O castigo

Hélio Bernardo Lopes




Lá tiveram lugar, finalmente, as eleições antecipadas para deputados,
convocadas pelo Presidente da República. E os resultados foram os sempre
esperados pela maioria dos portugueses mais atentos, e que as sondagens
sempre indicaram, ainda que com cambiantes. É, pois, o momento de se
realizarem algumas reflexões simples mas essenciais.
Em primeiro lugar, o enorme significado da quase ininterrupta sucessão de
sondagens favoráveis ao Partido Socialista, logo desde que Durão Barroso
tomou o comando do Governo. Sucessão que se desenrolou na sequência de uma
vitória do PSD por maioria relativa, com uma escassa margem de menos de três
por cento sobre o fragilizado PS de Ferro Rodrigues.
Em segundo lugar, o enorme erro de Pedro Santana Lopes e de Paulo Portas em
não aceitarem eleições antecipadas aquando do abandono de Durão Barroso do
Governo de Portugal. Ainda que vindo a perder para o PS de Ferro Rodrigues,
a verdade é que nunca os resultados teriam sido os que foram agora. A prazo
curto, seria bem possível que a coligação ora derrotada pudesse voltar ao
poder, já então em muito melhores condições.
Em terceiro lugar, ao recusar o acto eleitoral, Santana Lopes viu-se privado
do peso do sufrágio universal, como tardiamente Dias Loureiro lhe mostrou,
para lá de que o congresso do seu partido se viu privado do natural valor
que teria se tivessem havido eleições, e mesmo que as não ganhasse.
Em quarto lugar, e como consequência da anterior realidade, a possibilidade
que se criou de uns quantos barões do PSD, embora com peso, poderem
desenvolver toda a acção que todos pudemos perceber, de sabotagem da pessoa
de Pedro Santana Lopes enquanto líder do PSD.
Em quinto lugar, a inacreditável incapacidade do líder laranja para chamar à
pedra, logo desde cedo, os seus colegas de partido que diariamente lhe
sabotavam a imagem e as ideias ou propostas: não se pode ter tudo por dois
escudos...
Em sexto lugar, esta realidade que, embora muito simples, não foi ainda
percebida: não foram Durão Barroso, Santana Lopes e Paulo Portas que foram
penalizados, mas as políticas de criação de miséria social que tentaram pôr
em prática. A prova disso está na tangencial vitória de Durão, apesar do
modo como António Guterres se viu forçado a deixar o poder, e em tudo quanto
se passou até este resultado de agora.
Em sétimo lugar, uma lição para José Sócrates e para o seu partido: para se
manter no poder e assim servir Portugal e os portugueses, terá de defender a
dignidade dos mesmos, invertendo a ribanceira social que PSD e CDS/PP vinham
construindo. De outro modo, de imediato começará a destruição rápida do que
receberam agora dos eleitores...
Finalmente, a eleição presidencial. Depois de quanto foi possível ouvir aos
dirigentes do PSD e do CDS/PP sobre o precendente de Jorge Sampaio, o
caminho para a eleição de Cavaco Silva está hoje muito dificultado: se
viesse a ganhar as eleições, porque não repetir esta iniciativa de Jorge
Sampaio, dissolvendo esta actual maioria à luz de uma qualquer quezília com
José Sócrates? Ou seja: a realização da governação e correspondente
responsabilização final do Governo de José Sócrates só será possível com um
Presidente da República oriundo da mesma área política, que não venha para
tentar interferir com as opções do Governo.



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