Carlos Gonçalves ao PT:
"As minhas influências estão nos cinco melhores da guitarra: Armandinho, Jaime Santos, Artur Paredes Carlos Paredes e José Nunes"

Carlos Gonçalves, nasceu em Beja a 3 de Junho de 1938. Iniciou a sua
aprendizagem na guitarra portuguesa aos 15 anos, estimulado pelos programas
radiofónicos.
Em 1957, quando vai viver para Lisboa, realiza acompanhamentos de fadistas
profissionais, sendo contratado para actuar na "Adega da Anita" (Anita
Guerreiro, que durante anos viveu aqui na Nova Inglaterra), no Parque Mayer,
e indo mais tarde para o restaurante típico "Lobos do Mar".
Seguem-se actuações nas mais importantes casas de fado em Portugal e em
Espanha. Durante todos estes anos, que constituem a primeira fase da sua
carreira, acompanha os fadistas mais representativos da época dourada do
fado, de onde se destacam Alfredo Marceneiro, Maria Teresa de Noronha,
Argentina Santos e Fernando Farinha.
Em Maio de 1968 inicia uma longa e profícua fase de colaboração com Amália
Rodrigues, integrando-se no grupo liderado por Fontes Rocha a quem, mais
tarde, substitui e formando - com Pinto Varela, Jorge Fernando e Joel Pina
- o grupo regular de acompanhamento da artista na década de 80. Acompanha
Amália Rodrigues, tanto em gravações artísticas, como em espectáculos ao
vivo nos melhores teatros, salas e televisões de todo o mundo, durante
várias décadas.
Entre muitas outras gravações, gravou, de 1980 a 1983, três LPs cujos temas
são exclusivamente da sua autoria, sendo os poemas de Amália Rodrigues, de
onde se destacam Lágrima e Grito (este último escolhido por Amália para ser
cantado no seu funeral).
Após inúmeras gravações acompanhando e dirigindo os maiores artistas das
mais importantes casas discográficas, acede por fim a gravar um álbum como
solista, onde podemos apreciar a sensibilidade, a criatividade e o gosto
pessoal do homem, guitarrista e autor.

PT - Como nasceu a "Essência da Guitarra Portuguesa"?
Carlos Gonçalves - "Como sempre fui acompanhador e desde 1968 que acompanhei
Amália Rodrigues, nunca pensei gravar um disco a solo. Só agora resolvi
fazer espectáculos a solo e também com Manuela Cavaco, tinha de gravar um
disco".

PT - Terá sido o seu primeiro registo discográfico a solo?
CG - "Sim, este foi o primeiro disco".

PT - Fale-nos do critério de escolha do repertório deste disco e dos
compositores lá inseridos.

CG - "O critério foi tocar composições dos cinco guitarristas que todos
juntos fazem a melhor guitarra que existe e que nunca mais ninguém fará
melhor. São eles: Armandinho, Artur Paredes, Jaime Santos, José Nunes e
Carlos Paredes. Digo são eles porque apesar de já terem morrido, continuam
vivos, porque estão aí os seus discos. Daí o nome do disco".

PT - Como e quando nasceu a paixão pela guitarra portuguesa?
CG - "Aos 15 anos, a primeira vez que ouvi a guitarra portuguesa".

PT - Que memórias guarda de Amália Rodrigues?
CG - "Como toda a gente, guardo muitas e boas memórias".

PT - Fale-nos das suas experiências e vivências como guitarrista ao longo
destes anos de uma carreira longa e rica.

CG - "Tirando dez por cento, ficam noventa por cento de boas experiências e
vivências".

PT - Como vê o surgimento de novos valores, poetas, compositores,
intérpretes e de certa forma algumas novas formas de instrumentalização do
fado e novas correntes mais vanguardistas que se pretende dar ao fado?

