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Americanizar o nome
Wai Kwan é uma chinesa simpática de Hong Kong (onde descobriu os pastéis de
nata). É colega de minha mulher.
Wai Kwan vai fazer hoje o teste para tirar os papéis americanos e já decidiu
que mudará de nome. Passará a chamar-se Chris e espera sentir-se mais
integrada na sociedade americana e menos discriminada. É por isso que os
imigrantes americanizam os nomes.
Devido a esta prática não é fácil adivinhar a nacionalidade das pessoas nos
EUA. Se por acaso o leitor chegar à fala com Lana Peters, em New York,
estará longe de pensar que é russa e ainda por cima filha de Stalin. Foi
baptizada Alliyeva Svetlana, mas passou a ser Lana Peters quando se
naturalizou americana em 1978.
No começo do século passado, quando levas de polacos, russos, italianos e
outros europeus de nome arrevezado para ouvidos anglófonos desembarcavam
diariamente na Ellis Island, em New York, eram os próprios funcionários dos
Serviços de Imigração que alteravam a seu belo prazer a identidade dos recém
chegados e um português chamado Joaquim corria o risco de passar a ser Joe
King.
Outras vezes eram os próprios colegas de trabalho que, para facilitar a
comunicação, abreviavam o nome do imigrante, os Manéis portugueses
tornavam-se Manny e os Antónios abreviavam para Tony, ainda que a mudança
nem sempre resultasse. Se um tipo nasce para ser Chico dificilmente chega a
Frank.
Por vezes, os próprios patrões exigiam a mudança, conforme aconteceu ao
micaelense António Tavares, que chegou a New Bedford em 1914. Na fábrica
onde trabalhava havia outros Tavares, todas as semanas era uma confusão com
os cheques da féria e um dia o patrão exigiu que o António deixasse de ser
Tavares. Assim nasceu a estirpe dos Travis de New Bedford.
Há que reconhecer que os nomes portugueses são demasido longos para os
americanos. No meu caso são cinco nomes e, quando me naturalizei, fiquei
reduzido a dois.
Minha mulher não mudou de nome, mesmo na documentação americana continua a
chamar-se Donzília, nome de baptismo. Mas nenhum americano consegue
pronunciar este nome e há muitos anos que amigos e colegas lhe chamam
Donna.
Regra geral, a mudança do nome é a substituição dos sons do nome português
por nome inglês semelhante e, se folhearmos as listas telefónicas de New
Bedford, Fall River, Sacramento ou San Francisco, onde os portugueses se
fixaram há mais de um século, todos os Mellow (Melo), Rogers (Rodrigues),
Curry (Correia), Perry (Pereira) e Seabury (Silveira) são possivelmente de
ascendência portuguesa.
Também havia - e há - quem preferisse traduzir o nome à letra e um Peacock
poderá ocultar um antigo Pavão.
Ou então um Wood um Madeira, caso de William M. Wood, fundador da American
Woolen Company, que em 1923 chegou a ser dono de 59 fábricas de lanifícios.
Foi um dos grandes industriais do seu tempo. Nasceu na ilha de Martha's
Vineyard em 1858, filho de um pescador da baleia português de apelido
Madeira.
Há também imigrantes que adoptaram alcunhas como nome: a família dos
Frizados, de San Jose e dos Fumegas de Providence, cujo apelido original era
Andrade.
No Hawaii temos uma família com o original apelido dos Torto da Manoa. O
patriarca do clã foi um madeirense estrábico que trabalhou na fazenda Manoa.
E o anedotário fala também do João Câmara que passou a chamar-se John City
Hall.
Estudar a genealogia das famílias americanas pode ser uma quebreira de
cabeça e as famílias luso-americanas não fogem à regra. Vá lá um
genealogista adivinhar daqui a uns anos que a família Money, de New Bedford,
surgiu quando um beirão chamado Moedas se naturalizou e resolveu
americanizar o nome.
