António Medeiros e José Plácido ao PT:
"A cantiga ao desafio tem ganho novos adeptos"

Nunca as cantigas ao desafio ocuparam lugar de destaque como actualmente se
verifica. Para além da existência de bons cantadores de improviso nas
comunidades de imigrantes nos EUA e Canadá e do crescente número de
apreciadores, a verdade é que a acção do professor José Brites, tem sido
preponderante para uma maior divulgação e promoção dos respectivos
"artistas" e desta arte popular, bem enraizada sobretudo junto dos
açorianos, quer através da organização de espectáculos pelas organizações
lusas da área reunindo os melhores improvisadores na diáspora, como ainda
através de registos em livro e gravações em disco, como recentemente se
constata pela publicação de dois DVD's já à venda no mercado ("Guerra de
Cantigas ao Desafio" e "Grande Tarde do Improviso"), edição da Peregrinação
Publications USA.
PT entrevistou há algumas semanas atrás dois improvisadores de cantigas ao
desafio, António Medeiros e José Plácido, ambos com quase uma vida inteira
dedicada a esta arte.
Para António Medeiros, natural de Santa Bárbara, Capelas, S. Miguel, esta
arte praticamente nasceu consigo, ele que foi crescendo no meio de grandes
improvisadores, nomeadamente Carvalho, João Maurício, António de Sousa,
Vasco Aguiar, Virgínio da Ponte, João Plácido, Turlu, Charrua, Caneta, Abel
e muitos outros nomes que assumem um claro protagonismo na cantoria ao
desafio.
"Comecei a cantar aos 16 anos de idade, influenciado por muitos amigos e
colegas desta arte, que viram em mim talento para a cantoria de improviso",
começa por nos dizer António Medeiros, que vive de alma e coração para esta
arte. "Actuei sempre na ilha de S. Miguel, parei durante 3 anos para prestar
serviço militar e nunca mais cantei na minha ilha, voltando a fazê-lo já nos
Estados Unidos, quando imigrei para Fall River em 1970. Já nessa altura
havia alguns cantadores e público em número razoável que apreciava a
cantoria ao desafio, pelo que prossegui com as cantorias aqui. Recordo que a
minha primeira cantoria foi no São Miguel, em Fall River, duas semanas
depois de aqui ter chegado, em que participou o famoso Charrua, da ilha
Terceira", recorda António Medeiros, que elogia o professor José Brites pelo
importante papel de divulgação e preservação das cantorias ao desafio. "O
professor José Brites, que não é de S. Miguel e apreciou esta arte popular
já aqui nas comunidades, tem sido um instrumento muito importante na
divulgação desta arte bem enraizada no povo açoriano e todos temos a
agradecer essa sua acção", sublinha A. Medeiros, para acrescentar logo de
seguida que mercê das cantorias ao desafio tem conhecido outras comunidades.
"Tenho actuado em diversas localidades da Nova Inglaterra, Califórnia e
Canadá".
Sobre o futuro das cantigas ao desafio, António Medeiros não tem grandes
esperanças e afirma: "Temo que a cantoria ao desafio pode desaparecer. Não
estou a ver actualmente grandes valores novos. Há apenas um novo cantador à
altura e que tem capacidades para prosseguir, que é o António Resendes,
açoriano da ilha de Santa Maria e que reside na área de
Cambridge/Somerville. De resto não tem aparecido novos cantadores".
António Medeiros tem gravado na sua memória bons momentos nestas lides das
cantigas. "Tenho sentido uma enorme solidariedade e amizade por parte de
muita gente, sobretudo dos meus colegas, que me têm ajudado imenso a
combater a minha doença e na realidade só tenho palavras de agradecimento
para com todos eles", salienta, para adiantar que pretende continuar a
cantar enquanto tiver forças.
A terminar, recorda uma sextilha numa cantoria em que participou com o
saudoso Charrua e cuja temática abordava as bandeiras nacionais dos EUA e
Portugal.

A portuguesa é a mais bela
Com um escudo gravado
A americana é aquela
Que parece um céu estrelado
E cada uma estrela dela
Representa um estado

