Portuguese Times Eurico Mendes - EXPRESSAMENDES

 

Quando o padre Dinis era a luz do Chiado

Por iniciativa da Câmara Municipal de Nordeste, ilha de S. Miguel,  foi
inaugurado em São Pedro do Nordestinho o busto de um ilustre filho da terra,
padre Dinis da Luz Medeiros, prosador e poeta de muito mérito.
Nascido a 8 de Setembro de 1915, Dinis da Luz frequentou o Seminário de
Angra, ordenando-se em 1938. Celebrou missa nova na terra natal a 10 de
Agosto, em que foi pregador outro padre-poeta, José Jacinto Botelho,
literariamente António Moreno, inspirador do nosso Ferreira Moreno, que é na
realidade o padre Joe Ferreira.
Ainda seminarista, Dinis da Luz começou a colaborar na imprensa açoriana,
assinando Dazul, anagrama do seu nome e acabou por se tornar redactor do
diário da diocese, A União, de Angra do Heroísmo. Em 1940, com 25 anos,
abalou para Lisboa e ingressou no diário A Voz, onde esteve 31 anos.
Surgido em 1927, A Voz era herdeiro da Época, título lançado na agonia da
monarquia. No cabeçalho, proclamava-se jornal monárquico e católico e "o
diário português com mais assinantes". Mas vendia pouquíssimo, nunca vi um
ardina apregoar A Voz e dizia-se que o jornal sobrevivia com um subsídio da
União Nacional de 10 contos diários.
Em 1956 eu já tinha a mania dos jornais e o meu amigo padre Manuel Marques,
para se ver livre de mim no Jornal de Almada que acabara de fundar, levou-me
um dia a Pedro Correia Marques, director de A Voz, que me admitiu como
estagiário e entregue aos cuidados do padre Dinis da Luz.
A Voz era no Bairro Alto, bairro marialva, de prostitutas, fadistas,
taberneiros e fadistas. Dos diários que então se publicavam em Lisboa, e era
uma dezena, só o Diário de Notícias e o Novidades não eram no Bairro Alto.
O Diário de Lisboa e o Diário Popular ficavam na Luz Soriano. O Século era
no Palácio do Marquês, perto da Calçada do Combro. E havia ainda muitas
outras publicações como os satíricos Sempre Fixe e Os Ridículos, na Rua da
Barroca, onde conheci o lendário cartunista Stuart Carvalhais, quando já
deixara de beber e os amigos chamavam-lhe por gozo o Stuart Carvalhelhos.
A Voz era impressa numa velha tipografia da Rua das Gáveas e a redacção era
num segundo andar da Rua da Misericórdia, pouco acima do Largo do Camões. No
primeiro andar ficava a delegação do Comércio do Porto, dois quarteirões
acima estava o Diário da Manhã, também órgão da União Nacional e, no lado
oposto da rua e da ideologia, era o República.
A redacção era uma sala com uma mesa enorme a que chamavam "estiva" e onde
se sentavam todos os redactores. Sobre a mesa, maços de linguados feitos com
as sobras do papel de impressão e tinteiros. A Bic ainda não tinha sido
inventada.
Com direito a mesa própria, apenas o redactor de serviço e o chefe de
redacção, César Afonso, que tinha também um lápis azul com que retalhava a
prosa dos novatos como eu.
Creio que César Afonso era também professor na Casa Pia, pois quase todos os
jornalistas de A Voz tinham outro emprego. O jornal pagava mal e a mim nem
sequer pagava.
Como o jornal era matutino, alguns jornalistas trabalhavam também em
vespertinos, caso dos Santos Jorge, pai e filho, que eram também do Diário
de Lisboa. Santos Jorge pai fazia a "Arcada", a gíria das notícias dos
ministérios.
Arcada era alusão às arcadas do Terreiro do Paço, onde estavam os
ministérios.
O Navarro, responsável pela secção do estrangeiro, assinava com vários nomes
em várias publicações. A crítica de cinema estava a cargo do italiano Luigi
Gario, que tinha uma mania: assinava a crítica de teatro como Gino Gario. O
José Manuel Pereira da Costa, com quem fiz amizade, estava na agência ANI.
Foi o jornalista que, em 1958, na famosa conferência de imprensa do café
Chave d'Ouro, formulou a pergunta em que Humberto Delgado anunciou que
demitiria Salazar.
