CARTA DA CALIFÓRNIA

 
Eduardo Mayone Dias

 

Ai. Esses Meus Alunos!

Durante os meus quarenta e cinco anos de ensino em quatro países passaram-me
pela frente centenas, se não milhares de alunos. A quase totalidade,
naturalmente, esbateu-se-me da memória. Mas alguns ficaram, relacionados com
algum episódio curioso. E com outros, já pelo menos cinquentões, ainda
mantenho uma sólida amizade.
Comecei a dar aulas no Outono de 1948, num curso nocturno da Escola
Comercial Veiga Beirão, em Lisboa. Era um primeiro ano de Francês. A minha
preparação nessa língua era apenas o terceiro ano do liceu, mais algumas
leituras. Contudo, na irreflexão dos meus 21 anos, ter-me-ia talvez até
atrevido a ensinar chinês.
Tinha ainda aspecto menineiro e uma noite, ao subir a escadaria que dava
para a sala de professores, fui interceptado por um contínuo: mal humorado:
"Não sabe que esta escada é só para os professores?" "Mas eu sou professor",
murmurei quase a medo ante ira do funcionário.
Um dos meus alunos era funcionário do Banco Inglês e insistia em oferecer-me
um lugar nesse banco. Talvez uma maneira de conseguir a minha predisposição
para uma boa nota. Dois outros eram polícias. Um deles,  sinaleiro,
postava-se no Largo da Estrela, que eu frequentemente atravessava a pé. E
nessas ocasiões sentia-me quase como o Presidente da República quando o
homem se perfilava, me fazia uma impecável continência e apitava para deter
o trânsito até eu passar. Não recordo que nota lhe dei mas com certeza foi
generosa.
Com o outro tive um pequeno problema. Durante um exame notei que ele meio
escondia um papelito na mão. Pedi-lhe que mo mostrasse e era uma cábula, que
meti no bolso. Dei uma volta pela sala e então observei que o digno agente
da autoridade tinha já outro papelito na mão. Vinha bem preparado para
qualquer eventualidade. Pelo sim pelo não achei preferível não ter qualquer
enérgica confrontação com as forças da ordem pública.
Meses depois ofereceram-me outro lugar, na Escola Secundária Municipal de
Torres Vedras. Desta vez tratava-se de Alemão, outra língua em que eu estava
longe de ser brilhante. Mas de novo me arrisquei. Eram apenas dois alunos do
sétimo ano de Letras, que queriam seguir Direito. Na altura, não sei bem
porquê, as Faculdades  de Direito exigiam uma prova nessa endiabrada língua.
Um dos meus alunos era o filho do Presidente da Câmara, rapaz desembaraçado
e com um irreverente sentido de humor. Um dia comentou que se impressionava
com o facto de o corpo docente da Escola ostentar apelidos multinacionais:
Ferrari, Newton,  Albarrán, Mayone - e Vaquinhas! Em outra ocasião não tinha
feito o seu trabalho de casa. Porquê? "A minha caneta de tinta permanente
caiu na retrete." Explicação poderosa, que havia que aceitar.
No ano seguinte dei Português ao primeiro ano. Nunca tinha lidado com
garotos acabados de sair da escola primária e surpreendeu-me a pergunta de
uma doce mocinha de cabelos loiros, durante um exame: "Já cheguei ao fim da
primeira folha. Onde é que continuo agora?"
Contudo, noutra ocasião foram eles os surpreendidos - e com toda a razão. Eu
estava a dar-llhes um ditado. Era um soneto do venerável Júlio Dantas sobre
um espadachim que se tinha feito frade mas que recordava os velhos tempos. E
um dia alguém o tinha visto na sua cela, abraçado a uma velha espada de
Toledo a chorar silenciosamente. Eu ditava os versos em pequenos fragmentos
e com pausas após cada um: E um dia / alguém o viu / na sua cela  / abraçado
a uma velha/...  Foi nessa altura que várias cabeças juvenis se levantaram
indagadoramente da sua escrita.
Depois vieram outros lugares, em escolas comerciais e colégios particulares.
Lisboa, Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Setúbal. Agora ensinava Português e
Inglês. E nesta primeira disciplina tive uma vez de concordar quando um
aluno recalcitrou ante uma correcção que lhe fiz. Ele, numa composição,
havia usado o termo "chateado". E eu recomendei: "Não digas 'chateado'.
'Incomodado' é preferível." "Mas, senhor doutor, eu estava chateado mesmo."
E tinha carradas de razão o moço.
Mais tarde foi um ano na impecavelmente britânica Universidade de Cambridge.
Dos apenas seis ou sete alunos que tive em cursos de Língua e Cultura
Portuguesa quase nada recordo. Eram rapazinhos sisudos, pouco comunicativos,
solenes nas suas togas negras que tinham de usar dentro e fora da
Universidade. Foram aulas sem história.
Depois veio a Cidade do México. Inglês a alunos da primária no Colegio
Hebreo Sefaradí. Judeuzinhos irrequietos mas carinhosos e afáveis. A seguir
foi a Universidad Militar Latinoamericana. De universidade não tinha nada.
Era um colégio secundário interno, regido por um francês que tinha sido cabo
no exército da sua pátria e agora recebia o título de coronel. A escola
funcionava  quase como um reformatório para meninos mal comportados de
famílias ricas. As aulas de segunda-feira, sobretudo, eram um pesadelo.
Tinham ido a casa no fim-de-semana e muitos dos mais velhos vinham cozer a
ressaca para a escola. Certa manhã um dos cadetes apontou-me um colega,
profundamente adormecido na sua carteira. "Mire, profesor, el futuro de
México", comentou
Depois de um ano e tal no México encontrei-me na Califórnia. Agora era a
