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A morte de Jorge Perestrelo e outras coincidências
Vítima de enfarte de miocárdio, faleceu na noite de sexta-feira, dia 6 de
Maio, em Lisboa, o jornalista desportivo Jorge Perestrelo.
A meio da tarde, deu entrada no Hospital da Cruz Vermelha, com dores no
peito. Sujeito a exames, foram-lhe detectadas lesões graves nas artérias
coronárias. Foi-lhe feita uma angioplastia, mas sofreu uma paragem cardíaca
e não resistiu.
No dia anterior, tinha estado na Holanda, onde realizou o seu último
trabalho ao serviço da TSF, a cobertura da partida das meias-finais da Taça
UEFA entre o AZ Alkmaar e o Sporting, 120 minutos "impróprios para
cardíacos", conforme ele costumava dizer. Um jogo que viveu com emoção,
embora fosse do Benfica.
Viajara no avião da comitiva leonina, na companhia de João Rocha, antigo
presidente do Sporting e da família do PT e que, por sinal, ficou indisposto
durante a viagem.
Jorge Perestrelo nasceu em Angola, no Lobito, cresceu chapinhando na bela
baía e deu os primeiros passos como jornalista no Rádio Clube do Lobito.
Ainda em Angola, esteve também ao serviço do Rádio Clube do Mochico na
lonjura das Terras do Fim do Mundo, anharas do leão e da pacaça vermelha e
da Rádio Comercial de Sá da Bandeira.
Em 1975, no turbilhão da independência de Angola, tentou a vida no Brasil,
regressando a Portugal dois anos depois para trabalhar no Rádio Clube
Português, Rádio Comercial, SIC e na TSF, rádio que ajudou a fundar em 1998
juntamente com outros angolanos, João Canedo & Ca.
Jorge Perestrelo tinha um estilo inconfundível de relatar futebol, usando a
gíria angolana. Era a sua imagem de marca.
Com a sua morte, fica mais escassa a estirpe, digamos, dos radialistas
angolanos dos anos 60 e 70, que acabaram por se espalhar pelo mundo devido
às malhas que o império tecia. Gente como Ribeiro Cristóvão, que era talvez
o melhor relator angolano de então e que está hoje na Rádio Renascença.
Já partiram uns quantos. Paulo Cardoso, eterno megalómano, que morreu nos
EUA embalado no derradeiro de sonho de um canal de televisão português no
satélite. Sebastião Coelho, grande cronista, que foi morrer à Argentina e
cujo filho é adido de imprensa na missão portuguesa na ONU, em New York.
Alfredo Cunha, corrido de Goa pelos indianos, andou pela Califórnia e foi
morrer ao microfone da Rádio Horizonte, na Terceira, tal como os actores
morrem por vezes no palco.
Santos e Sousa e Elísio de Lacerda (pai do Canedo e irmão do meu colega
Joaquim, no Rádio Clube de Uige), que acabaram os seus dias em Lisboa e na
onda curta da RDP. José Eduardo, do Rádio Clube do Lobito, falecido o ano
passado em Toronto, onde estava ligado à Rádio Asas do Atlântico. Carlos
Moutinho, que fundou a Rádio Voz de Luanda e acabou às voltas com jornais na
África do Sul. Rui Romano, com quem almocei em Luanda, em 1966, na véspera
da sua partida para a Alemanha, onde iria trabalhar para a Voz da Alemanha.
Mas chegou a Lisboa, apaixonou-se pela cidade (e pela Alice Cruz) e já não
seguiu viagem. Fez carrreira na RTP.
Esta geração começa a desaparecer. Dos que andam pela América, temos
Fernando Cruz Gomes no Canadá, José João na Califórnia, este vosso criado em
New Bedford e é possível que existam outros.
A rádio em Angola atingiu excelente nível devido à existência de mais de
duas dezenas de emissoras. A exigência não seria a da Emissora Nacional, mas
os candidatos a locutores aprendiam os pequenos truques do ofício, como
fechar as vogais, dizer "uvintes" em vez de "óvintes".
Jorge Perestrelo, que foi sepultado ontem em Lisboa, era da velha escola.
Talvez já não tenha ouvido Lança Moreira e Quadros Raposo, pioneiros do
jornalismo desportivo radiofónico em Portugal, mas aprendeu com certeza com
Amadeu José de Freitas, que foi morrer à então cidade de Lourenço Marques,
ao serviço do Rádio Clube de Moçambique.
E com o versátil Artur Agostinho, que só agora, aposentado, admitiu ser
sportinguista. Naquele tempo, os locutores não deixavam transparecer
preferência clubística, ao contrário do que agora acontece.
