Portuguese Times Zé da Chica - Gazetilha



O mês de Maio foi o mês dos corações!...
Os corações, meus senhores,
São como umas bombas cheias,
Autênticos carburadores
Puxando o sangue das veias.

Também seu nome é usado,
Sempre que alguém o queira,
Em sentido figurado
De mil e uma maneira.

Quando a criatura é boa,
De pronto vem o agoiro
Predizendo que a pessoa
Possui um coração d¹ouro.

Em defesa ou acusando
É costume nos cristãos
Dizerem que estão falando
Com o coração nas mãos!

Quando o rapaz à amiga
Fez-lhe pura confissão
Que gosta da rapariga,
Abriu-lhe o seu coração!

Se é um noivo que abusa
Sendo um grande maganão,
A noiva logo o acusa
(Ele não tem coração!...)

Se o homem é bondoso,
Todos respeita e não zomba.
Muito meigo, carinhoso,
(Tem um coração de pomba!)

Mas, se alguém quer convencer
Um duro do coração,
É costume de dizer:
Vou falar-lhe ao coração!

Um tipo muito esmolento
De todos tem compaixão,
Acode a todo o momento,
(Tem um grande coração!)

E quem, boquinha calada,
Ouve tanto safanão
Sem poder responder nada,
Faz das tripas coração.

Quantos, quantos intriguistas,
Temos nós na intenção
Trazer-lhes longe das vistas
E bem longe do coração!

Como há gente mesquinha
Que tenta sempre dizer
Que o coração lhe adivinha
O que vai acontecer!

Se o rapaz quer saber
Se a moça o quer ou não
É costume se dizer:
Vou sondar-lhe o coração!

Sempre o centro se nomeia
De qualquer localidade,
Como coração da aldeia,
Da vila ou da cidade!

É frequente na boa
Ouvir-se esta expressão:
Esta ou aquela pessoa
Entrou-me no coração!

Quando alguém muito amado
Partiu por qualquer razão,
Dizem que: ficou gravado
Dentro do meu coração!
Quando alguém tem um defeito,
Diz sempre alguém que encobre:
Ele é assim deste jeito,
Mas tem um coração nobre!

Uma moça que namora,
Ama com sofreguidão,
Sofre, gesticula  chora,
Mas já deu seu coração!

PS
Mas, quando um dia nos calha
Que doente ou cansado
Em vez d'ele bater falha,
Fica o corpo inanimado.

Nada esperem com franqueza,
Nem com remédios aos mil,
Quando pára, de certeza
Que se esticou o pernil!

Os corações são diferentes
Conforme o peito que o tem
Mas, os mais puros, clementes,
São os corações de Mãe!

Há os da noiva amorosa
Que o noivo a enche de dor
E mesmo assim lacrimosa
Deixa-se morrer de amor!

Havia simS hoje não!
A não ser, para ser franco
No Amor de Perdição
De Camilo Castelo Branco!

Há corações 'inda puros,
Duma bondade que medra.
Mas também há os bem duros
Mais duros que uma pedra!
Pois, toda a gente combate
E afirma que o coração
É dum vermelho escarlate,
Mas há os cor de carvão!

Hoje em dia os corações
Já não são tão comoventes,
Com as transplantações
Já agem muito diferentes.

O coração mais fantástico
Usado esta temporada,
É o feito de plástico,
Não se comove com nada!

Há quem tenha coração
Tão duro, mau e tão drástico
Que, sem transplantação,
É bem pior qu¹o plástico!

Vejam onde eu vim parar
Desculpem o meu engano,
Só vos queria alvitrar
Cuidados c'o corpo humano!

O coração que apressado
Pulsa e faz-nos sentir
A dor de um desgraçado
Sem lhe poder acudir.

Aquele que, além da dor,
Sente a necessidade
De espalhar muito amor,
P'ra toda a humanidade.

Por todas estas nações
Há diabos espalhados
Trazendo os bons corações
Em prisões acorrentados!

Seja qual for o empenho,
O meuS não sei se o tenho!..






      
      


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