Army Language School, na encantadora cidade de Monterey. Do programa da
escola constava um curso intensíssimo de Português, de seis meses. Entre os
alunos que lá tive havia um coronel, majores, capitães e tenentes, um
sargento, vários soldados rasos e marinheiros - e seis agentes do FBI.
O aluno que melhor recordo era um major. Absoluta negação para as línguas,
acabou por conseguir uma transferência para uma ilha qualquer do Pacífico a
fim de não chumbar no curso. Entre si os professores chamavam-lhe o Major
Castro. Bem, o Major Castro era o protagonista do nosso livro de texto. O
apelido com certeza dizia alguma coisa ao nosso major de carne e osso. Um
dia perguntei-lhe: "Major, o senhor é casado?" "Sim, sou castrado."
As diferentes patentes que se reuniam na sala de aula harmonizavam pouco
hierarquicamente. Havia um soldado que entrava sempre a tocar ocarina, sem
qualquer reparo dos oficiais. E um dia deparei com um capitão do Exército
com um dedo no ar, enquanto um marinheiro procurava acertar-lhe atirando com
o seu boné.
Os agentes do FBI eram um caso especial. Todos formados em Direito, de
magnífica preparação física, rapidíssimos no sacar da pistola. Simpáticos e
brincalhões. Uma vez  um contava aos colegas: "Esta manhã um tipo na rua
chamou-me maricas." "E tu, o que é que fizeste?" "Ora, tirei o meu sapato de
salto alto e dei-lhe com ele na cabeça." Também por essa altura eu havia
acabado de tirar a carta de condução. E quando viram o meu carro
aproximar-se fingiram que começavam a trepar pela parede acima.
Na UCLA estive 29 anos. Dei cursos de Português para alunos que já sabiam
espanhol, de Literatura Portuguesa, de História da Língua e de Cultura
Espanhola e Portuguesa. Houve por todo esse tempo, por certo episódios
bizarros. Num deles fui eu próprio o herói. Alguns estudantes, em vez do
habitual A, B, e C  preferiam para a sua nota o sistema de Pass ou Fail - P
ou F. E um deles, na aula, manifestou o seu receio de receber um F. Não era
caso para isso e eu sosseguei-o: 'Don't worry, you can have a P." Só ante a
unânime gargalhada da aula é que me dei conta de que aquilo soava como "a
pee" e de que eu tinha metido o pé na poça até ao umbigo.
Claro que os alunos também contribuíram para risíveis situações. Uma vez
explicava eu que na linguagem caipira brasileira o "il" final se pronunciava
"iu". Acho que tinha acentuado bem que se tratava de um regionalismo mas um
aluno brasileiro refilou, ainda que pouco convincentemente: "Mas isso é só
no sertão. Não acontece em todo o Brasiu!"
No trato com as alunas houve momentos delicados. Uma  deixou-me uma nota
pedindo desculpa pelo atraso na entrega de um trabalho. E em vez de "Please
bear with me", escreveu "Please bare with me". Considerei o caso mas resolvi
não aceder ao pedido.
As relações entre professores e alunos foram ferozmente regulamentadas na
época em que recrudesceu o feminismo. Recebemos então uma circular da
Reitoria anunciando que se um professor do sexo masculino dissesse a uma
aluna que ela trazia um vestido bonito isso podia ser considerado acosso
sexual.  E o mesmo ultimatum desaconselhava "unnecessary patting and
pinching". Quanto ao último, nunca cheguei a compreender como dar um
beliscão numa aluna podia constituir um necessário processo pedagógico.  Com
respeito ao anterior, um dia uma aluna confidenciou-me um difícil problema
pessoal. Ia quase a dar-lhe no ombro umas pancadinhas de compreensão quando
recordei a tal circular. E como já ia a caminho, só me restou a alternativa
de desviar as  consoladoras pancadinhas para a mochila que ela trazia às
costas.
O período da UCLA incluiu vários cursos de verão em Santa Bárbara e um em
Massachussets. Junto ao maravilhoso campus fronteiro ao Pacífico tínhamos a
Casa Portuguesa, onde se alojavam alguns professores e uns trinta alunos.
Depois da primeira semana estava proibido falar inglês lá dentro. E os
resultados em português nem sempre eram sensacionais. A casa funcionava
quase como uma república coimbrã. Tínhamos uma cozinheira mas fora disso
todos colaborávamos nas lides da casa. E um dia, ao ver o homem que trazia a
carne para a semana, uma aluna disse-me: "Professor, já chegou o carneiro".
Também tínhamos uma máquina de onde se podiam tirar refrigerantes e foi de
igual modo essa aluna que de outra vez me avisou: "Professor, a máquina das
bêbedas não funciona."
Em Massachussets tive quase exclusivamente alunos portugueses, alguns já com
certa preparação profissional, e por consequência estas graciosas saídas não
ocorriam. Mas o episódio que mais me impressionou - e emocionou - ocorreu ao
final de um curso em que eu me tinha ocupado da literatura da emigração
portuguesa, não só na América, como também na Europa. Era um tema que
constituiu uma revelação para vários alunos, que jamais haviam superado o
estreito ambiente da rua portuguesa de New Bedford, Fall River e mesmo East
Providence. Nunca haviam podido conceber quão vasta era a cultura da
diáspora. Foi então que uma moça dos seus vinte e tal anos me disse "Depois
deste curso já não tenho vergonha de ser portuguesa", o mais  tocante
comentário ao meu trabalho que jamais havia ouvido.



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