Em Stoughton temos a família América, que surgiu há mais de um século na
ilha das Flores porque um açoriano que tinha sido imigrante resolveu dar ao
filho o nome de John América.
Apesar destes exemplos, não são os portugueses os imigrantes que mais mudam
de nome. Essa primazia pertence aos polacos, que parece nunca terem
esquecido o patético caso de Wlodmierz Krzyzanowski, imigrante polaco que
foi herói medalhado da Guerra Civil, chegou a brigadeiro e foi o primeiro
governador do estado do Alaska. Apesar da brilhante folha de serviços, o
Senado recusou sempre promover Wlodmierz Krzyzanowski a general "porque
ninguém conseguia pronunciar o seu nome".
Depois dos polacos, os italianos são os que mais se naturalizam e não faltam
celebridades de origem italiana: o escritor Salvatore Lombini, que usa os
pseudónimos de Evan Hunter, Ed McBain, Richard Monster e Hunt Collins e já
vendeu para cima de 65 milhões de livros; os cantores Anthony Dominick
Bennedetto (Tony Bennett), Pierino Roland Como (Perry Como), Vito Farinola
(Vic Damone), Francis Avallone (Frankie Avalon) e o realizador Garry
Marcharelli (Gerry Marshall).
Todos concluiram que Razolini não vai longe em terra de Smiths e Jones e
americanizaram o nome, mas também não faltam ítalo-americanos triunfantes no
showbiz com a verdadeira identidade: Frank Sinatra, o realizador Francis
Ford Coppola, os actores Roberto De Niro, Al Pacino e Sylvester Stallone,
entre outros. E se por acaso se tivessem tornado Bob Dennis, Al Pace ou Syl
Sytal talvez não tivessem ido longe em Hollywood.
É que o étnico passou a estar na moda e é frequentemente apontado o caso de
Jerry Rivers, que se estreou em 1970 na televisão, mas passou despercebido e
só começou a obter sucesso quando voltou a adoptar o verdadeiro nome de
Geraldo Rivera.
Por isso há anos, quando me naturalizei e o funcionário me perguntou se
queria mudar de nome, resolvi não o fazer.
Tenho o raio de um nome que ninguém acerta com ele. Em Portugal chamavam-me
Henrique, Erico, Ourique e nos EUA ainda é pior: umas vezes sou Henry,
outras Eric e outras Enrino, à italiana.
Ainda pensei simplificar para Rico, mas optei por ser cidadão americano de
nome português, para não me sentir como o Anthony Bennedetto, a quem Bob
Hope sugeriu que passasse a chamar-se Tony Bennett e hoje confessa sentir
uma certa frustração por ter rejeitado o apelido familiar: "Tive sorte,
mas
sempre me senti culpado por americanizar o nome, especialmente quando outros
italianos me perguntam se não tenho orgulho dos meus antepassados."
Talvez por isso Tony Bennett, que, além de cantor é também pintor, faça
questão de assinar os quadros como Bennedetto.
Não vejo vantagens em mudar de nome, mas a Wai Kwan tem todo o direito de o
fazer. Se se sente bem sendo Chris, é lá com ela.
Mas vou ter que lhe contar a história dos três chineses: Bu, Chu e Fu.
Cansados da discriminação, resolveram americanizar os seus nomes.
Por sugestão do juiz, Bu passou a chamar-se Buck; Chu passou a chamar-se
Chuck e Fu... bem, ele preferiu voltar para a China.
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A terapêutica do cavaquinho
Realizou-se na Hayward Adult School, em Hayward, Califórnia, no dia 22 de
Abril, o 12º Festival Anual de Ukulele do Norte da Califórnia. O certame foi
fundado em 1994 por Hollis Baker e John Ogao e reuniu mais de 50 tocadores
da pequena guitarra de quatro cordas de invenção portuguesa.
Jim Beloff, de Los Angeles, autor do livro "The Ukulele: A Visual
History",
proferiu uma palestra e disse que a popularidade do instrumento vem
aumentando desde 1990.