Pedro Correia Marques só ia ao jornal de tarde para escrever a sua coluna,
"Das ideias e dos factos" e Dinis da Luz era dono e senhor daquilo até à
chegada de César Afonso. Entrava de manhã e começava a despachar cópia para
a tipografia.
Embora Dutra Faria, director da ANI e arauto da União Nacional, figurasse
como redactor principal, o título deveria ser de Dinis da Luz.
Eu entrava por volta das 10 da manhã e a minha primeira tarefa era ir à
Brasileira, na Rua Garrett, buscar duas bicas. Uma para o padre e outra para
mim.
Nos anos 50, cada mesa da Brasileira era uma tertúlia. Dinis da Luz era
cliente assíduo e quase tu cá tu lá com gente como Aquilino Ribeiro, que
nesse tempo ganhava 500 escudos pelo artigo que escrevia ao domingo no
Século; Ferreira de Castro, que indigitou Dinis da Luz para a Sociedade dos
Escritores Portugueses; Vitorino Nemésio, ainda um ilustre desconhecido pois
não tinha começado a fazer as suas charlas na RTP, que também não existia;
Moreira das Neves, redactor do Novidades e também padre e poeta; Urbano
Carrasco do Diário Popular, que foi num barquinho a remo colocar a bandeira
portuguesa na ilhota formada pelas cinzas do vulcão dos Capelinhos.
Mal eu entrava, Dinis da Luz passava-me um braçado da imprensa regional e
colonial, onde assinalara previamente notícias que eu deveria refundir.
Graças a essa incumbência fiquei a conhecer jornais interessantes e
distantes como o Heraldo de Goa, que vinha de barco e levava cinco meses.
Quando lhe entregava o original, Dinis da Luz costumava reclamar:
"Tens que reduzir."
"Reduzi ao mínino, senhor padre."
"Mas quero é que reduzas ao máximo."
Quando César Afonso chegava, Dinis da Luz vestia o sobretudo preto, agarrava
na pasta e num braçado de jornais ingleses e americanos e, sempre nervoso,
abalava a correr, como um raio. Talvez por isso o poeta Afonso Lopes Vieira
lhe tenha chamado um dia "a luz do Chiado".
Algumas vezes descíamos juntos a Rua do Alecrim até ao Cais do Sodré, onde
ele tomava o eléctrico para Belém e eu o barco para a outra banda. Iamos
cavaqueando. Melhor, ele falava e eu ouvia.
Deliciava-se a falar do Benfica e, quando o chatiavam, respondia secamente:
"Não é do Benfica quem quer, é quem pode."
Outro tema que o encantava eram os Açores, dos quais era considerado
"cônsul" em Lisboa. Os açorianos chegados à capital habituaram-se a recorrer
ao conterrâneo, que valeu a muitos com os seus conhecimentos e algumas vezes
com a bolsa.
Ficou célebre uma afirmação de Dinis da Luz: "Em Lisboa sou dos Açores; nos
Açores sou de S. Miguel; em S. Miguel sou do Nordeste; no Nordeste sou do
Nordestinho; no Nordestinho sou do Burguete e no Burguete sou de Lisboa".
Um dia resolvi trocar A Voz pela Rádio Voz de Lisboa, mas continuei a
encontrar o padre Dinis da Luz na Brasileira até vir a tropa que, em 1961,
me levou a Angola, onde viria a reencontrar anos mais tarde o Pereira da
Costa, como director do Diário de Luanda, pertença da União Nacional.
Salazar morreu, Marcelo Caetano subiu ao poder e uma das suas primeiras
decisões, em 1969, foi fundir A Voz com o Diário da Manhã e relançar a Época
como novo órgão da União Nacional, entretanto rebaptizada como Acção
Popular.
Eu já vivia em Angola nessa altura, mas chegou-me a notícia de que Dinis da
Luz não quisera ingressar na Época nem no Novidades, para onde chegou a ser
convidado. Talvez não se desse com marcelistas. Fosse porque fosse, decidiu
abandonar a carreira jornalística e retirar-se para a terra onde nasceu. E
quer-me parecer que começou a morrer com essa decisão, pois no Nordeste
faltavam-lhe as redacções onde passara toda a vida. Estava no Burguete, mas
pensava em  Lisboa. Quer-me parecer que faleceu muito antes de 1988, quando
entregou a alma ao Criador.
Sempre que penso em Dinis da Luz, lembro uma frase que lhe ouvi algumas
vezes:
"Sabes pá, peixe grande não sobrevive em lago pequeno."

