Teatro
Carmen Dolores quer despedir-se do palco quase 60 anos depois da estreia

A actriz Carmen Dolores, que este ano cumpre 60 anos de carreira teatral,
regressou sábado ao palco do Teatro Aberto, em Lisboa, apesar de projectar
sair de cena para "se poupar e viver ainda uns anos razoavelmente".
"Cada vez quero menos fazer teatro, porque isso me dá uma angústia muito
grande", disse a actriz a propósito da reposição de "Copenhaga", sublinhando
que pretende "viver ainda alguns anos razoavelmente".
A decisão nada tem a ver com o público, que, como referiu, sempre a tratou
com "grande carinho" e que ainda hoje a reconhece na rua pela voz.
A mesma voz, acrescentou, a que, "desde miúda", sempre deu "grande
importância" e que "por mero acaso" a levou a dizer poesia na Rádio Sonora
aos 14 anos.
19 de Outubro de 1938 é a data que Carmen Dolores não esquece quando, pela
mão do irmão António Sarmento, mais tarde também actor, disse os primeiros
poemas aos microfones da Rádio Sonora, o que, nas suas palavras, constituiu
a sua "verdadeira estreia".
Não que confira menor importância ao teatro, até porque tem "sido sempre
muito bem tratada e acarinhada pelo público e colegas", mas porque a poesia
a acompanhou sempre, tal como a rádio, explicou.
"Tenho uma ternura muito grande pelas minhas personagens, pelas anteriores e
pelas futuras e, por isso, tenho sempre receio de as repetir. E sinto que se
o fizesse estaria a atraiçoar personagens e público", afiançou.
Segundo garante só esteve "calmíssima" em palco em 1945 quando, pela mão de
António Lopes Ribeiro, entrou para a companhia "Comediantes de Lisboa" e
subiu ao palco do Teatro da Trindade com a peça "A Mensageira dos Deuses" de
Jean Giraudoux.
Apesar das responsabilidades e das angústias em palco, Carmen Dolores
considera-se "uma pessoa com imensa sorte na vida", assumindo-se igualmente
como "muito inibida e autocrítica" embora admita que a idade contribuiu
"imenso" para a "descontrair" e a tornar "mais optimista".
E se o teatro não está no seu horizonte futuro, o mesmo não acontece com o
segundo livro de memórias que se encontra a escrever, adiantou a actriz à
Lusa.
"Retrato inacabado. Memórias", é o nome do primeiro volume autobiográfico,
publicado em 1984, e que a actriz pretende agora continuar. Livro onde
Carmen Dolores citará uma pequena parte do poema "O Marinheiro" de Fernando
Pessoa e que, nas palavras da actriz, a define "na perfeição".
"Éreis feliz, minha irmã?" - questiona a segunda veleira no poema ao que a
primeira responde: "Começo neste momento a tê-lo sido outrora", declama
Carmen Dolores ao jeito de quem justifica a sua saída de cena.


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