Repiques da Saudade

 
Ferreira Moreno



Em Louvor do Ovo

Alocução latina "omne vivum ex ovo" (todo o ser vivo provém de um ovo)
trouxe-me à lembrança o argumento, que se há perpetuado por gerações sem
conta e ainda hoje insondável. Refiro-me à inquisitiva e intricada
controvérsia acerca da origem da galinha e do ovo; qual deles veio primeiro?
Não é minha intenção estatelar-me agora em futilidades temáticas, mas
consta-me que, algures em África, existe uma tribo mais interessada em
observar o senso comum sem imiscuir-se em reflexões filosóficas. Visto que a
galinha representa um manancial nutritivo superior ao ovo, e é do ovo que
nasce a galinha, as crianças são educadas em não roubar ovos. A meu ver, não
se trata duma questão de ladroagem, mas sim da salvaguarda da propriedade
comunitária. Evidentemente, quanto maior for a produção de ovos, maior será
a reprodução de galinhas. Consequentemente, haverá mais comida p'rá
população!
Considero bastante curioso que, nos primórdios da tradição católica, houve
grande confusão a respeito dos ovos nas leis do jejum e abstinência. Tempos
houve que não era permitido comer ovos na quadra quaresmal. Era, então,
crença vigente serem os ovos um produto animal, tal qual como a carne e o
queijo.
Em louvor do ovo, atrevo-me a narrar um episódio picaresco...
Caterina Sforza (1463-1509), filha de Galeazzo Sforza, Duque de Milão
(assassinado em 1476), casou em 1473 com Girolamo Riario, sobrinho do Papa
Sisto IV. Girolamo foi assassinado em 1488. O segundo marido de Caterina, de
nome Giacomo Feo, foi também assassinado em 1495. Não contando os amantes de
Caterina, Giovanni de Medici (1467-1498) figuram em terceiro lugar na lista
de maridos.
Em 1500, por ordem de Cesare Borgia (1476-1507), Caterina esteve encarcerada
num castelo em Roma e privada de comida suficiente p¹ra sobreviver. Nesta
instância dramática, valeu-lhe um piedoso frade que, às escondidas
entregava-lhe uns ovinhos e era recompensado com avultados ³ducados² (moedas
de oiro).
O rei francês Luiz IV tinha, por costume, comer ovos cozidos todos os
domingos e, juntamente com Madame de Pompadour, criava galinhas no palácio
de Versalhes, levando as melhores galinhas poedeiras sempre que o séquito
real ia de viagem.
No período em que os ovos foram proibidos durante a Quaresma, ou seja, desde
Carlos Magno até 1784, todos os ovos encontrados na capoeira eram destinados
p¹ró choco ou guardados p'ra serem comidos na Páscoa.
Em conformidade com uma estatística divulgada em 1985, os Estados Unidos
teriam produzido (nesse ano) mais de 68 biliões de ovos.
A Califorlândia produz 12 por cento a nível nacional, seguindo-se-lhe os
estados de Georgia, Arkansas, North Carolina, Indiana e Pennsylvania.
E tempos houve, no século passado, que a cidade de Petaluma, no Condado ou
Concelho de Sonoma (Califorlândia), era mais conhecida por "Cidade das
Galinhas" e orgulhava-se em ser considerada o "Cabaz Mundial do Ovo".
Nos Estados Unidos encontram-se três cidades com o nome de Egg Harbor (Porto
do Ovo), respectivamente em New Jersey, Arkansas e Michigan. No condado
californiano de Modoc, existe uma lagoa ou lago com o nome Egg Lake,
pertencente ao Modoc National Forest.
Ainda em louvor do ovo, conheço frases comparativas e adágios curiosos, tais
como:
Cheio como um ovo e amarelo como um ovo; Não se fazem morcelas sem sangue,
nem omeletas sem ovos; P'ra ovos frigir, temos de os partir; Não se fritam
ovos com o vento; Mais vale um ovo na boca do que uma galinha na capoeira;
Ovo de galinha branca é igual ao da galinha preta, e Ovo podre estraga o
bolo.
Na lista de provérbios, saliento os seguintes: O leitão e os ovos, dos
velhos fazem novos; Ovo sem sal não faz nem bem nem mal; Rainha é a galinha
que põe ovos na vindima; Ovo assado, meio ovo; Ovo cozido, ovo inteiro; ovo
frito, ovo e meio.
Do número de expressões populares, escolhi apenas estas:
Ensinar a avozinha a chupar ovos, ou seja, tentar dar lição a alguém com
mais idade e experiência do que nós próprios, como no caso de pretender
ensinar o Pai-Nosso ao vigário. Por outro lado, colocar todos os ovos num
cesto, tal significa arriscar tudo no alcance duma aventura. P'ra quem caiu
numa situação embaraçosa ou caricata, diz-se que ficou com um ovo emplastado
na cara.
De facto, há muita gente que cacareja e não põe ovo!



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