Portuguese Times Eurico Mendes - EXPRESSAMENDES

 

Clubismos, divisionismos e outros ismos

Há coisa de 30 anos, o recentemente falecido António Alberto Costa teve a
vida ameaçada: ia sendo vítima de antropofagia.
Ao tempo director de programação da rádio portuguesa de New Bedford, a WGCY
(actual WJFD), Costa lançou uma campanha com vista à  fusão dos clubes
portugueses existentes na cidade e quase o comiam vivo.
Umas mais conhecidas e actuantes que outras, havia - e há - em New Bedford
cerca de duas dezenas de associações portuguesas, umas recreativas, outras
regionalistas ou religiosas e todas com meritório papel.
Só na Orchard Street, no sul da cidade e a curta distância uns dos outros,
existem Montepio Luso-Americano, Clube dos Pescadores e Clube União
Faialense.
Ainda no sul, temos Portuguese Sports Club, Holy Ghost Club e, de
constituição recente, New Bedford Benfica Club.
Noutros tempos, as pessoas não dispunham de carro, andavam de eléctrico ou a
pé e careciam da igreja, do clube e da padaria perto de casa. O sul e o
norte eram subúrbios e ir ao centro, onde ficavam as lojas de luxo, o city
hall e outras repartições, era "r à cidade".
A comunidade portuguesa começou por residir no sul da cidade, na Water
Street, que na época baleeira chegou a ser conhecida por Fayal Street.
Passou depois ao norte, onde foram criando os seus clubes e hoje anotamos a
existência de 13.
A saber: Centro Luso-Americano, Clube Sports Madeirense, Clube Madeirense do
Santíssimo Sacramento, New Bedford Sports Club, Clube Recordações de
Portugal, Portuguese American Athletic Club, Senhor da Pedra Club, St.
Michael Social Club, Clube Ponta Delgada, Casa do Benfica, Casa do F.C.
Porto, Núcleo Sportinguista, Banda Senhora dos Anjos e talvez falhe algum.
Nesta altura, o leitor já deve ter pensado o que Alberto Costa pensou: se
fossem em menor número, os clubes portugueses existentes seriam mais
representativos da comunidade.
Realmente, com o número de sócios, as receitas e o  património das cerca de
duas dezenas de associações poder-se-iam criar três ou quatro mais ricas e
prestigiosas.
Mas a ideia foi prontamente rejeitada pelos próprios clubes zelosos do seu
historial, o que se aceita.
O clubismo resulta dos divisionismos das comunidades portuguesas nos EUA,
que se repartem em continentais, madeirenses e açorianos, agrupadas por
ilhas e até por freguesias.
Os divisionismos verificam-se desde o surgimento da primeira sociedade
portuguesa nos EUA,  há 158 anos.
Em 1840, fixaram-se na Louisiana uma dezena de portugueses contratados para
trabalhar nas plantações de açúcar e que, decorridos três anos, em Abril de
1847, fundaram a Portuguese Benevolent Association sociedade mutualista que,
além de garantir aos seus membros um subsídio de doença e funeral,
organizava  também a sua festa anual do Espírito Santo.
Decorridos alguns meses, divergências provocaram a saída de alguns membros
para formarem, em Agosto de 1848, a Lusitanian Benevolent Association.
A Portuguese Benevolent Association não foi longe, mas a Lusitanian
Benevolent Association existiu em New Orleans até 1960, embora já nenhum dos
seus membros fosse de ascendência portuguesa.
As associações de socorros mútuos ou fraternalistas foram muito importantes
