MEMORANDUM


João Luís de Medeiros


Telefonema

Prezados ouvintes da Radio Difusão Portuguesa/Açores, boa tarde!
Gostaria de aproveitar este ensejo para endereçar uma saudação fraternal aos
que trabalham para o progresso dos Açores. Felizmente, são muitos!
Não vos quero maçar com comentários de segunda-mão alusivos à recente visita
do presidente Bush à Europa. Ademais não dispomos do tempo de antena
bastante para contrariar as superficialidades difundidas pela generalidade
da imprensa portuguesa. Limito-me apenas a dizer que a administração George
Bush e os capatazes americanos da moralidade evangélica continuam a
menosprezar as especificidades do patriotismo alheio. Não me reclamo da
originaldade discursiva: o  zelo teocrático norte-americano serve-se do
terrorismo para aterrorizar os incautos...
(Lembram-se dos movimentos independentistas africanos? Não eram todos
terroristas...?) Ora o pluralismo político e a diversidade étnico-cultural são
ingredientes cada vez mais indesejáveis ao narcisismo fascisante do Partido
Republicano...
Vamos agora mudar de cenário religoso para falar do estado de saúde do Papa.
Embora a resignação papal seja um expediente de recurso, tecnicamente
previsto pelo direito canónico, creio que o desejo da maioria dos católicos
é que o Sumo Pontífice permaneça até ao fim no seu posto (diria melhor, no
seu calvário). Esticar a existência fisica de Sua santidade é talvez um
imperativo global da macro-politica.  Paciência!
A globalização está de escrita em dia com a manipulação das emoções.
Mas há sentimentos que o computador ainda não sabe decifrar. Queria apenas
confirmar que a distância geográfica que nos separa não consegue apequenar a
alegria cívica que sentimos pela maneira inteligente como o eleitorado
açoriano votou no passado domingo.
Em democracia, os resultados eleitorais são sempre relativos. É justo e
lógico que o partido que recolheu a maioria dos votos assuma o maior quinhão
da corresponsabilidade civico-politica que o mandato lhe conferiu. Uma
eleição democrática não é propriamente um campeonato de popularidade. Uma
eleição democrática é apenas um começo...
Há que assumir, com humildade e firmeza,  a seguinte proposta de conduta
democrática:
a) a responsabilidade politica que desde domingo o dia 20 de Fevereiro
recaíu sobre o Partido Socialista transcende os seus contornos ideológicos e
programáticos; 

b) está em causa regenerar o Estado Português, dignificar a cidadania,
reconhecer e valorizar o mérito daquele cidadão que sabe gerir a sua
autonomia pessoal.

Em suma, urge desencorajar os profissionais do parasitismo burocrático que
prosperam acampados no corporativismo sócio-empresarial. Quando um país é
magro em recursos naturais, não é preciso formar muitas comissões de
notáveis para concluir que o capital humano não cresce sem investimento na
Instrução e na Cultura.
Antes de treinar cérebros há que educar os cidadãos: ajudá-los na
redescoberta e na aplicação dos próprios talentos; neutralizar o secretismo
hedonista dos inquilinos dos "palácios de cristal" do separatismo
intelectual.
Creio que fará ainda sentido alerter os ouvintes para o facto de que as
comunidades intelectualmente saudáveis e artisticamente descomplexadas
dispensam os rituais incestuosos do elitismo académico?
Não, não foram os oceanos que inventaram a distância. Nem foram as eleições
que descobriram a democracia. Viver longe dos Açores, cerca de 6 mil milhas,
não faz calar a percepção de que as recentes eleições legislativas
ofereceram uma perspectiva muito curiosa para o futuro politico das regiões
autónomas portuguesas.
Primeiro, referir e enaltecer a crescente aposta do eleitorado açoriano na
versão do socialismo democrático de pendor inter-classista, cujo sucesso se
deve em parte - não custa admiti-lo - ao comprovado talento político do
actual chefe da administração açoriana.
Segundo, prognosticar com justificada alegria democrática a decadência
gradual mas irreversível de sua Eternidade o chefe do Governo Madeirense
(que faz lembrar uma bananeira que já não tem mais bananas para dar)...
Há dias foi-nos dado saber, com sereno espanto, que o Presidente da
República considera que a autonomia politica chegou ao limite máximo que a
elasticidade constituicional permite.
É uma opinião que traz a chancela da credibilidade. Mas não fiquei
surpreendido com a pronta reacção discordante de alguns líderes de opinião
regional. E, se me permitem os prezados ouvintes da RDP/Açores, gostaria de
recordar aquilo que me foi dado dizer publicamente, em 1980, àcerca desta
tão delicada questão de pendor constitucional (e passo a citar):
  - "os limites da autonomia política dos Açores deverão ser aqueles que a
maturidade democrática dos açorianos o consentir..."
E pronto! Até pr'a semana! Haja saúde!

(*) Comentário para o programa "A Minha Rádio", apresentado pela RDP/A.
Rancho Mirage, Califórnia - Fevereiro/2005



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