Catarina nos Açores

Actuações em Angra do Heroísmo (Palácio dos Capitães Generais
e Teatro Angrense) e Ponta Delgada (Coliseu Micaelense)


Tal como foi aqui referido na última edição, Catarina Avelar, actualmente
uma das mais apreciadas intérpretes de fado na diáspora, partiu ontem,
terça-feira, com destino aos Açores, onde irá actuar nas ilhas Terceira e
São Miguel. O convite partiu do ministro da República, que teve oportunidade
de ver e ouvir esta jovem luso-descendente de New Bedford através do video
"Saudade, Silêncio e Sombra",  que a Promédia Audiovisuais de Fall River
tinha enviado ao programa de televisão "Atlântida", apresentado por Sidónio
Bettencourt. Laborinho Lúcio ficou muito impressionado com a bonita voz e
excelente interpretação da jovem fadista.
A actuação de Catarina em Angra do Heroísmo, sexta-feira, dia 10, insere-se
no programa das celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades,
naquela cidade terceirense, representando a comunidade desta área e tendo
por palco o Palácio dos Capitães Generais, residência oficial do ministro da
República. Será acompanhada por quatro guitarristas locais numa actuação de
cerca de 45 minutos. No dia seguinte, a jovem fadista canta no renovado
Teatro Angrense, espectáculo também inserido no programa das celebrações.
No domingo, dia 12, Catarina parte para a ilha natal de seus pais, S. Miguel
(seu pai é natural da Candelária e sua mãe da Ajuda da Bretanha), onde irá
actuar no renovadíssimo Coliseu Micaelense, em Ponta Delgada, a convite do
município da maior cidade açoriana e actualmente presidido por Berta Cabral.
Esta digressão de Catarina Avelar aos Açores é a concretização de um sonho:
actuar na terra dos pais, ela que embora não tenha nascido no nosso país é
contudo tão portuguesa como eu ou como a D. Maria II. Faz parte de uma
geração desse Portugal moderno que encontra outra amplitude e
redimensionamento na diáspora e nos luso-descendentes. O Portugal de hoje é
muito mais rico com essa nova geração que bebe e respira da nossa cultura em
terras distantes e que não tem merecido a melhor atenção por parte dos lá
residentes. Efectivamente dá-se muito pouca atenção aos valores que vão
surgindo por essa diáspora, a todos os níveis. Tanto nas artes, como nas
letras ou em qualquer outro ramo. Já aqui dissemos mais do que uma vez que o
maior e verdadeiro tesouro de um país não está na beleza da sua paisagem ou
na potencialidade dos seus recursos naturais, mas sim no seu povo. Porque é
ele o motor de tudo. É ele que faz ou acontece.
Ora bem, esta digressão de Catarina aos Açores é quanto a nós a mais
importante de todas da sua curta carreira mas já plena de sucessos. No
passado mês de Janeiro, esta talentosa jovem de 22 anos, futura psicóloga,
teve a importante missão de levar o fado até terras distantes do sudoeste
norte-americano, à cidade de Albuquerque, Novo Mexico, onde pela primeira
vez se fizeram ouvir os sons da guitarra portuguesa na University of New
Mexico e o fado desvendou assim novos horizontes. A nossa menina foi muito
aplaudida e o fado esteve bem representado. Sem dúvida uma aposta ganha pelo
autor destas linhas (que teve a missão de escolher o/a eleito/a e até ganhou
inimizades com isso, mas nada que nos deixasse minimamente preocupados), que
sempre acreditou no valor da jovem. Foi um espectáculo muito importante para
ela, constituindo sem dúvida uma etapa marcante na sua carreira. Contudo,
este espectáculo nos Açores é quanto nós o mais importante para ela até ao
momento, porque na realidade trata-se de dar resposta a um convite que lhe
foi dirigido directamente. Não se trata aqui da Catarina que vai representar
o fado, como foi o caso de New Mexico, mas sim de um espectáculo em que a
jovem fadista Catarina foi convidada, precisamente porque a organização viu
nela talento invulgar e estatura à altura para um evento desta grandeza.
Depois, porque vai cantar no dia mais importante dos portugueses, que é
efectivamente o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades e por último
tem oportunidade de demonstrar aos mais cépticos lá residentes que há
valores aqui que podem emparceirar com os melhores de lá. É só uma questão
de oportunidade. Vou mais longe ainda: quando penso em Katia Guerreiro,
Mariza, Cristina Branco, Mafalda Arnauth, Joana Amendoeira e outros novos
valores do fado, penso em Catarina Avelar também. A diferença está apenas na
máquina promocional e nas condições existentes e favoráveis ao
desenvolvimento desses talentos. Ou seja, há compositores, poetas, músicos e
ambientes de fado que aqui não encontramos. Cantar no Senhor Vinho, na Adega
Machado, no Clube de Fado ou na Parreirinha de Alfama sempre é melhor do que
cantar num salão de igreja com precárias condições acústicas. Sabemos que
algumas pessoas não concordam com estas palavras. Acham exageradas. Têm a
sua opinião e respeitamos. Contudo, pelos conhecimentos e experiências que
adquirimos ao longo dos anos na música (aos 12 anos já solfejava um trecho
musical) sabemos ainda discernir entre gato e lebre e fomos aprendendo que
na maioria dos casos o popular é inimigo do bom e vice-versa.
Finalmente, para aqueles que pensam que a Catarina está a ser levada ao colo
por alguns elementos da comunicação social cá da parvónia (como já ouvi por
aí...) é porque não têm a mínima noção de como as coisas acontecem ou então
devem sofrer de outros males e eu não tenho culpa disso. É certo que a TV, a
rádio e o jornal são fundamentais na divulgação e promoção, mas não resolvem
nada. Não é por essa promoção que vão cantar melhor ou pior, claro está.
Isso não faz a carreira de um artista. Casos há em que promove-se,
divulga-se, mas não passa daí. No caso de Catarina, as coisas são
diferentes. A divulgação da comunicação social neste caso assume foros de um
certo dever em mostrar os valores que temos e dar a saber o que fazem.
Também já aqui dissemos que um jornalista no pleno dever do seu exercício
não deve ter amigos favoritos nem inimigos favoritos. A isenção é uma
virtude que define o carácter do profissional.
Aqui pela nossa comunidade a verdade é que Catarina Avelar já atingiu um
nível alto em que não precisa muito da ajuda de "padrinhos" e da comunicação
social e muito menos deste artigo. Ganhou fama à sua custa. À custa do seu
talento. E é precisamente esse talento que a leva e a tem levado a palcos
que há bem poucos anos atrás nem ela imaginaria pisar.
Esta ida de Catarina aos Açores para actuar neste importante evento deve-se
acima de tudo a ela própria. Poderia ter toda a ajuda e favores do mundo mas
se nos Açores não tivesse agradado, com essa voz que encanta, certamente que
não teria sido convidada.


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