numa época em que não existiam sistemas hospitalares e assistenciais e nos
anos 20 havia em Fall River as seguintes sociedades beneficentes
portuguesas: Aliança Portuguesa, Montepio Operário, Operária Açoriana,
Associação Santa Catarina, União Madeirense, Associação Santa Isabel,
Associação S. José e Caridade, Sociedade Nossa Senhora da Luz, Associação S.
Miguel Arcanjo e Associação Nossa Senhora de Lourdes.
Sobrevive apenas a Sociedade Nossa Senhora da Luz, mas todas estas
sociedades desempenharam acção social importante e a Aliança Portuguesa,
fundada em 1924, distribuiu mais de 300 mil dólares pelos associados.
À época, Fall River tinha também outras colectividades, como o Ateneu
Português, Clube Beira Alta, Bliss Corner Portuguese Social Club, Clube
Lisbonense, Clube Português Instrução e Recreio e o Portuguese American
Club. Isto para não falar das bandas, como a de Santo Cristo, e dos clubes
políticos, consequência do derrube da monarquia e implantação da república
em Portugal: Centro D. Manuel, Clube Afonso Costa, Clube Teófilo Braga e
Clube D. Carlos, este último ainda existente.
Também em Fall River se pensou várias vezes na fusão das associações, mas
sempre surgiram vozes discordantes.
A dada altura, tocar no assunto tornou-se mesmo impopular, conforme se
depreende de artigo inserto na edição de 9 de Junho de 1923 do jornal Era
Nova, que se publicou em Fall River e no qual se afirma a dado passo:
"(...) Vá lá alguém aventurar-se a dizer que cinco ou seis clubes em toda a
colónia de Fall River, ou mesmo, e melhor, um só clube, que honrasse os 20 e
tal mil portugueses que aqui se encontram, seria suficiente e poderia
dar-nos uma influência que, divididos, nunca poderemos ter!"
A proliferação clubista é um problema que há 70 anos o Era Nova atribuia à
ignorância da comunidade. Os únicos locais onde os portugueses podiam dar
nas vistas era nas festas paroquiais e nos clubes. E ser director dava
prestígio.
A redução do número de clubes implicava menos directores e dizia-se que a
fusão não tinha ido em frente por causa disso.
Não sei se seria assim, mas o problema da proliferação clubista continua a
verificar-se e temos um exemplo recente nas associações de ex-combatentes.
A Liga de Imigrantes da Nova Inglaterra Combatentes nas Ex-Colónias
(LINICEC), que está sediada em Fall River, foi constituída há apenas dois
anos, mas já se verificaram dissidências que deram origem a uma outra
Associação de Veteranos das Forças Armadas, que se instalou em Taunton.
As duas associações assinalaram domingo o 31º aniversário do 25 de Abril e,
se o tivessem feito juntas, teria sido talvez uma festa de romba.
Mas esta proliferação reflecte também o individualismo da nossa gente.
Gostamos de acautelar o dia de amanhã, em particular o dia em que
entregaremos a alma ao Criador, que é a única coisa que o homem tem de
certo.
Por isso andei com ideia de me inscrever numa das sociedades fraternalistas
que ainda existem, embora já não sejam tantas como há 50 anos, pois
entretanto surgiram companhias de seguros.
Informei-me junto do presidente da associação beneficente que me interessava
sobre os benefícios em caso de falecimento e o sujeito foi franco:

