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Tania, jovem luso-descendente de RI a dar os primeiros passos no fado:
"O fado nasce dentro da pessoa, não se aprende"
Com apenas 20 anos de idade, Tania da Silva, jovem luso-descencente natural
de Providence, RI, cultiva em si a herança lusa que lhe foi incutida pelos
pais (Alberto Silva e Tina da Silva, naturais do Algarve), evidenciada e
comprovada através do seu envolvimento em diversas formas de manifestação da
nossa identidade e afirmação em terras do Tio Sam. Depois de frequentar a
escola portuguesa numa organização lusa de RI, Tania aderiu mais tarde ao
Rancho Folclórico "Ramos de Oliveira", de Pawtucket, RI, para além
da sua
participação em diversas eventos e celebrações de portugalidade. O primeiro
contacto com essa música mais genuinamente portuguesa, o fado, aconteceu nos
convívios de familiares e amigos ouvindo a sua madrinha. Descobriu em si
essa paixão e foi então que começou a ouvir as novas vozes do fado em
Portugal. Confessa que foi através desse "fado moderno" que aprendeu
a
explorar e a descobrir o fado mais tradicional. É no fado que esta jovem
encontra o seu destino.
Presentemente a frequentar a UMass Dartmouth, onde estuda Português e
Espanhol e pretende ser professora de Línguas a nível do liceu, Tania gravou
já um disco de fados, apresentado oficialmente em Novembro do ano passado.
Um registo de qualidade, constituindo sem dúvida um dos melhores trabalhos
discográficos lançados na comunidade em 2004. A entrevista para o PT estava
em agenda há vários meses. Uma questão de "timing"...
PT - Como e quando despertou em ti esse interesse pelo fado?
Tania - "Bem, tudo começou desde criança. Tenho uma madrinha que tem
mesmo
jeito, na minha opinião, de cantar o fado. Sempre que havia uma festa lá em
casa ou quando nos reuniamos ela sempre cantava um fadinho ou dois. Fiquei
mesmo ligada com o interesse de ouvi-la. Depois, um verão decidi ir a
Portugal. Nesta altura tinha 14 anos e fui por seis semanas a Portugal. Fui
com a intenção de ficar no Algarve, onde a minha família é oriunda. Mas como
fui com a madrinha tive a oportunidade de viajar a diferentes sítios. Fui
até ao Algarve, a Azeitão, Lisboa, e Trás-os-Montes. Foi fantástico! Aliás,
em Faro, como a minha madrinha sabia que eu gostava de ouvir música de fado
e também de estilo alentejano, ela deu-me uma cassete de Dulce Pontes. A
partir daí tudo é que começou. Ouvindo o fado original pela Dulce Pontes
aprendi que o fado tradicional era cantado pela Amália Rodrigues e também
por outros fadistas. Eu não sabia nada de música mas sabia que do fado eu
gostava. De regresso aos EUA, ainda no aeroporto em Lisboa, nas horas
livres, resolvi dar uma saltada a uma loja. Aí comprei os meus primeiros
discos de fado, de Amália Rodrigues".
PT - És uma fadista tradicional ou abraças as novas correntes do fado?
Tania - "Sou uma fadista que gosta imenso de cantar fados tradicionais mas
ao mesmo tempo gosto de inventar coisas novas. Não vamos cantar os mesmos
fados para sempre. Cada fadista tem o seu destino, a sua maneira de
interpretar o fado e o seu estilo. Além de cantar fados conhecidos, quero
trazer aqueles fados muito antigos que o povo não conhece bem e não tem
ouvido há muito tempo, como por exemplo, "A Lenda da Fonte". Também
gosto da
ideia de inventar fados novos, e espero que as pessoas apreciem isso".
PT - Das vozes de outrora e das novas vozes no fado, quem mais admiras e
gostas?
Tania - "Há tantas fadistas que eu gosto, mas sempre vou dizer que admiro
Amália Rodrigues. Ela trabalhou com vários poetas e músicos, e acho que isso
foi importante porque houve diferentes trabalhos de diferentes pessoas. Era
dotada de uma voz lindíssima e admiro o facto de ela poder viajar e
comunicar com quase todo o mundo. Outra fadista que admiro é a Mariza. Ela
tem garra em tudo o que canta. A presença e a interpretação dela é um grande
espectáculo. Essas duas coisas são muito importantes para um fadista.
Qualquer pessoa pode aprender a cantar, mas o fado nasce em cada pessoa e
temos que o sentir. É um sentimento sem explicação mas ao mesmo tempo é tão
bom".
PT - Do disco que agora gravaste qual o tema que mais gostas de interpretar?
Tania - "No meu disco de fados gostei de trabalhar com todos os temas. Para
mim não haverá só um fado que gostei melhor do que o outro. Gostei do facto
de poder interpretar o fado "Mar Português", porque foi feito à
nossa
maneira e foi diferente. Aliás, também gostei do fado, "Com que Voz",
"Alamares" e "Amor de Mel, Amor de Fel". Outro fado foi,
"Fado Inspirado",
porque fala sobre um bocado da minha vida. Gostei de trabalhar nem só com os
guitarristas mas também com os outros instrumentais, como o piano e o
violoncelo. O fado é uma maneira de libertar os sentimentos e pensamentos, e
com diferentes instrumentais de música, ajuda-nos a transmiti-lo melhor ao
público".
