Entre os sorrisos e os abraços, Bush perdeu-se na Europa



Diniz Borges



A geografia tornou-nos vizinhos, a história
tornou-nos amigos, a economia tornou-nos
parceiros e a indigência tornou-nos aliados

John F. Kennedy 35º Presidente dos EUA

Com cada dia que se passava na viagem do Presidente George W. Bush à Europa,
tornava-se claro que esta administração não tem uma política estrangeira
coesa e que os múltiplos sorrisos, e cumprimentos conciliadores, para as
máquinas fotográficas e as televisões internacionais não podiam esconder os
conflitos transatlânticos. É que, infelizmente, o Presidente estadunidense
ficou com a impressão (ou pelo menos quis dá-la ao mundo) que a recepção
cordial que recebeu dos principais líderes europeus foi a verificação de que
a "velha Europa" está preparada a absolver todas as aventuras e caminha para
uma nova era de submissão perante o chefe do governo de Washington. Mas tal
cogitação está tão longe da certeza, como acreditar-se, que na Europa restam
apenas alguns pequenos vestígios do ressentimento ecoado pela invasão do
Iraque.  Basta ir-se além dos sorrisos plastificados.
Apesar dos órgãos da comunicação social americana terem descrito o
espiráculo como "a cimeira dos sorrisos", e alguns comentadores tivessem
falado sobre o despontar de uma nova era na "amizade transatlântica",
esqueceram-se de dizer que a visita foi antecedida por uma avalanche de
gestos de amizade por parte do governo norte-americano. É que havia o receio
que a mesma viagem fosse um escândalo para esta administração. Daí que se
esgotaram todos os esforços para que os sorrisos estivessem todos
programados.
Porém, a realidade é que esta foi a primeira vez que um presidente dos
Estados Unidos viajasse até à Europa sob as condições de um dólar em
decadência, perdendo a sua supremacia na economia mundial.  Aliás, viu-se a
fragilidade do dólar quando o Banco Central da Coreia do Sul - que tem mais
de 200 biliões de dólares (por sinal a quarta maior reserva de dólares no
mundo) anunciou que iria transferir algumas das reservas em euros. O dólar
americano perdeu 1,5% em relação à moeda europeia e a bolsa de valores em
Nova Iorque perdeu 1,6 pontos percentuais.  Tudo isto não falando no
tremendo défice que os Estados Unidos possuem e cujos juros aumentam
diariamente. 
É que desde a guerra do Iraque que esta administração tem tentando
contrabalançar a decadência económica através do seu poder militar.  Porém,
na Europa essa táctica já foi detectada. Aliás, o jornal Frankfurter
Rundshcau escreveu recentemente que, está mais do que transparente que este
presidente deseja "parceiros que possam assumir parte da responsabilidade
económica do desastre no Iraque." Aliás, o mesmo periódico adiciona que se o
presidente norte-americano continuar com o pensamento que não há uma
estratégia americana ou europeia, mas sim um esquema de libertação para o
mundo árabe, isso indicará, ainda outra vez, que George W. Bush, não
"entende os europeus."
E é aqui que se toca dom o dedo na ferida.  É que esta administração ainda
não quis entender os gestos europeus.  Para muitos líderes do "velho
continente", incluindo os seus amigos no governo britânico, há a preocupação
de que todas as atenções mundiais foram sequestradas pela invasão do Iraque.
Aceitar a veracidade iraquiana não significa, para os líderes europeus,
aprovar a premissa original que levou à invasão, mas sim caminhar para uma
outra estabilidade na região, e no mundo.  Cessar com a política de apontar
o dedo é uma simples base do novo consenso europeu, para uma política que
conterá esta administração americana. Mas, mais uma vez patenteia-se que
este executivo, e particularmente o seu chefe, não sentiu as nuances ou as
anfibologias.  Embora se saiba que a própria administração já se conteve,
por necessidade.  A sua doutrina de "guerra preventiva" serviu apenas uma