Para José Plácido, outro dos nossos entrevistados, considerado um dos mais
apetrechados e estudiosos cantadores de improviso da actualidade, tanto nas
comunidades como nos Açores, o actual momento por que atravessam as cantigas
ao desafio, deve-se, para além da acção de José Brites, que tornou mais viva
a arte, com a tal união do passado ao presente, "a uma maior cultura de
certos cantadores, que se têm aperfeiçoado a todos os níveis perante um
público que exige cada vez mais dos cantadores".
Contrariamente ao que muitos possam pensar, a cantoria ao desafio já não é
apenas aquela arte que se cultiva nas tabernas e destinada a um público
menos preparado e exigente. Hoje já não é bem assim. Para José Plácido,
esses preconceitos fazem parte do passado e a cantoria tem ganho novos
adeptos provenientes de vários quadrantes sociais e escalões etários.
"Constato hoje em dia que a cantoria ao desafio ganhou novos adeptos e isso
tem-se verificado nos nossos espectáculos com a aderência de um público mais
preparado e exigente, nomeadamente doutores, estudantes e isso dá-nos um
maior incentivo para nos aperfeiçoarmos cada vez mais", sublinha José
Plácido, afirmando que têm surgido novos valores que imprimem um novo fôlego
a esta arte popular. "Têm surgido novos valores com outra preparação, como é
o caso de José Eliseu, da ilha Terceira e todos temos a ganhar com essa
aderência e o surgimento de novos valores".
Sobrinho do famoso improvisador João Plácido, falecido em 1983, José
Plácido, é natural da Lombinha da Maia, S. Miguel, tendo vivido durante
vários anos na ilha Terceira. O salto para os EUA aconteceu em 1974 fixando
residência em Fall River.
Desde muito novo deu os primeiros passos para o mundo das cantigas ao
desafio. "Comecei nestas lides das cantigas ao desafio por acaso, numa
matança de porco, com os meus dois tios, Manuel e João Plácido, tinha eu 18
anos de idade, se bem que não fosse grande admirador das cantigas ao desafio
e gostasse mais da poesia, adorava escrever. Comecei a cantar com eles e
confesso que durante os primeiros 15 minutos senti-me como peixe na água,
mas a verdade é que a cantiga ao desafio não é assim tão fácil como possa
parecer à primeira vista. Sabe, nesta arte, a experiência da vida é de facto
a melhor escola que um indivíduo pode ter. Recordo que nessa minha primeira
intervenção com os meus dois tios, fiquei envolvido num laço tamanho de tal
forma que eles obrigaram-me a dizer aquilo que eu não queria dizer e não
tinha dito ficando a saber o peso do que era realmente a cantiga ao desafio,
ou seja, não é só elaborar a quadra em si, a rima, a métrica, mas acima de
tudo é preciso procurar o tema, tem que se ser instantâneo e rápido no
improviso para poder responder logo ali", explica José Plácido, para
acrescentar que o improvisador tem de se preparar devidamente no seu dia a
dia, estar a par do que se passa em todos os quadrantes da vida para poder
cantar e improvisar sobre esse tema.
"Antigamente e sem querer menosprezar os improvisadores desse tempo, o
assunto não era muito profundo e actual, sendo mais baseado em temas da
Bíblia e outros assuntos do quotidiano, não com aquele conhecimento profundo
nem questões que de certa forma geram alguma controvérsia", afirma.
Para José Plácido, que vive de alma e coração esta arte de improviso, outra
das barreiras já ultrapassadas foi a geográfica: "Tenho constatado que não
são apenas açorianos nestes espectáculos. Tenho visto muitos continentais
tanto aqui na Nova Inglaterra como em New Jersey, onde tenho actuado.
Portanto, penso que essas barreiras foram ultrapassadas e isso tem a ver, de
alguma forma, com a astúcia e inteligência do cantador, que tem de saber ler
o público mesmo ali em palco e abordar questões e temas que tenham a ver com
todos nós de uma forma geral e que possam enfim suscitar o interesse de
todos", explica.
José Plácido, que já escreveu poemas para vários cançonetistas e fadistas da
comunidade, é de opinião de que a parte cómica da cantiga ao desafio é uma
alternativa, mas não define a categoria do cantador. "O grande cantador ao
desafio não é um grande cómico mas sim uma pessoa que tem de estar bem
preparado para falar em vários assuntos, e mesmo que não esteja a par de um
assunto abordado na catoria saiba ao menos filosofar", salienta.
Sobre o surgimento de novos valores e o futuro desta arte popular nas
comunidades, José Plácido afirma que "temos bons rebentos, mas há que saber
levar isto por etapas, ter calma e saber acima de tudo cultivar esta arte.
Posso apontar o exemplo de um novo valor, António Resendes, que é como um
diamante que precisa de ser polido, é respeitador e respeitado. O homem
nasce, cresce, vive e tem que ser ajudado... Temos que saber ajudar os
novos, tal como já fomos ajudados. A minha referência é o meu tio, pelo que
foi através dele que comecei a gostar disto", esclarece, afirmando que "a
melhor maneira de desenvolver e cultivar esta arte está no aperfeiçoamento e
valorização de cada um".


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