Portuguese Times Eurico Mendes - EXPRESSAMENDES

 

Dias de Portugal


Quer-me parecer que o Dia de Portugal é como o Bengay, só para uso externo.
Nunca celebrei o Dia de Portugal em Portugal e penso que se passará o mesmo
com o prezado leitor.
Na verdade, assumirmo-nos portugueses em Portugal não tem piada nenhuma e
nem é sequer original. Tem piada é ser português no estrangeiro e, para ser
franco, vivo mais à portuguesa nos EUA do que quando vivia em Portugal.
Em Portugal bebia Coca-Cola e coleccionava discos do Sinatra e do Elvis. Só
passei a emocionar-me com o fado, a ponto de molhar lenço, depois de ter
imigrado, para além de ter em casa o galo de Barcelos (por sinal made in
China).
Penso que as celebrações do 10 de Junho em Portugal perdem para o Santo
António, que é três dias depois. E no próximo dia 25 será o São João e por
fim São Pedro, com direito a festa rija no Montijo.
A grande festa do lisboeta é Santa António, com as marchas populares e as
noivas de Santo António, que começaram em 1958, quando os homens casavam só
com mulheres, mas que no próximo ano já deverão ter casais gay, segundo foi
agora anunciado.
Há 50 anos, quando os santinhos eram impopulares, é que o pagode se
divertia.
Cada rua dos bairros populares tinha o seu arraial. Havia sempre uma vizinha
que montava um florido trono de Santo António e mobilizava a miudagem na
pedincha do tostãozinho para o santo.
O dinheiro angariado dava para enfeitar a rua e contratar o cavalinho, o
conjunto musical das marchas, que animava o arraial.
Na noite da festa a miudagem voltava a ser mobilizada para arranjar a lenha
da fogueira roubando os caixotes de lixo da vizinhança. E antes do arraial
propriamente havia sempre um arraial de porrada.
Não sei se ainda se fazem fogueiras nas ruas de Lisboa e nem estou
preocupado, pois concordo com um sr. padre do Luxemburgo que vi há dias na
RTP I a afirmar que "o melhor de Portugal são alguns que lá ficaram e todo
os que de lá partiram."
A verdade é que, para onde quer que imigrem, os portugueses levam Portugal
com eles e procuram reinventá-lo nas suas associações e nas suas festas,
enquanto que em Portugal até já é preciso decreto governamental para obrigar
as rádios portuguesas a transmitirem música portuguesa.
O grande escritor José Rodrigues Miguéis, falecido em 1980, em New York,
onde residia desde 1935, dizia que o universal está no nosso quintal, o que
é preciso é escavar.
O arraial do Dia de Portugal na Acushnet Avenue, em New Bedford, teve este
ano talvez tantos visitantes portugueses como caboverdianos, colombianos e
americanos.
Em Newark, N.J., o Dia de Portugal promovido pela Fundação Bernardino
Coutinho já vai na 26ª edição e este ano teve mais feirantes brasileiros que
portugueses.
E já que falamos em Bernardino Coutinho, lembre-se que, por iniciativa sua,
desde 1996 que novaiorquino Empire State Building é iluminado com as cores
da bandeira portuguesa. Voltou a acontecer este ano, de 10 a 12 de Junho.
Os imigrantes portugueses procuram criar Portugal onde quer que vivam e
assim criam uma pátria universal.
Celebrações do Dia de Portugal em New Bedford, Fall River e outras cidades
com comunidades portuguesas numerosas não são surpresa, mas também acontecem
por vezes onde se julga não haver portugueses.
Pouca gente imagina, por exemplo, que existam portugueses no estado da
Georgia, mas tem uma associação, a Portuguese-American Association of
Georgia, que mantém uma escola por sinal com o nome de Camões e assinala o
Dia de Portugal na cidade de Roswell.
Não me parece que os portugueses em Portugal se juntem para celebrar o dia
nacional
Aliás, as únicas celebrações do Dia de Portugal em Portugal são oficiais e
tiveram lugar este ano em Guimarães, cidade berço da nacionalidade.
Talvez por ser a última vez que presidia à cerimónia (no próximo 10 de Junho
o presidente será outro), Jorge Sampaio agraciou 59 individualidades e
instituições (o ano passado  foram 38).

Foi um tsunami de comendas, umas discutidas e outras discutíveis, e
lembrei-me de um camoniano poema de Aníbal Metralha:


Ornados de comendas os paspalhões,
Todos Henriquinos de vaidades,
Lá vão por estados e cidades
Supondo aparentar de figurões!

