No Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, na ilha Terceira
Catarina Avelar, uma jóia da comunidade luso-americana, cantou e deslumbrou

. Por João Gomes Vieira*

O Solar da Madre de Deus em Angra do Heroísmo, residência oficial do
Ministro da República para os Açores, celebra anualmente o dia 10 de Junho,
feriado nacional, com uma recepção às altas individualidades, locais e
regionais.
O programa das comemorações compõe-se da cerimónia de hastear as bandeiras,
Nacional, Regional e da União Europeia, acto que é saudado pelas
filarmónicas que tocam os respectivos hinos, enquanto assistem em "parada"
os chefes dos três ramos das Forças Militares representadas nos Açores.
O presidente da Assembleia Legislativa dos Açores, representante do Governo
dos Açores, presidentes das Câmaras da Ilha, Bispo da Diocese, que após a
cerimónia celebrou uma missa na Capela do Solar, a que assistiram os
restantes convidados, foram entidades que participaram nas cerimónias.
O programa das celebrações baseia-se essencialmente duma comunicação do
ministro da República alusiva à comemoração do Dia de Portugal e seu
significado, seguindo-se a cerimónia de entrega das condecorações em acto
público e um programa músico-cultural que se estende até ao final da tarde,
que por norma encerra com um concerto musical.
No presente ano, a cerimónia de entrega de condecorações, bem como a parte
cultural teve lugar no vetusto Teatro Angrense - sala de espectáculos por
excelência da Cidade Património Mundial.
A artista convidada foi Catarina Avelar, uma estrela que brilha no
firmamento da diáspora açoriana em terras da América, que se fazia
acompanhar pelos pais João e Maria de Jesus Avelar, naturais da ilha de São
Miguel.
A promissora jovem é um rebento da cidade baleeira de New Bedford, a cidade
que iluminou o mundo e minha cidade de adopção. Esta jovem que tem muito
para dar, veio ao mundo há 23 primaveras.
Se já é uma figura muito presente e querida no panorama musical da diáspora
portuguesa da Nova Inglaterra, onde brilha como uma grande estrela no mundo
do fado, com actuações em vários estados da grande América, pelos seus dotes
e talento artístico, será mais um "astro" que em breve vai brilhar com
intenso fulgor entre as figuras primeiras do fado português.
Desde menina de escola que a Catarina canta na igreja católica de São João
Baptista da sua cidade natal. (Note-se que foi a primeira igreja católica
erguida em toda a América do Norte, onde ainda canta todos os domingos,
chegando a cantar em outras igrejas do imenso estado de Massachusetts, onde
é muito solicitada para vários acontecimentos sociais, religiosos e muitos
actos de benemerência, que é figura habitual e muito apreciada).
Catarina é licenciada pela Universidade de Roger Williams University, do
estado Rhode Island.
Dificilmente lhe damos os 23 anos, pela sua juventude e cara de menina que
lhe é característica, pois poderia ser tomada por uma adolescente colegial.
Quando surgiu no palco do Teatro, até parece que a assistência deixou de
respirar... A sua presença simples e graciosa irradiava luz como um farol em
noite escura - o público que não cabia na plateia, ficou deslumbrado - antes
que pronunciasse qualquer som...
Apesar da sua juventude e não pretender ser uma profissional do fado, já não
é uma estreante dos palcos, com a graça, o àvontade e talento que é apanágio
das vedetas (estrelas) brilhou, cantando os poetas portugueses: Amália
Rodrigues, Alberto Janes, Linhares Barbosa, Alexandre O'Neil, José Galhardo
e José Régio. Foi acompanhada á guitarra pelo professor Carlos Baptista e o
seu trio de violas.
O palco de um teatro, por melhor que ele seja, nunca permite dar a atmosfera
das tabernas onde o fado nasceu emprestado à fadista e ao trinado das
guitarras aquela "divindade" de mistério sonho e sentimento que nos
transporta para uma dimensão que só pode ser inspirada por "Anjos Sonoros".
Não obstante isto e as inadequadas condições acústicas do teatro - Catarina