vez. Os aliados jamais aceitariam outra agressão, e o presidente, apesar de
talvez gostar de nova aventura, tem as forças armadas pelas pontas.
Mais, os actuais líderes europeus, apesar dos tais sorrisos plastificados,
jamais embarcam numa política agressiva baseada em "valores ocidentais" de
liberdade em que a supremacia americana seja a tónica dominante.  Tudo
indica que já passou a era em que os europeus, simplesmente, deixavam
transcorrer. O antigo chanceler alemão Helmut Schmidt, do Partido Social
Democrático (não propriamente um partido de esquerda) escreveu recentemente
sobre esse tema numa crónica no Die Zeit, na qual enunciava que "amizade não
é sinónimo de servidão."
E o actual líder alemão, Gerhard Schröder não teve qualquer dilema e entre
os sorrisos e a cordialidade relembrou que para o seu governo, a América e a
Alemanha, eram: "parceiros iguais."  É que apesar de todas as diplomacias, e
as habituais cortesias, o chanceler foi peremptório ao falar abertamente das
acções unilaterais americanas, uma alusão directa à invasão do Iraque, e a
forma arrogante como a Europa tem sido confrontada com as decisões
americanas. Infelizmente, o chanceler não falou de alguns assuntos
pertinentes como: as falsidades que nos levaram à doutrina da guerra
preventiva ou aos abusos da lei internacional, particularmente no tratamento
dos presos de guerra.
A nova postura europeia está ainda mais clara no que concerne à Síria e ao
Irão.  Na sua visita à Europa o chefe de estado norte-americano foi
defrontado por uma França, um Alemanha e até mesmo uma Grã-Bretanha, unidas
numa mensagem única, ou seja:  qualquer solução para estes dois dilemas
passa pelas vias diplomáticas e não pelas vias militares. No que concerne ao
Iraque e ao seu programa de armamento nuclear, os europeus estão unidos e
querem que os Estados Unidos apoiem os seus esforços para uma solução
pacífica.
E o mesmo se sucede com a Síria. Os franceses, que há muito têm uma relação
com esta zona do Médio Oriente, querem uma solução diplomática. Apesar dos
porta-vozes franceses terem recorrido até à exaustão o tema "uma nova forma,
uma novo estilo e um novo espírito", nas relações transatlânticas, segundo o
diário francês Le Figaro, tal espírito não significa que "já não existem
diferenças."
E as dissemelhanças são sentidas além das elites.  Os cidadãos comuns
reagiram bastante diferente aos seus líderes políticos. É que a maioria dos
europeus não olha para o Presidente americano com bons olhos. Os populares
europeus rejeitam a guerra o e exacerbado militarismo. Aliás, as medidas de
segurança foram impensáveis, a ponto de muitos europeus acharem tais medidas
insultuosas. Houve mesmo quem dissesse: "se o presidente dos EUA não tem
confiança em nós porque não se limita a fazer declarações políticas em
barcos de guerra."
Não houve qualquer contacto entre George W. Bush e o cidadão comum, algo que
não aconteceu nas sucessivas visitas que Bill Clinton fez à Europa, onde era
recebido por autênticas multidões.  Com Clinton havia momentos para o
encontro com a população. Com George W. Bush foi tudo, artificialmente
preparado.  É que apesar dos esforços dos serviços secretos americanos para
encontrarem cidadãos comuns que quisessem cumprimentar, em massa, o
Presidente dos Estados Unidos, não houve interessados.
O Presidente perdeu-se na Europa. Apresentou amplos sinais de aproximação
entre os dois continentes, e os europeus aplaudiram, enquanto o colocavam
num beco sem saída, no que concerne à Síria e ao Irão.  Em pouco, o chefe de
estado americano, ou entra nas negociações, a reboque dos europeus, ou
regressa para o seu solidário canto neoconservador, fraccionando qualquer
expectativa de regeneração nas relações Europa-América.
Se tal acontecer, não veremos, nem tão pouco, um simples sorriso postiço.

Califórnia - Fevereiro de 2005


       


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