntes" são tudo
menos fado".
PT - Quais as suas maiores influências e referências no fado?
MC - "As minhas referências no fado foram (e são) Amália e Maria Teresa
de
Noronha e explico porquê. Eu só canto uma letra se ela me disser alguma
coisa e eu puder transmitir aos outros o que ela diz. Há letras muito feias
que o meu cérebro se recusa a aprender. Amália e Maria Teresa de Noronha só
cantavam letras bonitas".
PT - Já alguma vez actuou nos EUA ou noutro país fora de Portugal?
MC - "Sim, já actuei nos EUA, a convite do grande empresário português
António Frias. Actuei em Hudson, Providence e Flórida. Vou com frequência
levar o fado a outros países. França, Espanha, Suíça e Holanda fazem parte
das minhas deslocações habituais. Estarei em Buenos Aires dia 9 de Abril e
em breve irei ao Brasil".
PT - Como vê o surgimento de novos valores, poetas, intérpretes e de certa
forma algumas novas formas de instrumentalização do fado e novas correntes
mais vanguardistas que se pretende dar ao fado?
MC - "Novos" há muitos, "valores" há poucos. Poetas bons
de fado, vivos só
conheço dois. O fado é uma história que se conta cantando e o POVO tem de
entender a poesia. Tem de ter princípio, meio e fim. Ouço cantar muitas
coisas que não entendo. Quanto à instrumentalização, podem lá pôr o que
quiserem, que não faz lá falta nenhuma... Para mim o fado só precisa de
guitarra e viola. Correntes vanguardistas??? Acho que essas estão a fazer
uma grande confusão. Não sabem o que é o fado".
PT - A guitarra pertence apenas ao fado ou poderá ser utilizada noutros
ambientes e géneros musicais?
MC - "A guitarra pode perfeitamente ser utilizada para outros géneros
musicais. O guitarrista Carlos Gonçalves é o perfeito exemplo disso. Com a
guitarra toca todo o género de música, inclusive peças de música clássica".
PT - Um dia alguém do fado afirmou que cada vez há mais artistas no fado,
em
vez de fadistas. Concorda?
MC - "Completamente. Há gente que a cantar o fado parece que está a
interpretar um número de circo. Mas o fado não está lá."
PT - Como vê o movimento criado recentemente no sentido de denominar o fado
como Património da Humanidade?
MC - "O projecto com esse nome deixou de existir. Alguém chegou à conclusão
que o fado é português. Se fosse considerado Património da Humanidade
deixaria de ser nosso para ser de toda a gente. Neste momento o projecto tem
outro nome, é candidato a Proclamação pela UNESCO como Obra-Prima da Herança
Oral e Imaterial e envolve apenas o Fado Tradicional de Lisboa. No entanto,
há opiniões diferentes que englobam também a Canção Coimbrã. Se tudo isto
for para que o verdadeiro fado não se perca então estou de acordo".
PT - Para quando uma digressão pelas comunidades lusas dos EUA?
MC - "É só entrarem em contacto comigo, o meu e-mail é: (manuelacavaco@
msn.com). Será para mim um prazer muito grande voltar aos Estados Unidos".
PT - Das vozes de outrora e das novas vozes no fado quem mais admira?
MC - "Das de outrora já falei. Das novas, é muito difícil escolher,
porque
cantam todas igual".

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