Outra velha regra é que os relatores desportivos, como então se dizia, não
tinham forçosamente que expressar conhecimentos técnico-tácticos durante as
transmissões. Deviam narrar a situação do jogo e evitar afirmações
descabidas que não tivessem a ver com o espectáculo.
Mas tudo isso mudou. Os novos relatores desportivos sofrem de incontinência
verbal e, como se isso não bastasse, as emissoras recorrem também aos
comentários de antigos árbitros, antigos jogadores e treinadores no
desemprego e a pedir chicotada, e não psicológica.
As transmissões desportivas são cada vez mais histéricas, os locutores ficam
cinco minutos a gritar que foi gooooooooooolo e esquecem de dizer quem
marcou e qual o resultado.
Nada que se compare, por exemplo, aos relatos do Artur Agostinho no Mundial
de 66, em Londres, que não teve as patacoadas patrióticas que o Scolari
instituiu no Euro 2004. Ouvindo o Artur a gente "via" talvez melhor o
futebol na rádio do que hoje na TV.
Também é certo que nesse tempo o futebol era diferente do actual, em que os
dirigentes se enchem de cabelos brancos, os adeptos de complexos e os
jogadores e treinadores de dinheiro.
Por falar nisso, José Mourinho, o português que é mais popular em Inglaterra
do que o clube que treina, o Chelsea londrino, foi o técnico de futebol mais
bem pago em 2004, arrecadando 7,5 milhões de euros, segundo as contas do
jornal France Football.
A Inglaterra é o país que melhor paga aos treinadores, mas se
consideramos
que os técnicos são pagos em função dos resultados que obtêm, os mais bem
pagos acabam por ser os treinadores portugueses e em particular os do
Sporting, Benfica e Porto.
Os leões de Alvalade conseguiram chegar à final da Taça UEFA, mas jogam num
domingo e no outro a equipa mais parece uma selecção paraolímpica.
Quanto às águias da Luz, andam com genica de pardal e os dragões das Antas
parecem mais lagartixas.
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Portuguese, please
Crónica aqui publicada recentemente sobre a hegemonia das canções inglesas
na rádio de Portugal e no repertório dos grupos portugueses de rock inspirou
um fax enviado à redacção questionando se "aqueles imbecis não terão
raciocínio do que estão a fazer a uma língua tão maravilhosa como a nossa?"
Claro que a música em Portugal não pode ser só fado, mas, conforme adverte o
nosso correspondente, um país começa a corromper-se precisamente pela
língua. Por isso é preocupante que a aposta da RTP no Festival da Eurovisão
2005 seja uma canção quase toda em inglês. Intitula-se "Amar", é
interpretada por um duo que também adoptou nome inglês, "2B" (Two
B).
Os intérpretes, Luciana Abreu e Rui Drummond, têm aparecido na RTPi a pedir
aos imigrantes na Europa que "ajudem a defender as cores do nosso país"
e
votem pelo telefone no dia 19 de Maio na semifinal, para que a canção
portuguesa se qualifique entre as dez primeiras e possa estar no dia
seguinte na final, que se realiza em Kiev.
Mesmo admitindo que vivemos na era da globalização, será que cantar em
inglês é defender as cores de Portugal?
Liberace e a verga madeirense
A indústria da obra-de-vimes madeirense já conheceu melhores dias. Hoje, a
própria Madeira é invadida por vimes chineses, por incrível que pareça 40%
mais baratos do que os próprios vimes madeirenses. Mas houve tempos em que
os EUA foram o principal importador da obra-de-vimes manufacturada na
freguesia da Camacha.
Existiu mesmo uma loja especializada na Acushnet Avenue, New Bedford, cujo
mais célebre cliente talvez tenha sido o falecido pianista Liberace.
Numa ocasião em que veio fazer uns espectáculos ao Cape Cod, Liberace passou
de automóvel na Acushnet Avenue, apaixonou-se por uma mesa e uns cadeirões
de vime e fez questão de comprar, apenas com duas exigências: serem pintados
cor-de-rosa e enviados para a sua residência em Las Vegas.
Um corvino no Chile
A RTP Açores deslocou-se recentemente ao Corvo para se inteirar se algum
residente ainda se lembra de um ilustre filho da ilha, Carlos G. Nascimento.
Nasceu em 1885 e começou menino a percorrer os mares do Corvo em canoas
baleeiras com o pai. Aos 20 anos demandou outros mares e desembarcou em New
Bedford, onde tinha um irmão padre, mas com pouca demora. Abalou de comboio
para San Francisco, onde tinha outros irmãos, mas também se demorou pouco
por lá. Em 1905 embarcou num cargueiro rumo a Santiago.
O livro biográfico "O Corvino Carlos G. Nascimento, Co-Arquitecto das
Letras
Chilenas", de Vasco Garcia del Postigo e editado pela Direcção Regional
da
Cultura, dos Açores, dá conta de que Nascimento foi roubado em Valparaíso.