"Meu caro amigo, ao preço a que os funerais estão, o seu benefício quando
morrer é deixar de pagar as quotas".

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EUA querem exigir listas de passageiros das transportadoras aéreas que
sobrevoem o seu território, no âmbito das medidas de protecção contra
atentados terroristas. Cerca de 500 aviões cruzam diariamente o espaço dos
EUA, mas a exigência das listas aplica-se apenas a aviões que aterrem em
aeroportos americanos. Futuramente, qualquer avião que sobrevoe os EUA terá
que fornecer detalhes dos seus passageiros aos americanos, ainda que não
seja este o seu destino. Há duas semanas, um avião da companhia holandesa
KLM que viajava para o México foi obrigado a voltar a Amesterdão por causa
da presença de dois árabes a bordo.

OS SENADORES Ted Kennedy, democrata de Massachusetts e John McCain,
republicano do Arizona, submeteram esta semana ao Senado uma proposta de lei
que obrigaria os imigrantes ilegais a pagar uma multa, mas permitiria que
permanecessem nos EUA para que pudessem iniciar o processo de legalização.
Esta medida é uma alternativa à proposta de trabalhadores temporários
apresentada pelo presidente George W. Bush, que é apoiada por empresários,
mas criticada por muitos conservadores. A proposta de Bush dá aos
trabalhadores um estatuto legal por períodos de três anos renováveis, mas
exige que regressem aos países de origem concluído o contrato de trabalho.
Segundo a proposta de Kennedy e McCain, os ilegais poderiam obter vistos por
três anos renováveis uma única vez e, findos esses seis anos, poderiam
requerer o cartão verde.

A SECRETÁRIA de Estado Condoleeza Rice termina hoje uma visita de dois dias
ao Brasil, no primeiro dos quais abordou com o presidente Lula da Silva a
possível visita de George W. Bush em Setembro e a criação da Área de Livre
Comércio das Américas (Alca), cujo processo está parado há alguns meses.
Hoje, Rice participa numa conferência sobre política externa em Brasília e
segue depois viagem para a Colômbia, Chile e El Salvador.

O BENFICA conseguiu isolar-se na frente do campeonato português, mas nesta
altura os portugueses estão mais preocupados com o Chelsea, de Londres e sua
quase certa conquista do campeonato da Premier League britânica após um
jejum de 50 anos. Pela  primeira vez, o Chelsea está também nas meias-finais
da Liga dos Campeões e tem esta quarta-feira o jogo da primeira mão frente
ao Liverpool. O entusiasmo português deve-se ao facto do treinador do
Chelsea ser José Mourinho e haver ainda na equipa três jogadores
portugueses: Tiago, Paulo Ferreira e Ricardo Carvalho. Conforme escreveu um
cronista londrino, esta armada portuguesa teve o mérito de conquistar os
britânicos, tal como os medievais Magriços, mas não só. Milhares de
portugueses também são agora mais british. Mal comparado, é como se o
treinador e três dos principas jogadores dos Patriots ou dos Yankees fossem
portugueses.

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Habemus Papa
Um cardeal alemão, Joseph Ratzinger, é o sucessor do Papa João Paulo II e
foi eleito logo no segundo dia do conclave. A votação durou pouco. Foram
necessários apenas quatro escrutínios, um dos conclaves mais rápidos da
história. Isto, na opinião dos observadores, é sinal de que não houve grande
discordância ou debate em torno do nome de Ratzinger, o 265º Papa da
história e o oitavo alemão. Completou este mês 78 anos, o mais velho
pontífice eleito desde 1730 e, em Londres,  já se fazem apostas sobre quanto
tempo permanecerá no cargo.

"É preciso abolir a Inquisição, representada por Ratzinger". A frase não é
de nenhum herege, mas do teólogo suiço Hans Kung, 77 anos, que o Papa João
XX III nomeou teólogo oficial do Concílio Vaticano II. Houve tempos em que
Kung e o cardeal alemão Joseph Ratzinger, então arcebispo de Munique e agora
Papa Bento XVI, estavam de acordo,  ambos criticavam a infalibilidade papal
e defendiam o ecunemismo e a liberdade de expressão e de opinião no interior
da Igreja. Em 1981, João Paulo II nomeou Ratzinger prefeito da Congregação
para Doutrina de Fé , instância da Igreja mais conhecida na Idade Média como
Santo Ofício. O exercício das funções valeu-lhe a alcunha de Rottweiler de
Deus.

Os que não esquecem o que os alemães fizeram a seis milhões de judeus
durante a II Guerra Mundial já o alcunharam de Adolf I, mas é uma injustiça.
Ratzinger nasceu em 1927, apenas fez parte da Juventude Hitleriana, que
inspirou a Mocidade Portuguesa salazarista. Não teve tempo de ser nazi. Nem
se parece com Hitler. Mas lembra o Boris Karlof dos filmes de terror. E ao
fim e ao cabo, pouca diferença faz o Papa ser assim ou ser assado.