Aquilo a que os americanos chamam ukulele é o cavaquinho dos portugueses
e,
para Beloff, o interesse dos americanos pelo instrumento começou na
Exposição Internacional Panamá Pacífico, realizada em Francisco, em 1915 e
onde se apresentou um agrupamento havaiano.
Arthur Godfrey, apresentador do programa Today Show, da NBC nos anos 50,
tocava ukulele e contribuiu para divulgar o instrumento.
Kem Kanikapola Loon, 70 anos, dirige a Templebar Royal Hawaiian Ukulele
Band de Berkley e é mestre de cavaquinho. O seu estúdio, na University
Avenue, é frequentado por médicos, advogados e outras pessoas sujeitas a
grandes pressões que acreditam na terapia do cavaquinho. Reduz o stress.
O cavaquinho chegou ao Hawaii a 23 de Agosto de 1879, a bordo do navio
"Ravenscrag", que transportava um contingente de imigrantes
madeirenses
destinados às plantações de açúcar.
De acordo com relato feito à revista Paradise of the Pacific, de Janeiro de
1922, o primeiro cavaquinho chegado às ilhas seria de um tal João Fernandes,
que desembarcou empunhando o instrumento com que entretivera os demais
companheiros na longa viagem.
Contudo, o instrumento pertenceria na realidade a outro passageiro, João
Gomes da Silva.
No navio viajavam três outros homens que sabiam construir e tocar
cavaquinhos: José do Espírito Santo, Augusto Dias e Manuel Nunes. E três
exímios tocadores: João Fernandes, João Gomes da Silva e João Luís Correia.
João Fernandes, Augusto Dias e José Luís Correia formaram um conjunto que
generalizou o instrumento em danças, festas e serenatas.
O cavaquinho tornou-se popular na corte do rei Kalakaua (naquele tempo o
Hawaii era monarquia) e acabaria por converter-se no instrumento nacional
dos havaianos, com o nome de ukulele, que significa pulga saltadoura no
dialecto local.
Manuel Nunes abriu o primeiro estabelecimento de venda de ukuleles em 1884.
Augusto Dias abriu uma loja de venda e fabrico do instrumento em 1888 e o
mesmo fez José do Espírito Santo. Estes violeiros utilizavam madeiras locais
de koa e kou, com as quais construiram intrumentos de muito boa qualidade.
O cavaquinho é uma pequena viola de quatro cordas de tripa ou metálicas (em
aço), tem um primo espanhol, o requinto, mas é portuguesa e com possíveis
antepassados helénicos. O seu tom vibrante e saltitante é próprio para
acompanhar viras, chulas e malhões minhotos, mas encontramo-lo em todo o
Portugal.
A origem parece ser minhota, mas irradiou depois para outras regiões -
Coimbra, Lisboa, Algarve, Madeira, Açores, Cabo Verde, Brasil e EUA.
Temos o cavaquinho de Lisboa e o cavaquinho do Algarve, semelhantes ao
minhoto nas dimensões e cordoamento, mas com a escala em ressalto e tocado
essencialmente nas tunas.
Na ilha da Madeira, o cavaquinho ganhou os nomes de braguinha, braga,
machete, machete de braga, embora tenha as características do cavaquinho de
Lisboa. O encordoamento é de tripa, mas geralmente os madeirenses substituem
a primeira corda por um fio de aço.
Nos Açores, existe notícia histórica do cavaquinho na Prainha do Norte e nos
Flamengos, ilha do Faial.
O cavaquinho existe também em Cabo Verde, num formato maior do que o seu
congénere português e ligado a formas tradicionais da música local.
No Brasil, o cavaquinho desempenha função de acompanhamento nos mais
variados estilos, desde géneros musicais urbanos como o samba e choro, até
manifestações folclóricas como folias de reis e chegança de marujos.
Os brasileiros criaram duas variantes do cavaquinho: a guitarra baiana (um
cavaquinho eléctrico usado nos trios eléctricos) e o banjo-cavaquinho.