CG - "Como é natural, todos os dias nascem pessoas e é natural aparecerem
novos artistas com valor, mas depois é preciso medi-lo, porque o valor de
cada pessoa vai de 0 a 100 por cento. Quanto à instrumentalização do fado,
sempre existiu. Diz-se novas, diz-se diferentes formas de acompanhar. Essa
coisa de vanguardistas não existe..."

PT - A guitarra pertence apenas ao fado ou poderá ser utilizada noutros
géneros musicais?

CG - "Poderá ser utilizada em todos os géneros musicais. O fado, foi de há
mais de sessenta para cá, muitas vezes acompanhado por orquestras, até
sinfónicas, mas nenhum instrumento nem orquestra, acompanha melhor o fado do
que a guitarra portuguesa e a viola. Eu posso explicar porquê, mas isso
encheria uma página do jornal".

PT - Será que há cada vez mais artistas no fado em vez de fadistas?
CG - "Só se é fadista quando se está a cantar um fado. Se um fadista cantar
a seguir outro tipo de música já não está a ser fadista. O problema está em
se cantar bem, o que acontece poucas vezes. Um artista é uma pessoa que faz
ou trabalha com qualquer tipo de arte, só que há muitos e muitos artistas
que não têm talento. Aí é que está o problema".

PT - Quais as suas grandes influências e nomes que mais admira, tanto no
passado como no presente, em termos de compositores, executantes e
intérpretes no fado?

CG - "As minhas influências na guitarra são os cinco guitarristas que já
mencionei, quanto aos outros é-me difícil responder porque tinha de explicar
o porquê do meu gosto e não há espaço aqui".

PT - Como criador do clássico "Lágrima", que sensação sente ao ouvi-lo ser
cantado por diversos intérpretes?

CG - "Uma sensação muito boa".

PT - Para si a quem atribui a melhor interpretação deste tema?
CG - "A Amália, embora naquela altura estivesse diminuída. Estava a
convalescer de um problema no coração e já não tinha 50 anos. De qualquer
maneira, em primeiro e a uma grande distância de toda a gente, mesmo a nível
mundial, está Amália".

PT - Quais os fadistas que tem acompanhado nos últimos anos?
CG - "Tinha de dizer o nome deles todos e são mais de trinta".

PT - "Como vê o movimento criado recentemente no sentido de denominar o fado
como Património da Humanidade?

CG - "Com bons olhos..."

PT - Para quando uma digressão pelas comunidades lusas nos EUA?
CG - "Gostava muito, mas só com contratos para fazer alguns espectáculos.
Estou tratando disso".

PT - Das vozes de outrora e das novas vozes no fado quem mais admira e
gosta?

CG - "A minha análise desse assunto é que eu não misturo artistas do passado
com artistas de agora. Eles estão sempre presentes, embora erradamente não
se fale neles em parte nenhuma. Então tinha de falar em muitos nomes e não
dá..."


A essência da guitarra portuguesa

- O disco -

O meu sentir
(Jaime Santos)
Meditando
(Armandinho)
Marcha fadista
(Armandinho, F. Carvalhinho)
Lágrima
(Carlos Gonçalves)
Caixinha de música
(José Nunes)
Lisboa Antiga
(Raúl Portela)
Variações em Mi
(Armandinho, José Nunes)
Variações em Si Menor
(José Nunes)
Vira de Frielas
(José Nunes)
Fado João de Deus
(Armandinho, José Nunes)
Balada de Coimbra
(Arranjo: Artur Paredes)
Romance
(Narciso, Yepez)
Abril em Portugal
(Raúl Ferrão)


Algumas composições de sua autoria

- Ai as gentes, ai a vida
- O fado chora-se bem
- Alma minha
- Amor de mel amor de fel
- Asa de vento
- Contigo fica o engano
- Entrega
- Sou filha das ervas
- Flor de verde pinho
- Fui ao mar buscar sardinhas
- Gostava de ser quem era
- Grito
- Lágrima
- Obsessão
- Quando se gosta de alguém
- Rosa de fogo
- Gastei contigo as palavras
- Variações em Mi menor
- Marcha fadista em Ré


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