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Agora é que são elas
As associações portuguesas nos EUA começaram por ser  exclusivamente
masculinas e as mulheres só conseguiram entrar pela porta da cozinha e com o
estatuto discriminatório de "senhoras auxiliares". Mas tal como as mulheres
começaram nos últimos anos a exercer profissões até então exclusivas dos
homens, também vimos assistindo à crescente liderança feminina nas
colectividades luso-americanas.
Belmira Cordeiro, de Somerville, foi agora eleita presidente da União
Portuguesa Continental, a maior sociedade mutualista lusa nos EUA. O Clube
Juventude Lusitana, de Cumberland, já teve uma presidente portuguesa e em
Newak, N.J., Maria João Ávila preside há vários anos à direcção do  Lar dos
Leões.
Os homens vão perdendo o comando e estão cada vez mais parecidos com os
galos que, como dizem lá para os nossos sítios, só cantam ao romper do dia
porque depois acordam as galinhas e eles nem piam.

Polícias poliglotas
Os atentados de 11 de Setembro de 2001 levaram o FBI e outras polícias
americanas a aumentar o quadro de intérpretes de árabe e outras línguas. A
polícia de New York procurou elementos fluentes noutras línguas e são mais
de quatro mil.
Os idiomas mais falados na polícia de New Yok são o espanhol,  francês,
chinês, hindu, russo, alemão, grego, urdu, polaco, bengali e português,
falado por 122 polícias. O árabe vem em 12º, mas ninguém acredita que haja
tão poucos árabes entre os 50 mil funcionários da polícia de New York.
Acontece é que os árabes nos EUA estão receosos em assumir as origens e não
deixam de ter razão com tanto árabe a ser preso, interrogado e deportado.
Acontece o mesmo em Espanha, onde estão detidos inúmeros magrebinos, por
delitos comuns ou no quadro de investigações terroristas, e a polícia só
conseguiu 30 tradutores-intérpretes de árabe.

Naturalizações
Cerca de 3.000 imigrantes, entre os quais numerosos portugueses e
brasileiros, prestam juramento como cidadãos dos EUA no próximo dia 29 de
Julho, em Boston.
Apesar dos crescentes entraves à imigração, os EUA ainda são um país onde é
fácil obter a cidadania. Basta um registo criminal limpo e residir
legalmente cinco anos no país.

Harry Potter
O novo livro da série Harry Potter, Harry Potter and the Half-Blood Prince
vendeu 6,9 milhões de cópias durante as primeiras 24 horas em que foi
comercializado no EUA, gerando mais de 100 milhões de dólares. No Reino
Unidos foram vendidas dois milhões de cópias no dia do lançamento. Na
Madeira, foram vendidos cerca de 100 exemplares e em Lisboa cerca de 5.000.
A autora de Harry Potter viveu em Portugal. JK Rowling foi casada com um
funcionário da RTP, de quem tem uma filha adolescente e viveu algum tempo no
Porto. Mas não foram tempos felizes, pelo contrário. O marido era
tóxicodependente e Rowling passou dificuldades.

