Desporto

Afonso Costa

 

OPINIÃO

Jaime Pacheco


O tio José Velhinho, casado com a tia Mariana, tinha um cão preto, feio como um bode, dos tais que se atiravam a tudo quanto mexia e quando se tratava de um rato o bicho rebentava correntes e tudo para devorar o inimigo número um.
Chamava-se labrego, nome adequado à sua constante agressividade e
indisposição. Mas o labrego não tinha culpa de ser assim, até porque era de
raça apurada e não há muito o todo poderoso New York Times, num especial
dedicado ao fiel amigo, falou deles e da sua rara intuição para servir os
seus donos.
Como dizia, o labrego era ruim porque o meu mencionado vizinho teimava em
mantê-lo acorrentado ao pé da barraca do milho, para ali atirando de vez em
quando uma côdea de pão com bolor que o bicho devorava avidamente. Se fosse
por estes lados, fazia eu queixa à polícia e o tio José Velhinho aprenderia
por certo que os bichos têm todo o direito de ser bem tratados, nomeadamente
estes que são tão fiéis e amigos dos que lhe dão abrigo.
No futebol português também há labregos, como por exemplo o Jaime Pacheco, a
ver pela cena que fez no docorrer do jogo em que a sua equipa levou uma
tremenda lição da do Sporting, sendo derrotada por um claro 4-0 e não foram
oito porque o Sá Pinto teve uma noite desastrada.
Por mais voltas que se possa dar à cabeça, não se compreendem as razões de
tanta falta de senso e educação por parte do técnico boavisteiro, até pela
simpes e linear razão de que o árbitro esteve bem em todas as decisões que
assumiu e não foi por causa dele que o Bovista jogou tão mal ou o Sporting
tão bem.
Depois da ordem de expulsão, era vê-lo aos pulos que nem um macaco, punhos e
dentes cerrados, colocando-se depois no meio de meia dúzia de arruaceiros
que logo aproveitaram, inteligentes que são, a ajudar o mister nas suas
gritarias e no seu grosseiro vozeirão
Pessoamente até concordo que no futebol haja lugar para equipas vivas,
agressivas e de futebol apaixonado como esta do Boavista. Daí a concordar
com a violência, com a maldosa intenção de algumas jogadas vai uma distância
muito grande.
Independentemente daquilo que foi como jogador e do valor que possa
realmente ter como treinador, acho que este Jaime Pacheco está a mais no
futebol.

FELIPÃO
Mas ontem, segunda-feira à tardinha, vi a entrevista que o treinador da
selecção portuguesa deu a Cecília Carmo, na RTPi. Sabem, ando meio zarolho
de um olho, tenho que recolher a casa cedo para o tratamento e lá fico, à
Camões, deitado de lado a ver televisão. Escrever estas linhas é um suplício
mas o sr. Adelino, bossa do jornal, disse que tinha de ser, que eu tinha de
assumir com os meus compromissos... mesmo só com um olho.
Seu Felipão deu uma lição de lealdade, de educação, de boas maneiras e,
sobretudo, de humildade. É um homem feliz, tagarelão, de quem é fácil gostar
e de quem deve dar gosto ser amigo.
Desviou-se com inteligência das questões difíceis, das tais que poderiam
ferir susceptibilidades, daquelas que poderiam pôr em risco o excelente
clima que o conjunto português vive desde que chegou a Portugal, mas não
enjeitou responsabilidades e deixou claro que é ele quem manda, é ele que
decide, para o bem e para o mal.
Deixou igualmente claro que afastou gente que, na sua opinião, não serviam o
tal espírito de selecção e deixou claro que não conta mais com eles seja
qual for a forma em que se encontrem nos seus respectivos clubes.
Cá está um exemplo de como se deve estar no futebol e na vida, ou a certeza
de que as pessoas são tão diferentes uma das outras. Ou ainda a certeza de
que felizmente nem todos os portugueses são como o Jaime Pacheco e a mesma
certeza de que é pena todos os brasileiros não serem como esta alma boa a
quem chamam Felipão.

P.S.
Para a semana, se o olho deixar, vou falar do meu Santa Clara, das
implicações da sua quase certa despromoção, que vão desde as liguilas e
possibilidades de despromoções do Lusitânia e União Micaelense. Pior, o
Santa Clara pode fechar as portas!