Via Pública


• Manuel S.M. Leal



Soldado Ninja - Tropa Especial

O Portugal colonialista subjugado à caligem política e cultural do governo
autoritário de António Salazar, e depois Marcelo Caetano, assemelhava-se a
um sapo em noite escura quando os machos se anunciam às fêmeas para a função
natural da procriação. Barulheiro, proclamava aos quatro ventos a sua
capacidade imaginária de defender o império pelas armas que nem ali se
construíam, e saía em cadência imponente pelas ruas com o derrière das
calças roto. Os homens que marchavam então, franzinos e tristes, não eram,
todavia, menos em audácia e valor que os demais ou quiçá os melhores pelo
mundo fora. Na memória dos seus maiores, de São Mamede a Ourique, de
Aljubarrota  às paredes da fortaleza de Diu, a juventude humilhada à falta
de visão histórica do governo tinha por identificação a herança científica,
militar e humana expressada no génio do Infante D. Henrique, a coragem de
Mouzinho de Albuquerque e a inspiração de Bartolomeu de Gusmão.
Em Goa, um brigadeiro, comandante-chefe de todas as forças portuguesas na
Índia, foi aprisionado depois de ter mudado a farda pela roupa de um
miserável varredor das ruas. Os seus  soldados renderam-se sem dificuldades
de consciência ao abandonarem a missão suicida que de Lisboa se lhes exigia.
O Estado Português da Índia caiu por terra porque a metrópole que fizera
história ao chegar ali nas naus de Vasco da Gama não soubera prossegui-la na
execução da sua retórica integracionista. Junto à costa, confrontado por um
cruzador estrondoso da nova democracia indiana, o aviso Afonso de
Albuquerque logrou disparar um tiro insignificante pela honra multimilenária
da marinha de guerra - "Honrai a Pátria que a Pátria vos contempla" - e
depois ali ficou, encalhado e vencido.
Já em Angola e Moçambique, como na Guiné, o exército fizera uma linha na
terra e dali para dentro só se colocavam as vidas em risco quando um
companheiro pedia ajuda. Cumprira estoicamente a ordem inicial de proteger a
soberania colonial "em velocidade e força". Mas a tropa, do general ao
magala, sabia que a perda do império ficara subentendida no "grito do
Ipiranga" mais de um século antes. O Brasil se afirmara lusíada mas não
escravo. Em vez de lutarem por uma causa perdida, as forças armadas,
sangrando no capim, libertaram a pátria em 1974.
Portugal-dono-de-um império da Europa à Ásia tinha dimensões humanas mais
reduzidas que o território minúsculo de hoje. Ocupando cerca de um quinto da
península hispânica, restam-lhe no mar cujo sal são lágrimas de Portugal, no
dizer de Fernando Pessoa, os arquipélagos da Madeira e Açores. A Lusitânia
dos nossos dias possui a dignidade de um povo que vive em democracia.
As forças armadas portuguesas, sem a ameaça secular dos invasores espanhóis
que ainda em 1802 teve eco na derrota de Massena, "filho querido das
vitórias napoleónicas", são uma força integrada na Organização do Tratado do
Atlântico Norte. A Europa e o Ocidente em geral podem esperar as mais
difíceis e arrojadas missões no quadro da sua preparação segundo o modelo
que os Estados Unidos deram ao Velho Mundo depois da guerra-fria. Há uma
evolução paralela na reorganização do exército português em relação à
modernização militar nos Estados Unidos. Os velhos tanques com que Santos
Costa pretendia demonstrar a vitalidade do regime autoritário há 50 anos
desapareceram. As baterias de costa com as culatras desfeitas pelo uso
repetido de muitos anos de tiro ao mar já não existem. A infantaria
imaginando as cargas à baioneta como em La Liz  deu lugar ao soldado
"ninja", às forças especiais cujo espírito já os fuzileiros e pára-quedistas
vinham considerando há vários anos.  E se bem que o governo tenha sido
ridicularizado há meses ao pretender adquirir submarinos, a vertente
preponderante é no treino de uma força móbil, rápida, altamente sofisticada
na preparação e no armamento destinada ao uso célere em situações de perigo
iminente.
Nenhum país da OTAN, na Europa, possui um exército destinado a actuar
independente da organização. O modelo que agora está em efeito é de pequenas
organizações militares em cada estado membro, sujeitas a um comando
integrado na visão geral de uma aliança em que cada parcela possui uma
missão específica. No caso português, a participação nos Balcãs demonstrou a
eficiência das forças para ali enviadas e a sua capacidade de trabalho ao
lado e em paridade com contingentes de outros países. O mesmo acontece agora
no Iraque, onde um grupo especial, os chamados ninjas, protege os diplomatas
portugueses naquele país. Um outro grupo similar poderá partir dentro de
pouco tempo para a Arábia Saudita, onde os diplomatas e cidadãos de países
ocidentais correm grave risco de ataques da organização terrorista Al Qaeda.

Psych1940@yahoo.com.
    


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