O Rovegate de George W. Bush
Richard Nixon teve Watergate, Ronald Reagan o Irangate e Bill Clinton a
Monica Lewinsky. O escândalo atingiu todos estes presidentes no segundo
mandato e George Bush não foge à regra e tem o Rovegate.
Karl Rove é sub-chefe da Casa Civil de George W. Bush e foi o arquitecto das
suas duas vitórias eleitorais.
O caso remonta a 2002, quando o embaixador Joseph Wilson foi enviado a
África com a missão de apurar se Saddam Hussein estaria comprando urânio ao
Níger.
As alegadas armas de destruição em massa do Iraque nunca foram encontradas
e, no ano seguinte, Wilson escreveu um artigo no New York Times afirmando
que a administração Bush falseara dados dos serviços secretos para
justificar a invasão.
Dias depois da publicação do artigo no New York Times, veio a público a
notícia  de que Valerie Plame, mulher de Wilson, trabalhava para a CIA num
artigo do conservador Robert Novak, que citava  "duas altas fontes" da Casa
Branca.
Valerie Plame é especialista em armas de destruição em massa, e o marido
sustenta que a divulgação do seu nome foi um acto de vingança por causa do
artigo no New York Times.
O envolvimento de Rove nesta embrulhada começou por ser divulgado pela
revista Newsweek. O escândalo continua a crescer e a tornar-se sério
embaraço para a Casa Branca.
Nos EUA, é crime um funcionário público revelar a identidade de um agente
secreto e, quando o escândalo se tornou conhecido, Bush disse que "ordenara
uma investigação séria" e prometeu demitir imediatamente o responsável.
O caso começou a ser investigado por um promotor especial, Patrick
Fitzgerald, e a primeira vítima foi a jornalista Judith Miller, do New York
Times, que foi parar à prisão por se recusar a revelar ao júri a sua fonte
de informação sobre a identidade da agente da CIA.
"Se não se pode confiar em jornalistas para manter segredos, então os
jornalistas não podem operar e não pode haver uma imprensa livre", disse
Miller.
Mas o seu colega Matthew Cooper, da revista Time, mudou de ideia e resolveu
revelar de quem obteve as suas informações: Karl Rove.
Desde então, Bush deixou de falar no assunto de que toda a gente fala.
Alguns republicanos sairam em defeesa de Rove, dizendo que não teve o
propósito de divulgar o nome da agente da CIA, mas apenas advertir a
imprensa para a "falta de credibilidade" de Joe Wilson.
A opinião generalizada em Washington é que Bush irá continuar a proteger
Rove enquanto este não for alvo de acusações legais, decisão que cabe aos
jurados.
Alguns democratas insistem em pedir a cabeça de Rove e os críticos mais
maldosos dizem que será um perigo para os EUA, visto Rove ser precisamente o
"cérebro do presidente".

Armstrong pedala para o triunfo
Iniciado no passado dia 2, o Tour termina no próximo domingo, 24 de Julho e
Lance Armstrong, agora na equipa Discovery Channel,  já pode começar a
escrever o discurso da vitória. Se não tiver nenhum azar, o norte-americano
deve conseguir o seu sétimo triunfo consecutivo na Volta a França, a maior
prova de ciclismo do mundo. Os adversários que podiam aspirar subir ao pódio
fraquejaram nos Pirinéus e agora vão ter que pedalar muito para despirem a
camisola amarela a Armstrong.
Até domingo, o americano vai ter sempre a seu lado o português José Azevedo.
O ciclista de Vila do Conde esteve o ano passado no triunfo do americano e
conseguiu ele próprio o quinto lugar na classificação geral. Este ano, as
coisas não estão boas para o português, está em 25º e daqui até Paris vai
ter que se preocupar mais com Armstrong do que com ele próprio.

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Reticências...

- Os nossos antepassados construiram civilizações, nós construímos centros
comerciais...

- Alguns homens nascem medíocres, outros esforçam-se para lá chegar...

- Um banco é um local onde nos emprestam dinheiro desde que a gente prove
que não precisa...

- Os santos confiam em Deus, nós confiamos no dinheiro...

- Tentar convencer um invejoso é como discutir com um polícia, quanto mais
se insiste, pior as coisas ficam...

- É extremamente difícil homens de diferentes nacionalidades trabalharem
juntos quando têm uma espingarda num ombro e galões no outro...

- Quando se reza pelo pão nosso de cada dia, não se deve reclamar se não for
pão de ló...

Ferreira Moreno


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