cantou e deslumbrou, foi aplaudida de pé com uma prolongada e calorosa salva
de palmas.
As obras que estavam em curso no Teatro Angrense impediram que fosse
felicitada no camarim, que teve de ser improvisado junto do hall de entrada.
Os chefes dos três ramos das Forças Armadas Portuguesas nos Açores e o
comandante do Destacamento Norte-Americano na Base Aérea das Lajes e várias
individualidades, pediram para posarem ao seu lado.
Depois dos cumprimentos de felicitações, o tenente general Carlos Cadavez,
Comandante Operacional dos Açores, que é um amante do fado, que se fazia
acompanhar da esposa e pelo seu ajudante de Campo, fez saber que teria honra
de fazer uma recepção à fadista, aos pais e acompanhantes na Sala de
Oficiais do Castelo de São João Baptista, na península do Monte Brasil,
sobranceiro á cidade de Angra do Heroísmo.
A Catarina e os seus acompanhantes foram recebidos pelo governador do
Castelo, coronel Carreto Cuba, que deu as boas vindas.
A tarde já caía naquele fim do Dia de Portugal e de Camões. O Sala da Messe
de Oficiais do Castelo, com pavimento em tabuado de pau rosa, pau cetim e
pau santo, madeiras nobres e tecto em tabuado de madeiras ricas, emprestou a
acústica e alta dignidade ao inesperado acontecimento. As guitarras trinaram
com a sonoridade perfeita que acompanharam a voz de ouro da Catarina, com o
seu àvontade sem projectores nem microfones e com a  característica
simplicidade e graciosidade, brilhou como uma estrela que é, - de primeira
grandeza.
Todos escutaram de pé por mais de uma hora o vasto e rico repertório de
Catarina.
Num intervalo entre um fado e outro, alguém disse: - Permitam-me
Excelências: - que se registe na história do fado, que neste vetusto
castelo, três Oficiais Generais das Forças Armadas Portuguesas ouviram e
aplaudiram de pé, uma americana na língua de Camões, cantou os poetas
Lusíadas, o que demonstra a grandeza da alma de Portugal - não poderia haver
melhor nem maior gesto para honrar Camões, os poetas e as comunidades
portuguesas, ao que o senhor Governador do Castelo - completou o mais antigo
castelo português no Atlântico, que depois mandou passar o Diploma de
Visitante de Honra do Castelo de São João Baptista de Angra do Heroísmo.
(Alguém ficou com os olhos marejados de àgua).
Depois deste inesperado e improvisado encontro de fado, surgiu a maior
surpresa. O Tenente Gene-ral Carlos Cadavez Comandante Operacional das
Forças Armadas nos Açores, brindou os presentes com uma mão cheia de fados,
com a sua potente voz bem timbrada ao estilo do saudoso Manuel de Almeida. O
tenente general Cadavez fazia-se acompanhar pela esposa, bem como o
comandante da Zona Militar dos Açores, major General Matos Coelho, major
general PILAV António Mimoso comandante da zona Aérea dos Açores,
vice-presidente do Governo dos Açores, presidente da Câmara Municipal de
Angra do Heroísmo e esposa, membros do Governo dos Açores e o
vice-presidente da Casa dos Açores em Lisboa.
Na sua viagem de regresso aos Estados Unidos, com passagem por Ponta
Delgada, Catarina Avelar foi convidada de honra da senhora presidente da
Câmara Municipal de Ponta Delgada, Berta Cabral, que é amante do fado.
O Centro Municipal de Cultura de Ponta Delgada foi pequeno para acolher
todos aqueles que quiseram conhecer, ver e ouvir a Catarina, que voltou a
cantar e a encantar.
Pena foi que a guitarra de José Pracana (que dispensa referências),
estivesse em Lisboa, porque teria sido um prometido serão de deslumbramento.
Um dia, as guitarras de José Pracana e D. Vicente da Câmara, nomes de
referência da guitarra portuguesa e do fado, vão voltar a trinar para
acompanhar a Catarina - luso-americana, embaixatriz da língua de Camões e
dos poetas de Portugal na diáspora americana, que é a décima ilha dos
Açores.
New Bedford e Massachusetts é o prolongamento dos Açores, do outro lado do
mar que nos "separa e nos une".

*Antigo Director do Museu
da ilha das Flores
Flores, 10 de Julho, 2005



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