PT - Como foi para ti a experiência de gravar em estúdio...
Tania - "A experiência de gravar um disco foi espectacular. No princípio
foi
tudo estranho e confesso que estava nervosa. Como eu nunca tive oportunidade
de cantar a este alto nível de profissionalismo não sabia o que me esperava.
Aliás, trabalhar com o Pedro e a Diane Pimentel (Alexcia Records) foi sem
dúvida fenomenal. Trabalhar com todos os guitarristas também foi fantástico
porque eles apresentaram as suas ideias e foram verdadeiramente incansáveis
comigo. Com o andar do tempo no estúdio fui-me acostumando. A minha
preocupação foi e continua a ser dar ao público o meu melhor. Foi um sonho
de gravar um disco de fados e nunca pensei que seria possível. Foi na
realidade uma experiência inesquecível".
PT - Fala-nos das tuas actuações enquanto fadista. Por onde tens actuado?
Tania - "Como estou começando não tenho actuado em muitos lugares. Fui
convidada a cantar no lançamento de Madalena Pata e já cantei umas quantas
vezes no Restaurante Madeira, em East Providence, RI e no Café Europa, em
New Bedford, MA. Também tive a oportunidade de cantar no Centro Cultural
Português, em Fall River, MA e na noite de fados no Centro Comunitário
Amigos da Terceira, em Pawtucket, RI".
PT - Nesta ainda curta experiência artística como é que o público vê uma
jovem luso-descendente intrepretando fado?
Tania - "As minhas experiências em actuações por enquanto têm sido
boas.
Confesso que sou uma pessoa um pouco nervosa e que se preocupa muito em não
cometer erros. Tento fazer o meu melhor e espero que o povo goste do meu
estilo de interpretar fado. Até agora tenho recebido muito carinho e elogios
do público. Dou graças a Deus porque com o apoio dessas pessoas sinto que
posso transmitir os sentimentos do fado. O público fica muito admirado pelo
facto de eu ser uma jovem luso-descendente com vinte anos a cantar o fado.
Nunca fui obrigada a escolher a cantar o fado, faço-o simplesmente porque
gosto e quero, caso contrário não poderia interpretar com alma".
PT - Concordas com algumas opiniões de que é necesário ter nascido e
vivido
num bairro lisboeta para melhorar interpretar o fado?
Tania - "Não, eu não concordo em nada com isso. O fado nasce dentro da
própria pessoa. O fado não se aprende. A única vez que aprendi música foi
quando estava no liceu a tocar na banda. Não sabia que tinha em mim esta
inclinação para cantar. Sempre cantei à minha maneira, até que as pessoas se
abeiraram de mim a dizer que eu tinha uma boa voz. É verdade que é em Lisboa
que se cultiva melhor o fado, mas não é essencial ou determinante para se
considerar se uma pessoa tem ou não alma de fadista. Eu nasci longe de
Lisboa e com catorze anos achei a minha alma de fadista".
PT - Achas que a juventude luso-descendente interessa-se pelo fado?
Tania - "No início, quando comecei a cantar fado pensei que a juventude
luso-descendente não tinha interesse. Com o decorrer do tempo vi que não era
bem assim. Para dizer a verdade ela tem. É com a força dela e de todos em
geral que gostam do fado que me inspiro para continuar a cantar. Se não
fosse por essa gente eu cantava para as paredes em casa. Digo e sempre vou
dizer que o fado não foi só destinado para os mais idosos foi e é destinado
para todos nós incluindo a juventude. Digo isto porque cada um nós tem fado
na nossa alma. Nem que seja só os sentimentos".
PT - Fala-me de outros projectos e digresses que possas ter em breve...
Tania - "Em breve vou à Bermuda, no primeiro fim de semana em Março. Fui
convidada pelo fadista José Carlos e agradeço-lhe imenso a oportunidade.
Seremos acompanhados à guitarra e viola pelos irmãos Lima. No dia 19 de
Março vai haver uma noite de variedades na Clube Juventude Lusitana, em
Cumberland, RI, em que também fui convidada para cantar lá. A 9 de Abril
haverá uma noite de fados no salão da igreja da Nossa Senhora de Rosário em
Providence e vou ser umas das fadistas que constam do elenco. Temos tido
respostas positivas de Portugal e eu, juntamente com a Alexcia Records
estamos a pensar numa eventual digressão no decorrer deste verão a Lisboa.
Isso é na realidade um dos meus sonhos, permanecer em Lisboa por uns tempos
e ver como o ambiente de fado é. Outro projecto que temos em manga para este
verão é começar a preparar o próximo disco de fados".
PT - Quais os contactos para os eventuais interessados em contratar os teus
serviços?
Tania - "Os contactos para os eventuais interessados são efectuados pela
Alexcia Records, via www.AlexciaRecords.com"

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