Os maiores sucessos mundiais de cavaquinho devem-se ao brasileiro Waldir
Azevedo (1923-1980), autor de Brasileirinho, Delicado e Pedaços do Céu. O
maestro Radames Gnatalli usava cavaquinho para concertos de Vivaldi e outros
clássicos.
Em Portugal, o grande executante de cavaquinho é hoje Júlio Pereira.
A partir do Hawaii, o cavaquinho chegou à Indonésia, onde é conhecido como
ukelele ou kerontjong.
REAGAN. A editora Harper Collins anunciou a publicação, no próximo ano, dos
diários íntimos de Ronald Reagan, falecido em Junho passado com 93 anos. A
editora diz que são os "diários presidenciais mais detalhados da história
americana" e referentes aos oito anos que passou na Casa Branca
(1989-1988).
O que é notável, uma vez que Reagan vez sofreu de Alzheimer nos últimos anos
da sua vida e já quando foi obrigado a testemunhar perante a comissão de
inquérito do Congresso ao escândalo Irangate não conseguia lembrar-se
de
nada...
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Reticências...
"Nouvelle cuisine" é francês e na realidade significa: Custa a crer,
mas
paguei 96 dólares e continuo com fome...
Muitas pessoas compram coisas em yard sales para terem qualquer coisa para
vender nos seus próprios yard sales...
Há duas pessoas que nos dizem sempre que há melhores lugares para vivermos
do que aqueles em que estamos: vendedores de propriedades e padres...
Maior controlo na venda de armas não nos tornará mais amigos uns dos
outros, mas tornará mais seguro odiarmo-nos uns aos outros...
- Ferreira Moreno
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Paulo Portas nos EUA
Paulo Portas, ex-líder do CDS-PP, é condecorado hoje, quarta-feira, em
Washington, pelo secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, pela acção
desenvolvida enquanto foi ministro da Defesa dos governos de Durão Barroso.
Segundo fontes de Lisboa, é a primeira vez que o Pentágono entrega uma
distinção a um governante português, que por sinal não fez a tropa.
Devido aos maus resultados do CDS-PP nas eleições legislativas de 20 de
Fevereiro, Paulo Portas pediu demissão da liderança do partido e desde então
vem sendo referida na imprensa de Lisboa a possibilidade de vir, em Janeiro
próximo, para a Universidade de Georgetown, em Washington.
Curiosa coincidência, ou talvez não, Durão Barroso também leccionou em
Georgetown, tendo regressado a Portugal para assumir a liderança do PSD, que
deixou para se tornar presidente da Comissão Europeia.
HÁ anos, uma companhia portuguesa de vinhos contactou Orson Welles para
filmar um comercial para a TV a fim de lançar a marca nos EUA. Mas quando o
cineasta apresentou condições ($200.000), os homens do vinho ficaram sem
pinga.
O EMBAIXADOR de Portugal na ONU reside no 120 da East End Avenue, em
Manhattan, num duplex comprado pelo Governo português no final da década de
50 e que hoje vale uns milhões.
QUANDO se encontrava em França, o escritor Ernest Hemingway adorava comer
"portugaises" (portuguesas). Comia "portuguesas" às dúzias.
Cruas, na chapa
ou abertas no vapor. Acontece que "portugaises" é o nome dado às
ostras
(Griphea angulata) portuguesas exportadas para França e outros países
europeus. São produto ³gourmet².
UM dos fundadores do American College of Surgeons foi o médico Mathias
Figueira (1853-1930). Natural da Madeira, formou-se em Coimbra e exerceu
clínica em New York.
A CASA Branca explicou a cena divertida do presidente George W. Bush e do
príncipe reinante da Arábia Saudita beijando-se na cara e caminhando de mãos
dadas como sendo uma prova de confiança entre os árabes. Só que os EUA ainda
não são a Arábia Saudita, embora a diferença já não seja muita. Na Arábia
Saudita tudo é propriedade de uma família. Nos EUA, por enquanto, tudo é
propriedade de dez famílias.
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