O Washington Post considerou que "a escolha decepcionou os cristãos que amam
a liberdade de reflectir sobre a substância doutrinal do Vaticano e vêem o
cardeal alemão como um linha-dura em questões sociais e temem que ele possa
dividir a Igreja Católica". Para o Los Angeles Times, "a Igreja está muito
dividida e muitos dos seus membros estão desiludidos".

O cardeal patriarca de Lisboa admitiu que "a escolha de Joseph Ratzinger é
um risco que poderá levar muitos católicos a não se reverem na Igreja".
Contudo, D. José Policarpo não escondeu a sua admiração: "Temos um Papa que
é um homem de grandes qualidades, um homem de inteligência superior, com
formação teológica rara. Ratzinger é um teólogo apaixonante. Quando era
estudante era o meu ídolo."

Bento ou Benedito XVI, a escolha do nome pode ser uma pista para entender o
caminho escolhido por Ratzinger. Quando foi eleito Papa, Karol Wojtyla
explicou aos seus pares as razões do nome escolhido: João como João XXIII,
Paulo como Paulo VI, João Paulo II como João Paulo I. João Paulo II definiu
o seu rumo na confluência das heranças dos seus três antecessores: o
Concílio Vaticano II de João XXIII, a correcção intelectual e doutrinária de
Paulo VI e o Papa Pastor que João Paulo I não teve tempo de ser.  Raztinger
escolheu ser Bento XVI. O seu antecessor, Bento XV, protagonizou um
pontificado breve de oito anos, mas intenso e era também um doutorado em
Direito, depois em Teologia e ainda licenciado pela Academia que formava os
diplomatas da Igreja Católica. Eleito em 1914, quando estalou a I Guerra
Mundial, foi um defensor da paz, publicou uma encíclica em que examinava
lucidamente as causas da guerra e o presidente W. Wilson baseou-se em muita
da sua doutrina quando tentou, através da Sociedade das Nações, fundar uma
nova ordem internacional de diálogo entre as nações. Tal como Ratzinger,
Bento XV foi considerado um conservador, mas foi um dos grandes Papas do
século XX, um Papa da Europa, um Papa da paz, um Papa das missões e um Papa
reformador da Igreja, publicando, entre outros diplomas, um moderno Código
de Direito Canónico apenas alterado, em 1983, por João Paulo II, para nele
incorporar o adquirido no Concílio Vaticano II.

Para muitos, ainda bem que o novo Papa não é negro. Segundo Nostradamus,
quando o Vaticano eleger um Papa negro isso é sinal do fim do mundo. Há
também quem considere que a eleição de Ratzinger é a confirmação da profecia
de São Malaquias, um arcebispo irlandês que viveu entre 1084 e 1148.
Malaquias foi para Roma em 1139, durante o pontificado de Inocêncio II e
terá tido nessa altura uma visão do Juízo Final. Nas suas profecias, faz
referência a 112 Papas a partir do século XI, dando a cada um uma divisa.
João Paulo II, o 110º, foi o Papa do Trabalho do Sol, apesar de nascido em
dia de eclipse solar. Ratzinger, que deve ser o penúltimo Papa antes do fim
do mundo, segundo São Malaquias, é o Papa da Glória da Oliveira. Escolheu o
nome de Bento ou Benedito, embora não pertença à Ordem dos Beneditinos,
conhecidos como olivetanos. Quem quiser acredite.

O bispo auxiliar da Arquidiocese de Évora é amigo íntimo de Bento XVI e
garante que a Igreja não podia ter escolhido melhor líder. D. Amândio Tomás
conheceu Joseph Ratzinger em 1982, em Roma, onde viveu mais de 20 anos e foi
reitor do Pontifício Colégio Português. O colégio tinha padres e
seminaristas alemães, Ratzinger era visita assídua e fez amizade com Amândio
Tomás. Ratzinger esteve em Fátima em Outubro de 1996 e o bispo de Évora
acompanhou-o num encontro a sós com a irmã Lúcia, no Carmelo de Coimbra.


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