Mas oh! Desapiedada sociedade!
O caso que faz deles a multidão
É rir e caçoar sem compaixão
Dos tais comendadores, que crueldade!

Ora já que andam assim achincalhadas,
Nuns heróis cuja fama cheira arruda
Essas pobres comendas malfadadas,

A minha opinião assaz sisuda
Era que eles as trouxessem penduradas
Onde a espinha dorsal o nome muda.

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Jovens talentos
A Rhode Island Philarmonic Youth Orchestra apresentou-se há dias no Carnegie
Hall, sob regência de Alexey Shabalin. É integrada por 159 jovens, entre os
quais dois luso-descendentes de Somerset: Timothy Faria, 17 anos e Maxwell
Silva, 16, ambos violinistas. Silva ingressa brevemente na Greater Youth
Symphony Orchestra.

Cinquentenário
A May & June's School of Dance reuniu 1.200 espectadores no Bray Auditorium,
da Attleboro High School, no recital comemorativo do cinquetenário da
academia fundada em 1954 antigas irmãs Mayer, April Perkoski, May Coubron e
June Everton. A academia é hoje propriedade da filha de Perkoski, Gay
Barboza.

Os melhores filmes
A revista "Time" inclui o filme brasileiro "Cidade de Deus" (2002), de
Fernando Meirelles, na lista dos cem melhores filmes da história do cinema.
A lista foi  elaborada pelos críticos Richard Schickel e Richard Corliss,
que comparam "Cidade de Deus" a uma obra do espanhol Luis Buñuel, "Os
esquecidos".
 
Assaltante azelha
A polícia de Framingham deteve um indivíduo suspeito de vários assaltos à
mão armada e candidato ao título do ladrão mais imbecil do mundo.
Testemunhas informaram que o assaltante usava uma pistola de calibre 380 e a
polícia encontrou essa arma no apartamento do suspeito. Identificado como
Justin Breakspear, 18 anos, o suspeito vai ter dificuldade em dizer que a
arma não era dele, tem uma réplica exacta tatoada no braço, incluindo o
número de série.

Jackson inocente
Depois de sete dias de deliberações, os jurados (oito mulheres e quatro
homens) do Tribunal de Santa Maria, California, consideraram Michael Jackson
inocente de dez acusações, que iam de abuso sexual de um menino de 13 anos a
fornecimento de bebidas alcoólicas a menores. Se fosse considerado culpado
poderia apanhar 20 anos de prisão. A acusação tentou provar que Jackson é
pedófilo e há mais de dez anos que vem abusando de meninos no seu rancho
Neverland. A defesa alegou que o cantor era vítima de chantagem e os jurados
concordaram, o que não surpreende depois do julgamento de O.J. Simpson.
Contudo, Jackson já tinha sido julgado anteriormente por pedofilia e dessa
vez pagou 20 milhões de dólares pelo silêncio do queixoso.

Afilhado de Nossa Senhora
Faleceu segunda-feira, em Lisboa, o dirigente comunista português Álvaro
Barreirinhas Cunhal, 91 anos e com ele desaparece uma parte da história
política de Portugal e da própria Europa. Mas Cunhal não foi apenas
político, foi também autor de livros de história e ficção com o pseudónimo
de Manuel Tiago e pintor com o nome de António Vale. Nasceu a 10 de Novembro
de 1913, em Coimbra e viveu a infância em Seia. Herdou do pai republicano a
firmeza de carácter e teve na mãe uma das principais adversárias
ideológicas. Mercedes Cunhal abominava o comunismo e, profundamente
católica, escolheu Nossa Senhora para madrinha do filho. Mas Cunhal nunca se
deu com a madrinha.

Morreu Eugénio de Andrade
Na madrugada de segunda-feira morria em Lisboa Álvaro Cunhal e, no Porto, o
poeta Eugénio de Andrade, 82 anos. O funeral de ambos realiza-se esta
quarta-feira. Andrade foi na poesia o que Cunhal foi na política, um
resistente.

Recordemos um dos seus poemas:

Tenho o nome de uma flor
quando me chamas.
Quando me tocas, nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que
atravessei.