Seguiu para Santiago, mas não se entendeu com o tio livreiro e abalou para
Concepción, onde casou com uma chilena.
Por morte do tio, Nascimento herdou a livraraia e tornou-se o maior livreiro
do Chile. Publicou autores como Gabriela Mistral e Pablo Neruda, Nobel em
1971.
Em 1948, voltou ao Corvo com a filha mais velha e a RTP localizou algumas
pessoas que ainda se lembram da visita. Nascimento contava na altura 63
anos, era um homem culto, mas passou largas horas no Largo da Cancela, à
conversa com os conterrâneos. Faleceu em 1966, com 81 anos. A Editorial
Nascimento fechou em 1986.
Guterres para comissário da ONU
O presidente da Internacional Socialista e ex-primeiro-ministro de Portugal
António Guterres foi seleccionado sexta-feira para a fase final do processo
de escolha do alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR),
juntamente com outros quatro candidatos.
Dos oito candidatos iniciais, passaram à fase seguinte, além de António
Guterres, o francês Bernard Kouchner, o tunisino Kamel Morjane, o
australiano Gareth Evans e o dinamarquês Soren Jenssen-Peterson.
O candidato português foi ouvido dia 19 em New York durante cerca de duas
horas e meia e deverá ser entrevistado pelo secretário-geral das Nações
Unidas, Kofi Annan, entre 16 e 20 deste mês.
Entretanto, o primeiro-ministro José Sócrates afirmou ter recebido a
informação de que a Rússia vai apoiar a candidatura de Guterres. Sócrates
referiu que abordou a questão numa conversa com Vladimir Putin, durante a
recepção que este ofereceu segunda-feira aos chefes de Estado e de Governo
presentes em Moscovo para assinalarem os 60 anos do fim da II Guerra
Mundial.
A França também já mostrou disponibilidade para apoiar Guterres se o
candidato francês ficar pelo caminho. Falta conhecer a posição dos EUA, que
pode ser decisiva.
Depressão ou recessão?
O número de pedidos de subsídios de desemprego nos centros de emprego dos
EUA aumentou em 327 mil na semana passada, um valor acima dos 310 mil
pedidos esperados pelos analistas.
Em 2004, a economia americana, a maior economia do mundo, cresceu 4,4% e
criou 2,2 milhões de postos de trabalho, o valor mais alto dos últimos cinco
anos.
Mesmo assim, o desemprego continua a aumentar, a média semanal de pedidos de
subsídios de desemprego ronda 300 mil e as opiniões dos analistas
dividem-se: uns dizem que os EUA estão numa recessão e outros que é
depressão.
Mas é uma discussão inútil. Recessão é quando os outros perdem o emprego
deles. Depressão é quando nós perdemos o nosso.
Secredos do Conclave
Apesar do secretismo do conclave dos cardeais que escolhem os papas da
Igreja Católica, sabe-se que os EUA e a Alemanha são os países com mais
influência por serem os maiores contribuintes financeiros do Vaticano.
Os EUA possuem 11 cardeais eleitores e a Alemanha seis. O Brasil, mesmo
sendo o país com a maior população católica do mundo, só possui quatro
cardeais e Portugal apenas um, o cardeal patriarca de Lisboa.
O outro português que fez parte do recente conclave, D. José Saraiva
Martins, foi escolhido devido às suas funções na Cúria.
Bento XVI poliglota
Na primeira audiência pública perante os fiéis na Praça de São Pedro, o
Papa
Bento XVI começou por falar em italiano, prosseguiu em inglês e francês e
concluiu com a sua língua materna, o alemão. Não utilizou o espanhol, tal
como fazia o seu predecessor, João Paulo II, mas corrigiu sábado passado. É
que o espanhol é a língua falada pela maioria dos habitantes da América
Latina, onde se encontram 40% dos católicos. E já agora é caso para lembrar
que os latino-americanos que não falam o espanhol, falam português.
Lagasse é candidato a um prémio Emmy
O telecozinheiro Emeril Lagasse está nomeado para os prémios Emmy de
televisão na categoria de "Best Service Show Host", pelo seu programa
"Essence of Emeril", transmitido pelo Food Channel.
Os Emmy 2005 serão entregues no próximo dia 20 de Maio, no Radio City Music
Hall, de New York.
Natural de Fall River e filho de uma açoriana, Lagasse apresenta dois
programas diários no Food Channel, escreve livros e administra uma cadeia de
restaurantes com o seu nome, o último dos quais no Hotel MGM em Las Vegas.
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Reticências...
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Robert Benchley: "Definir e analisar o humor é o passatempo de pessoas
pouco
divertidas..."
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homens..."
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- Ferreira Moreno
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