Eugénio de Andrade, in
"As Mãos e os Frutos",
1948


Guterres toma posse
O ex-primeiro-ministro português António Gueterres é empossado por estes
dias como Alto Comissário da ONU para os Refugiados (ACNUR), cuja principal
função é recolher fundos para uma agência com um orçamento de um milhar de
milhão de dólares anuais e 6000 funcionários em 116 países. Apesar de
Guterres ter sido, como presidente da Internacional Socialista, um acérrimo
crítico da guerra no Iraque e das preferências dos EUA irem para outro nome,
Washington saudou a nomeação do português. Não foi alheio a este apoio o
encontro de Guterres com a secretária de Estado, em Maio,  em Santiago do
Chile, durante a II Conferência da Comunidade das Democracias e que terá
impressionado favoravelmente Condoleeza Rice. "As suas capacidades e a sua
experiência fazem deles a pessoa adequada para ocupar esta importante e
exigente posição. Os EUA estão ansiosos por manter uma colaboração estreita
com o ACNUR sob a liderança de Guterres", refere o comunicado assinado pelo
porta-voz do Departamento de Estado, Richard Boucher. "Os EUA são os maiores
doadores do ACNUR. Vamos trabalhar com António Guterres para garantir
protecção e apoio efectivos aos mais de 17 milhões de refugiados em todo o
mundo".

Aulas de democracia
António Guterres tem contactos ao mais alto nível nos EUA, mas sobretudo com
o Partido Democrático e por isso foi convidado  para a Convenção Nacional
Democrática realizada o ano passado em Boston e, o mês passado, esteve no
Iraque numa iniciativa do National Democratic Institut (NDI, a organização
para as relações internacionais do Partido Democrático). Acompanhado de
Kenneth Wollack, presidente do NDI, Guterres falou a dirigentes políticos
iraquianos sobre a construção da democracia. Entretanto, segundo sondagem
Gallup publicada segunda-feira pelo jornal "USA Today", 59% dos americanos
são favoráveis a uma retirada total ou parcial dos seus soldados do Iraque e
apenas 36% dos consultados desejam a manutenção ou aumento dos 130 mil
soldados americanos mobilizados no Iraque. "A opinião americana está
mudando", disse Ronald Spector, professor de história militar na
Universidade George Washington. "Mesmo aqueles que pensavam que era boa
ideia derrubar Saddam Hussein, querem agora os nossos soldados de volta."

Líderes do futuro
O "Boston Globe" de 5 de Junho publicou a lista dos 34 melhores alunos das
escolas públicas de Boston. Vinte nasceram no estrangeiro, cinco no Viename,
quatro na República Dominicana, três na Albânia e dois em Cabo Verde.
Melhor, a Telma Tavares, aluna da John D. O'Bryant School of Mathematics and
Science, nasceu nos EUA, mas orgulha-se das origens caboverdianas. O José
Barbosa, aluno da Jeremiah E. Burke High School, é que nasceu em Cabo Verde
e imigrou em 2004 para se juntar aos pais que não via há 11 anos e já nem
conhecia.  São alunos brilhantes e o jornal considera-os os líderes do
futuro.

O sonho caboverdiano do Mundial
Conforme escreveu um jornal local, seria um conto de fadas do futebol
internacional se Cabo Verde conseguisse chegar à fase final do Campeonato do
Mundo de 2006. Com menos de meio milhão de habitantes, ninguém dava ao
arquipélago atlântico grandes hipóteses de  viajar para a Alemanha para o
ano. No passado dia 5, Cabo Verde recebeu a África do Sul, os Bafana Bana e
perdeu por 2-1, golos do portista McCarthy. Se tivesse conseguido arrancar
os três pontos, o que seria um feito surpreendente, Cabo Verde ficaria com
com um pé na Alemanha. Falhou, mas ainda assim está com 10 pontos e no
quarto lugar do Grupo 2 africano de qualificação, depois da África do Sul
(15), República Democrática do Congo (12) e Gana (12) e à frente de Burkina
Faso (6) e Uganda (4).  É a segunda vez que Cabo Verde tenta a qualificação
para o Mundial e, se falhar desta vez, poderá ser mais bem sucedido no
Mundial de 2010, na África do Sul, graças à campanha iniciada pelo
seleccionador Óscar Duarte e continuda pelo seu sucessor Alexandre Alhinho.
A ideia foi convencer os futebolistas caboverdianos que jogam no estrangeiro
a representarem o país de origem. A diáspora caboverdiana respondeu ao
desafio e começaram a chegar a Cabo Verde jogadores idos de Portugal, EUA,
França, Holanda e até da Noruega.

Reticências...
Jay Leno diz que Los Angeles tem lojas tão grandes que podem realizar-se
vinte assaltos ao mesmo tempo...
Noivas de Hollywood, segundo Groucho Marx, conservam os ramos de flores e
atiram fora os maridos...
Consegue-se viver em San Francisco com 35.000 dólares por ano, mas claro que
não inclui casa e comida...
Na TV cabo, há um canal que dá o tempo durante 24 horas. É exactamente como
nas ilhas, mas lá chamamos janela...

- Ferreira Moreno


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